Pilar.
Quando eu fui selecionada pra entrar para o estágio o meu coração se alegrou e eu vi alí uma oportunidade de fazer algo realmente pra quem precisa sem cobrar nada em troca, sempre foi meu sonho poder ajudar e auxiliar pessoas em situações mais difícil, mas eu nunca imaginei que teria que passar uma barra pra fazer algo apartamento simples.
Parece que tudo está conspirando contra mim. A primeira coisa é meus pais ainda não sabem e isso me deixa muito aflita e com medo de ser descoberta antes de tomar coragem e falar com eles, o segundo obstáculo foi aquela maluca que quase me agrediu por um acidente e agora toda vez que ela me vê fica fazendo caras e bocas e jogando piadinhas e por fim é de uma certa forma aquele ambiente me incomoda muito. Eu nunca estive em uma comunidade antes e eu jamais imaginei que as coisas eram tão banalizadas, os caras andam de um lado para o outro com armas nas mãos sem se importar com a presença das crianças, usam e vendem d***a em qualquer lugar e o tráfico que é levada de uma forma tão normal que me assusta.
Toda vez que paro e penso nós moradores dessa comunidade eu sinto pena das crianças que vão crescer nesse ambiente, será mais um para a estática e é tão r**m saber que eu não posso mudar isso com facilidade.
- ta pensando em que?- a voz da minha mãe surgiu fazendo meus pensamentos se dispersarem.
Desvio meu olhar da avenida, arrumo minha postura no banco do carro e olho para frente.
- nada demais mãe!- respondo sem encara-la.
Ela arranhou a garganta naquele momento e me olhou de r**o de olho com um sorriso em seus lábios.
- tem um gatinho no meio?- ela me questionou tirando uma risada de mim.
A minha mãe é uma figura, ela sempre surge com uns bordões que eu nunca ouvi na minha vida ou com perguntas errada em momentos inapropriados, mas a situação acaba sempre sendo no mínimo cômica.
- não tem "gatinho" nenhum mãe, eu nem penso nessas coisas.- digo ainda sem encara-la.
A minha mãe é minha melhor amiga e eu faço questão de partilhar grande parte dos meus segredos com ela. É tão r**m ter que ficar escondendo as coisas que estão acontecendo, as vezes eu chego em casa animada com v*****e de contar uma nova experiência e me lembro que não posso pra estar mentindo pra ela.
- Ô Pilar, você ainda não superou aquele embuste do teu ex que foi um verdadeiro canalha contigo?- ela pergunta me fazendo bufar.
- eu até tinha me esquecido daquele filho do cão, mas agora que você me lembrou vai ser difícil tirar aquele embuste da cabeça.- digo irritada.
Há exatos quatro meses atrás eu estava em relacionamento sério aonde eu estava completamente iludida. Eu imaginava que o filho da mãe do meu ex era uma coisa e pra minha surpresa eu descobri que ele era um verdadeiro filho de uma c****a. O desgraçado me traiu com Deus e o mundo e quando eu descobri e terminei com o relacionamento ele teve a coragem de espalhar boatos sobre nossa a vida íntima. Eu olho pra trás e me arrependo amargamente de ter me envolvido com um canalha mentiroso e que ainda por cima nem me fazia gozar.
- mas eu sempre te avisei que aquele moleque com cara de retardado não prestava, mas você estava tão cega que não enxergava um palmo a sua frente.- ela desandou a falar.
Minha mãe aproveitou a oportunidade pra me dar bronca por coisas que eu fiz quando tinha dez anos de idade e eu fui obrigada a ouvir já que não tive coragem de pular da janela do carro em movimento.
Quando ela estacionou o carro em frente a minha faculdade eu senti um alívio tomar conta de mim, eu soltei um suspiro e dei um sorriso largo.
- obrigada pela carona mãe, eu te amo muito!- me despeço beijando o seu rosto e saio do carro antes que ela invente de falar mais alguma coisa.
Ela ficou me olhando através da janela do carro, acenou com as mãos enquanto sorriso enquanto sorria e logo após arrancou o carro partindo dali.
