Hannah
Estava de saída com a mamãe para irmos ao Lar Flor Belas, onde mamãe é a proprietária. Ela o fundou há uns quatro anos.
Lá acolhem bebês e crianças abandonadas, que ficam até acharem alguém para adotá-las ou até completarem 14 anos.
Neste lar, as crianças têm muitas atividades, estudam, brincam e aprendem várias coisas — fazem coisas de crianças.
Quando completam 14 anos, vão para o Lar Esperança, da senhora Flor — assim todos a chamam.
Ela fica com eles até completarem 18 anos.
Quando se tornam maiores de idade, e se até essa idade não conseguirem um lar,
eles são levados para um abrigo ao lado, destinado aos que já são maiores. É raro ficarem por lá.
E, graças ao bom Deus, eles sempre conseguem um emprego e aprendem a caminhar sozinhos.
Pois, lá no abrigo, fazem cursos, onde cada um tem direito de escolher o que deseja aprender.
Através desses cursos, conseguem logo um emprego para poder sair e ter algum sustento.
Estava entrando no carro quando vejo papai vindo em nossa direção.
— Onde minhas princesas vão?
— Estamos indo lá no abrigo, papai. O senhor está precisando de alguma coisa?
— Na verdade, sim, Hannah. Você poderia passar na empresa do Teodoro e deixar esses papéis com o Matteo pra mim, por favor?
Só de ouvir o nome dele, já fico toda desconcertada.
Só de imaginar que irei vê-lo e ter que falar com ele...
— Tudo bem, papai. Deixo sim.
Dou um beijo em sua testa e entro no carro.
Mamãe começa a dirigir, e sei que irá passar na empresa primeiro.
Depois de alguns minutos, já estamos na porta.
— Hannah, você pode deixar os papéis com o Matteo. Vou ali no caixa eletrônico, tudo bem?
— Tudo bem, mamãe. A esperarei aqui no carro.
Abro a porta e vou rumo à entrada daquele prédio enorme.
Entro no elevador e aperto o andar de Matteo, e o meu coração está quase pulando pra fora do peito.
O elevador se abre e olho: a secretária de Matteo não está.
Espero mais alguns minutos e nada.
Mamãe já deve estar me esperando.
Resolvo bater na porta — dou duas batidas e ninguém responde.
Bato mais duas vezes e nada.
— Talvez ele esteja em reunião — falo pra mim mesma.
Então resolvo abrir a porta e colocar os papéis em sua mesa.
Papai já o avisou mesmo.
Quando ele chegar, verá e assinará.
Até melhor — assim não preciso vê-lo.
Empurro a porta do escritório de Matteo e acho que estou vivendo um dos piores momentos da minha vida.
Ver Matteo com aquela Pâmela, ali mesmo, no seu escritório...
Meu coração acelera, e por um instante tenho vontade de ir até lá e esmurrá-lo até não ter mais força.
— Oh, meu Deus! Eu bati na porta, juro que bati! — falo no impulso.
Matteo me olha e não fala nada.
Mas Pâmela o interrompe:
— Não precisam parar por minha causa...
— Mas não vamos parar mesmo, não desta vez, sua pirralha empata-f**a — diz ela.
Não respondo.
— Aqui estão os papéis.
Me abaixo, coloco os papéis perto da porta e a fecho novamente.
Mas minha vontade era jogar aqueles papéis na cara dele.
Aperto o botão do elevador.
As lágrimas já embassam minha visão.
Mas não vou chorar. Não vou me rebaixar.
A porta do elevador se abre e vejo mamãe e Hannah nele.
— Você demorou, minha filha!
— Desculpe, mamãe. Estava esperando a Hannah, mas estava demorando, então deixei os papéis com o Matteo.
— Estava no meu horário de lanche, me desculpa — diz Hannah, toda sem graça.
— Imagina, é seu direito. Saco vazio não para em pé — digo sorrindo.
— Está tudo bem, Hannah? — mamãe pergunta.
Nos despedimos da Júlia e fomos para o carro.
Entramos em silêncio e ficamos assim até mamãe parar o carro em uma praça — linda, por sinal.
— Por que paramos aqui, mamãe?
— Quero conversar com você, Hannah.
Descemos do carro e sentamos em um dos bancos da praça, em silêncio, sentindo uma leve brisa gelada.
— O que está acontecendo com você, Hannah?
— Como assim, mamãe?
— Você está diferente, sempre triste pelos cantos.
E você sempre vê o Matteo.
Você gosta dele, não é?
— Não gosto, mamãe. eu o amo.
Sei que não era o que a senhora queria pra mim, porque ele é uma pessoa complicada, mais velho que eu, e todas as outras coisas.
— Hannah, vai com calma.
Meu amor, a gente não manda no coração.
A gente ama as pessoas erradas, sempre foi assim.
— O que eu quero é que você seja feliz, só isso.
E não importa com quem.
Você pode contar sempre comigo pra tudo, minha filha.
— Me desculpa, mamãe, por não ter contado.
— Tudo bem, meu anjo.
Sempre estarei aqui.
Quando estiver pronta pra me contar qualquer coisa, conte, minha filha.
— Será no seu tempo, tá bom?
Mamãe então me abraça bem forte.
Tenho muita sorte mamãe é uma pessoa maravilhosa, sem dúvidas.