008: Pauline Picard

2103 Words
Park Chanyeol sempre apoiava Kim Jongin, independente da situação. Eram bons amigos, e bons amigos ajudavam uns aos outros. Mas daquela vez era diferente, tinha algo bem mais fundo para ser cavado e ele sabia muito bem que o Kim estava envolvido em algo muito maior do que uma briga de bar ou uma desilusão amorosa, Jongin precisava dele muito mais do que imaginava. Além disso, ficara muito óbvio durante aquele almoço de que havia muito mais coisas acontecendo, coisas estas que poderiam afetar a vida do médico para sempre. Na verdade, já haviam afetado. — Está apaixonado por ele. Jongin, que olhava para a porta da cozinha, engasgou com o suco que bebia. — O que? Não! — mas nem mesmo o próprio Kim conseguia ter certeza — Não posso me apaixonar por ele, isso não... não seria certo. O médico tinha muitos argumentos para usar naquele momento, poderia dizer que não seria certo se apaixonar por alguém de quem não sabia nada, não seria certo se apaixonar por alguém que poderia estar em um relacionamento antes de perder a memória. Não estava certo, Jongin não podia simplesmente ignorar a pessoa quem Kyungsoo era antes de se tornar... o Kyungsoo. — Não vejo nada de errado em gostar de alguém. — Com o Kyungsoo é... É complicado. E complicado talvez fosse a melhor palavra para definir tudo o que estava acontecendo. Tudo era complicado, complicado desde o momento em que decidiu abrir as portas de sua casa para um ômega que sequer nome tinha. Kyungsoo não existia, aquele rapaz em sua cozinha não era real, ele era apenas algo que sua mente criou, um sonho estranho que estava tendo há semanas sem conseguir acordar. Porque era complicado demais. — Eu tenho que ir. — o Park disse logo após olhar o relógio em seu pulso, a conserva havia se estendido por muito mais tempo do que notara e já passava das 14h — Vou dar uma olhada no arquivo morto essa tarde, há tantas caixas naquele lugar que vou acabar demorando horas e horas para encontrar qualquer coisa que seja, inclusive a porta quando precisar sair. O Kim riu. — Você sempre adorou um drama. — O que posso fazer? É o meu gênero favorito. Chanyeol foi embora depois de se despedir brevemente de Kyungsoo, os dois não se falavam muito diretamente, mas aquilo era até o presente momento o mais próximo que o ômega tinha de ter um amigo além de Jongin. E, de fato, o Park não estava brincando ao dizer que revirar o arquivo morto levaria muito tempo, m*l pusera seus pés ali dentro e já se deparara com uma quantidade absurda de prateleiras, todas elas lotadas de caixas e mais caixas com os casos antigos da polícia, casos sem solução, ou com uma solução tão sem credibilidade que foi posta ali na esperança de que algum dia alguém lhe desse uma resposta. Conhecera alguns detetives especializados em casos antigos, eram pessoas corajosas e certamente com um senso de justiça tão grande que só parariam com o culpado preso ou morto pelo próprio tempo. Ouvira falar dos que faziam questão de atrelar os crimes aos defuntos, para que de alguma forma pudessem pagar em morte o que haviam feito em vida. Senso de justiça acima de tudo, era o que eles diziam. Pessoas admiráveis, era o que ele pensava. Chanyeol se perguntava se algum dia ele seria admirável para alguém. E aquele lugar parecia sem fim, alguém sem o hábito de entrar alise perderia facilmente, era sorte dos alfas poderem farejar o próprio rastro até a saída, sem isso, ficaria ali até alguém o encontrar quem sabe quanto tempo depois. Logo perdeu a noção de quantas caixas revirou e quantos casos desajustados e agoniantes foi obrigado a se lembrar. Cada caixa era uma história, e seus finais nunca eram felizes. — Ai! O som parecia distante e baixo, mas logo o som de algo caindo ecoou alto pelo grande cômodo. Correu até lá ao se dar conta de que só poderia ser outra pessoa ali dentro e que provavelmente este havia derrubado algo em si mesmo. Estava certo, um ômega magro e baixinho se encontrava no chão, estava com uma das mãos na testa, mas assim que viu o Park se aproximando tratou de rapidamente tentar colocar tudo o que havia caído de volta