Ajeito minha bolsa em meu ombro e me viro pra frente caminhando em direção ao portão de entrada da minha faculdade. O meu primeiro tempo é de aula vaga, então eu fui direto para a lanchonete da faculdade pra comer algo já que não deu tempo de toma café da manhã. Eu acabei comprando uma coxinha de frango com requeijão, um sanduíche natural e um guaraná Antártica pra complementar.
A lanchonete nesse horário esta sempre vazia, então eu peguei o meu café da manhã e me sentei em uma mesa para comer enquanto olhava algumas coisas no meu celular.
- fala maluca!- uma voz familiar surgiu atrás de mim e alguns segundos depois Quel sentou ao meu lado.
Sorrio de lado sem entender e levanto uma sobrancelha, ela deveria estar em aula uma hora dessas.
- o meu professor de penal faltou e eu não queria ficar malocada dentro daquela sala.- ela se explicou antes mesmo que eu fizesse alguma pergunta.
Aceno com a cabeça concordando e dou mais uma mordida em minha coxinha que está dos deuses.
- quer um pedaço?- pergunto por educação porque dentro de mim tudo pedia pra ela não aceitar.
Raquel balançou a cabeça negando e fez uma careta como de quem está com nojo da minha refeição.
- não, muito obrigada!- ela diz sem me encarar.
- eu que agradeço!- respondo com um sorriso enorme em meu rosto.
Dou os ombros sem me importar com aquela situação e dou mais uma mordida bem grande na minha coxinha e sinto prazer tão saborear aquela delícia.
- como vai o estágio?- ela me perguntou do nada chamando minha atenção.
Limpo minha boca no guardanapo e dou um gole em meu refrigerante dando os ombros.
- tranquilo! Tirando o fato que eu tenho que vê aquela maluca todos os dias.- digo e reviro os olhos.
Toda vez que eu vejo a tal de Karen ela tá grudada no pescoço daquele traficante m*l encarado, pra ser honesta bem que os dois se merecem e se completam. Dois trogloditas que se sentem donos do morro, quando eu penso nós dois eu repenso sobre o meu estágio.
- você também é um poço de lerdeza Pilar! Aonde já se viu abaixar a cabeça e deixar a pessoa montar em montar em cima de você? Se fosse eu tinha metido a mão na cara dela e não tava nem aí.- Raquel diz me fazendo revirar os olhos de nervoso.
- seria a conta de levantar a mão e perder todos dentes da boca. Eram cinco cavalonas contra mim que sou menor que uma formiguinha.- me explico pela milésima vez.
Raquel deu os ombros soltando um suspiro e acenou com a cabeça concordando comigo.
- se tu quiser eu posso subir lá contigo pra gente dar uma boa lição nessa safada.- Raquel diz tirando uma gargalhada de mim.
Quem conhece a Raquel sabe bem que ela adora se meter em uma confusão mesmo que ela não tenha nada haver com o problema, as vezes eu acho que ela fica procurando brigas pra se meter só por prazer de se estressar.
Me levanto pegando minha bolsa e guardo meu celular dentro de um dos bolsos.
- muito obrigada amiga, mas já está tudo sobre controle e na mais perfeita paz.- digo dando um sorriso e dou uma piscada pra ela.
Nos ficamos por mais algum tempo trocando uma ideia alí mesmo na lanchonete, mas em um certo momento nos nós despedimos e cada uma seguiu para sua respectiva classe.
A aula passou muito rápido e foi muito tranquila. Nós apresentamos alguns trabalhos e ficamos fazendo resumos como de costume.
Quando o relógio deu exatamente onze horas em ponto eu organizei meus materiais em minha bolsa e saí da sala indo embora. Eu até procurei por Raquel pra perguntar se ela queria almoçar comigo em um pub aqui perto da faculdade, mas ela virou fumaça, então eu peguei minha condução e fui direto para o morro pra almoçar lá na instituição mesmo.
O ônibus me deixou no pé do morro como de costume e eu subi aquela ladeira que deixa minhas completamente moles. Depois de quase duas semanas trabalhando aqui na comunidade eu já estou pegando o jeito para as coisas e já não me perco mais entre esses becos e vielas.
Eu preciso confessar que me sinto muito estanha no meio de um mundo tão diferente do meu, as coisas aqui são tão diferente da zona sul e pensar que em um mesmo Estado e em uma distância razoável as pessoas vivem de maneira tão diferente.
Eu disse que já estou acostumado com o trajeto aqui no morro, mas uma coisa que eu nunca vou me acostumar é em passar em frente a boca e vê com meus próprios olhos esses moleques que m*l saíram da fralda com armas tão pesadas na mão e vivendo uma vida que não pertence a ser humano algum.
Eu abaixei a cabeça e apertei o meu passo ao notar que já estou me aproximando daquele lugar, eu sei lá o que esses moleques tem na cabeça.
Eu já estava quase no fim da rua quando uma moto Hornet R1 vermelha surgiu no fim da rua vindo bem em minha direção, eu não sei bem se é coisa da minha imaginação, mas a cada passo que eu dou a moto diminui a velocidade. A tal moto parou bem ao meu lado e o piloto tirou o capacete me encarando com um sorriso estranho em seus lábios.
- por que eu nunca te vi aqui?- o homem que eu não conheço me perguntou de olhos cerrados e me encarando com malícia no olhar.
Eu engoli seco e respirei fundo tentando manter minha calma e agir da maneira mais correta possível.
- eu não moro aqui, mas faço estágio lá na UMEI.- respondo meio que sem jeito com toda aquela situação.
Ele desceu com seu olhar por meu corpo dando um sorriso de lado e aquilo me causou repulsa. Minha v*****e de foi de manda-lo pata a p**a que pariu, mas como eu amo muito minha vida eu me calei.
- você é muito gostosa, sabia?- ele diz me deixando ainda mais sem reação.
Isso é algum tipo de elogiou por acaso? Porque pra mim isso é assédio e dos bravos.
Eu realmente não entendo homens que agem assim achando que terá a mulher em sua cama usando palavras tão idiotas.
Eu fiquei parada igual a uma palhaça no meio da rua sem dizer uma palavra se quer, eu nunca passei por nada parecido em toda minha vida e essa atitude me assusta de uma certa forma.
- Nefasto?- uma voz grossa surgiu atrás de mim me fazendo virar no mesmo segundo.
Só podia ser aquele traficantezinho troglodita que se acha dono de tudo e de todos. Bem que minha mãe podia fazer uma varredura nesse lugar e colocar esse bando de bandido atrás das grades.
- estão com um problema lá na nove e tão te convocado.- o troglodita diz.
O tal do Nefasto continuou me encarando com aquela em seu rosto e acenou com a cabeça dando um sorriso malicioso.
- vou descer lá. Depois a gente continua essa conversa.- ele respondeu olhando diretamente pra mim, colocou o seu capacete novamente e saiu com sua moto descendo a rua.
Eu me virei naquele e me surpreendi ao ver o Carioca ainda parado alí. Não me perguntem como eu descobri o seu apelido porque foi mera coincidência.
- eu acho bom tu ficar ligada e tomar cuidado mina. Aqui não é condômino fechado cheio de segurança não, se boia vai dar ruim.- ele diz com uma expressão séria em seu rosto, já estou até acostumada com sua cara carrancuda pra ser sincera.
Eu não entendi bem o que ele quis dizer com aquilo, mas acenei com a cabeça concordando e saí andando pra não me atrasar mais ainda para o meu serviço.
Quando eu me apresentei na portaria me identificando através do meu crachá o porteiro logo liberou minha entrada e eu fui direto para o vestuário me trocar e depois segui para a área recreativa aonde algumas crianças já se encontravam brincando e correndo de um lado para o outro com uma disposição tão grande que me causa cansaço. Eu acho que quando eu era criança eu não dava tanto trabalho igual a essas crianças, elas ficam o dia inteiro com a maior pilha e parecem ser incansáveis.
Eu me aproximei das crianças e fiquei os vigiando e os auxiliando durante uma hora inteira. O serviço de uma estagiária em pedagogia é basicamente auxilar a pedagoga em qualquer coisa que ela precise como alimentar as crianças, vigia-las em áreas livres e auxilia-las em tarefas infantis. Eu não vou mentir dizendo que é uma tarefa fácil e não estressante, mas eu amo o que faço porque foi isso que eu escolhi.
Eu sempre ouço de amigos da família ou colegas e distantes a mesma pergunta. Por que você foi escolher logo pedagogia? A minha resposta é sempre simples e rotineira, eu fui para o caminho que o meu coração mandou. Eu jamais conseguiria ser feliz trabalhando em algo que eu não amo apenas em prol do dinheiro.
- hoje essas pestinhas estão com a corda toda.- Nicole parou ao meu lado e soltou um comentário.
Dou risada e aceno com a cabeça concordando com ela. Hoje eles realmente estão inspirados a fazer bagunça.
- se fosse só hoje ainda tava bom, eles tem esse pique inacabável todo santo dia.- digo e bocejo só de lembrar do meu cansaço.
Eu nunca trabalhei em toda minha vida e eu não fazia ideia que era tão cansativo ter uma rotina fixa sendo preenchida por estudos, trabalhos e o trajeto que é com certeza o mais exaustivo de tudo.
- quando eu chegar em casa eu vou capotar na cama e só vou levantar amanhã meio dia.- digo e fecho os já imaginando minha cama quentinha macia e o meu ar condicionado.
Nicole balançou a cabeça dando risada e passou as mãos por seus cabelos.
- saindo daqui eu vou direto pra casa pra me aprontar pro baile.- ela comentou chamando minha atenção.
Cruzo os braços me virando em sua direção e levanto uma sobrancelha em gesto de curiosidade.
- como é um baile funk?- eu perguntei realmente curiosa pra saber o que rola de tão especial nessas festas pra arrastar gente da zona sul.
Nicole deu os ombros e abriu um sorriso largo em seu rosto no mesmo momento.
- é muito bom! A música é tão viciante que a gente dança até o dia clarear e até esquece do cansaço.- ela diz mantendo aquele sorriso em seus lábios.
Eu não sei exatamente o que deu em mim naquele momento, mas me bateu uma pontinha de v*****e de ir em baile, conhecer o ambiente e dançar pra lavar a alma e esquecer de tudo.
- to achando que tu tá morrendo de v*****e de balançar essa raba lá no baile.- Nicole diz tirando uma gargalhada de mim.
Balanço a cabeça negando no mesmo momento. Se eu entrar num lugar desses minha mãe descobre e arranca o meu pescoço.
- melhor não! Prefiro ir pra casa assistir uma série e depois cair no sono.- respondo no mesmo momento.
Nicole cerrou os olhos me encarando por alguns momentos, mas logo concordou com a cabeça me deixando em paz.
Nos voltamos para o trabalho depois daquele papo e a tarde passou bem rápido e quando eu dei por mim já estava no portão da UMEI entregando as crianças para as mães.
- tchau tia!- uma das meninas se despede de mim deixando um beijo em meu rosto e depois foi levada por sua mãe.
Eu entreguei toda minha turma para os pais ou responsáveis e quando eu já estava pronta pra entrar novamente e me trocar pra ir embora algo chamou minha atenção.
Aquele tal de Carioca está do outro lado da rua sentado em sua moto e conversa com outro cara mais ou menos da sua idade. Ele mantém aquela expressão séria, está de braços cruzados e mantém o seu olhar sobre o rapaz que está a sua frente.
- ele é um gato, não é?- a voz da Nicole surgiu atrás de mim fazendo minha respiração falhar.
Me obrigo a parar de encara-lo e viro para trás me deparando com Nicole bem atrás de mim. Os seus olhos estão grudados no Carioca e ela tem um sorrisinho em seus lábios.
- de quem você está falando?- a questionei me fazendo de i****a.
Ela parou de encara-lo e em olhou dando uma risadinha carregada de sarcasmo e balançou a cabeça.
- acho que nós duas sabemos bem do que eu estou falando. Não é errado olhar e olhar e achar bonito, o que n******e é se envolver porque pela fama ele não presta.- Nicole diz ainda me encarando.
Dou uma risada nervosa sem estar nada surpresa com aquilo. E aonde já se viu bandido que presta? A mulher que se envolve com esse tipo de homem é pior que uma anta de tão burra.
- o pior é que o filho da mãe é bonito viu.- Nicole comenta baixinho e volta a encara-lo.
Eu virei a cabeça disfarçadamente e olhei em sua direção. Ele ainda está sentado em sua moto e conversa algo que parece ser muito sério com o tal cara.
Nicole está certa, o filho da mãe e muito bonito e essa carranca h******l em seu rosto deixa ele ainda mais sexy. Da entender que ele firme e duro em todos os momentos.
- eu nem vou ficar olhando demais pra não pecar. Eu já estourei minha cota de pecados há meses atrás e não quero ter mais motivos pra ir para o inferno.- Nicole diz desviando seu olhar dele e encarando o chão e a minha única reação foi rir ao ouvir as suas palavras.
Nicole e eu entramos para a creche novamente e nós trocamos no vestiário. Eu me vesti com minha calça jeans justa, uma blusa branca de manga curta, calcei o Nike que eu ganhei do meu tio Talles no último fim de semana e aproveitei para soltar os meus cabelos. A gente terminou de se arrumar e organizar as últimas coisas e fomos uma das últimas a sairmos da creche.
Nicole como sempre subiu em direção a sua casa e eu desci na direção da saída do morro.
Quando eu já estava quase chegando perto do bar que dá na rua principal aonde eu pego o meu ônibus eu vi um "certo alguém" que me fez apressar o passo e não olhar para os lados.
Carioca está de pé na saída de um dos becos. Ele está encostado na parede enquanto fuma um cigarro. Eu nem preciso dizer que ele está com mesma cara amarrada de sempre ou preciso?
- Ô patricinha, chega aí!- a sua voz soou me fazendo parar naquele mesmo lugar.
Eu virei minha cabeça em sua direção e levantei uma sobrancelha sem entender o porque do chamado.
Mesmo a minha cabeça dizendo pra eu não ir eu fui irracional mais uma vez e caminhei até a entrada do beco parando em sua frente. Eu cruzo os braços na altura do s***s e levanto a cabeça pra poder encara-lo já que ele é bem maior do que eu e cerro os olhos esperando ele dizer algo.
- tu não cansou não?- ele me questionou me deixando ainda mais perdida.
- de que?- pergunto levantando uma sobrancelha.
Ele jogou o seu cigarro no chão, apagou com os pés e deu alguns passos parando bem na minha frente cruzando os braços e fechando ainda mais o seu semblante. Naquele momento eu pude sentir o cheiro forte e gostoso do seu perfume.
- de ficar subindo e descendo o morro todos os dias. Essa p***a aqui não é centro turístico não pra tu ficar visitando todos os dias, eu já tô ficando de saco cheio de vê sua cara aqui todos os dias.- ele diz de uma forma rude.
Eu fiquei parada olhando em sua cara enquanto eu organizava as suas palavras em meu cérebro. O que esse i****a está dizendo?
- eu não subo e desço o morro atoa todos os dias, eu tenho um trabalho aqui e você como morador deveria ficar grato por eu estar ajudando a comunidade sem receber nada em troca.- acabo dizendo sem pensar.
Ele cerrou os olhos naquele momento e levantou uma sobrancelha dando um passo a frente e ficando ainda mais próximo de mim.
- e se eu disser que não quero mais vê tua cara aqui no morro?- ele me questionou de uma maneira ameaçadora.
Dou os ombros e desvio o olhar do dele naquele momento e eu que já estava sem humor algum por causa da minha tpm me transformei no d***o naquela momento. Se eu não soubesse que ele tem uma a**a na cintura eu juro que grudaria em seu pescoço nesse exato momento.
- e por acaso o morro e seu?- eu perguntei em um tom raivoso, mas quando eu vi a expressão em seu rosto eu me arrependi no segundo seguinte.
Ele deu uma risadinha irônica e passou as mãos por seus cabelos enquanto encarava com uma expressão indecifrável em seu rosto.
- eu já disse que aqui não é centro turístico. Quer aparecer vai ajudar alguma p***a de instrução lá na zona sul.- ele diz entre dentes.
Ao ouvir suas palavras eu explodi de raiva e cansaço. Eu estou mentindo pra minha família e me matando de cansaço todos os dias pra ter que ficar ouvindo desaforo de um traficante sem vergonha na cara? Me poupe!
- pelo que eu sei as ruas do "morro dos prazeres" são vias públicas o que me dá todo o direito de ir e vir com paz e tranquilidade. Se você tem algo contra isso eu não posso fazer absolutamente nada, passar bem!- eu soltei tudo que tinha v*****e e dei as costas e saí dali em passos largos.
Eu caminhei até o ponto de ônibus sem olhar para trás em momento algum e tudo que pensei durante o trajeto é que eu ia levar uma bala nas costas a qualquer momento por ter a boca tão grande a língua nervosa.
Se esse bandido já não gostava de mim antes sem motivo alguns, agora ele vai me odiar com grandes razões.
Quando o meu ônibus chegou no ponto eu me entrei e mesmo estando de pé no meio daquele tanto de gente suada eu agradeci a Deus. Sabe-se lá o que podia acontecer comigo se eu ficasse mais alguns segundos alí.
O meu sangue foi voltando para os lugares devidos e a minha ficha foi caindo, mas o que deu em mim pra falar daquele jeito com um traficante armado? Aquele homem podia ter metido uma bala bem na minha cabeça por eu ter uma boca grande.
Meu pai sempre diz que eu sou exatamente igual minha mãe para tomar algumas decisões. Segundo ele minha mãe faz a m***a primeiro pra depois pensar nas consequências que aquilo trará, pelo visto eu sou igual.
Mas pensando por um lado. Se ele quisesse fazer algo comigo já teria feito naquele momento mesmo. O braço do cara é do tamanho da minha cocha e um t**a que ele me dá na cabeça é bem capaz de me causar um traumatismo craniano.
Eu me arrependo de ter dito as palavras em sua cara por medo de possíveis represálias, mas não me arrependo de ter jogado umas boas verdades na cara daquele traficante folgado. Por que ele não vai vender as merdas das drogas dele ao invés de se meter em minha vida? Se eu quisesse a opinião dele eu teria pedido.
Eu fui o caminho inteiro com aquelas paranóias em minha cabeça. Quando eu cheguei no meu condomínio o porteiro liberou minha entrada de primeira e eu caminhei por mais uns dez minutos até chegar oficialmente em casa.
Eu entrei pelo jardim e fui pelos fundos entrando pela porta da cozinha e aproveitei que estava alí pra pegar um copo de água bem gelada pra refrescar minhas ideias.
- boa noite estrupicio.- uma voz masculina (nem tanto) surgiu atrás de mim.
Viro pra trás me deparando com Arthur e forço um sorriso fazendo uma careta.
- cadê a mãe e o pai?- pergunto desviando meu olhar do dele e vou até a geladeira abrindo a mesma e pego um iogurte de chocolate.
Arthur puxou uma das banquetas e me encarou com uma expressão de repulsa em seu rosto.
- eles estavam brigando, mas pararam de gritar no meio da briga e agora o único som audivel nessa casa são os ruídos.- Arthur diz tirando uma gargalhada de mim.
Meus pais sempre foram assim, em um momento eles estão brigando e no outro estão se amando de uma maneira intensa, tão intensa que dá pra ouvir do meu quarto. Que nojo!
Só de lembrar daquele som me causa um certo trauma. Pra ser sincera o pior é saber que meus pais tem a vida s****l mais ativa que a minha que estou na flor da juventude.
- pelo visto hoje não teremos jantar nessa casa.- Arthur comenta soltando um suspiro e tirando uma gargalhada de mim.
Caminho até ele e me sento ao seu lado deitando minha cabeça em seu ombro e pego sua mão a apertando.
- acho melhor a gente fazer uma pipoca e assitir um filme. Porque quando eles estão assim a coisa dura a noite toda.- dou uma sugestão.
Arthur logo concordou e nos fizemos pipoca de microondas, pegamos alguns salgadinhos e refrigerantes e fomos para a sala de TV aonde não entra som e nem gemidos. Arthur escolheu Pantera n***a e logo o filme começou.
Eu não sei exatamente porque e mesmo o filme sendo extremamente interessante eu não consegui prestar atenção. A única coisa que ficou em minha cabeça foi aquele maldito brutamonte!