na caixa. Haviam papeis por todo lado, além de outras caixas e sacos pequenos bem lacrados. Chanyeol logo também se abaixou para ajuda-lo, mas isso aparentemente havia deixado o outro ainda mais afoito. — Me perdoe pela bagunça, Oficial, eu vou colocar tu-tudo certo no lugar. — estava tão nervoso que chegava a gaguejar, teria sido engraçado se a situação não envolvesse um aroma forte de medo sendo exalado do ômega a todo momento. As roupas indicavam ser um dos zeladores, Chanyeol não demorou a se dar conta de que o medo deveria ser causado pelo receio de que ter derrubado uma caixa cheia de provas e arquivos importantes de um caso passado. O ômega estava esperando receber uma bronca a qualquer momento. Ou até ser demitido. — Está tudo bem, foi só um acidente. O Park se esticou para alcançar uma folha que havia se afastado e estava quase entrando debaixo das prateleiras do outro lado, quando a virou notou ser a foto da vítima daquele caso. Era uma criança, um menino ômega com uma aparência entre 5 ou 6 anos, e olhar aquela foto o deixou arrepiado. Olhou para a caixa ainda no chão: Caso Dark Sun, 2002. E o mais assustador, aquele rosto lembrava demais o rosto de Kyungsoo. Fotografou com seu celular, mostraria a Jongin assim que saísse dali. Chanyeol não era do tipo que acreditava em coincidências, mas acreditava em sorte. Sua vó costumava lhe dizer que as coisas aconteciam porque tinham que acontecer, simplesmente por isso. Segurou a caixa na intenção de leva-la consigo, mas no segundo seguinte sentiu algo quente cair sobre as costas de seu punho, e ao erguer os olhos viu que a batida forte que havia ouvido anteriormente não havia sido diretamente no chão. A testa do ômega estava sangrando, a caixa havia caído sobre sua cabeça antes, por isso havia gritado. — Precisa ir a um hospital. — o alfa ergueu parte da franja que cobria o corte, não aparentava ser profundo, mas pelo peso da caixa era melhor ser analisado por um médico — Um curativo simples não vai fazer o sangramento parar. Tirou um lenço de seu bolso e pressionou sobre a testa do mais baixo, que minimamente havia tentado se afastar. — Não... não precisa. — o ômega segurou sozinho o pano sobre a testa, estava na defensiva e era notório o quanto queria manter o Park afastado — Eu faço um curativo quando chegar em casa. — Devo insistir pra que vá ao hospital. — Chanyeol não era do tipo que simplesmente deixava para lá, se sentiria incomodado a noite toda caso não tivesse certeza de que aquele ômega havia ficado bem, sua vó dizia que ele havia herdado isso de seu pai — Eu levo você, não é muito longe daqui. — Mas eu preciso terminar tudo aqui. O sangue estava escorrendo por sua testa, ele não tinha a menor condição de limpar aquele lugar todo daquela forma, além disso, a pancada na cabeça havia o deixado tonto e o ômega m*l conseguia ficar em pé direito. E, de todas as formas, não adiantou que ele discutisse, pois Chanyeol teimou até conseguir convencê-lo a deixá-lo o levar para um hospital. Chanyeol o levou até o hospital onde Jongin trabalhava e conseguiu ser atendido por ele. O Kim precisou pontear a testa do ômega, onde tão somente descobriu que se chamava Baekhyun, Byun Baekhyun, um dos zeladores do Departamento de Polícia. O rapaz precisou de cinco pontos para fechar a ferida, que era bem mais profunda do que achou que era. E agora ele estava ali, sentado com o curativo grande sobre a testa, o cabelo médio e castanho preso para cima e uma expressão pensativa, quase como se sua mente estivesse bem longe dali. Talvez estivesse. — Posso falar com você um minuto? — Chanyeol falou baixo com Jongin e logo em seguida se afastou sendo seguido pelo médico. Perto da porta, longe o suficiente dos ouvidos de qualquer um que passasse, o Park tirou o celular do bolso e mostrou a foto que havia tirado mais cedo. Jongin o segurou em mãos e olhou bem de perto, a imagem o deixou afoito, e ao mesmo tempo que lhe dava esperança de que fosse alguma pista, a ideia de se aproximar do passado de Kyungsoo o deixava temeroso. — Se parece demais com ele. — confirmou. — Caso Dark Sun. — o detetive coçou o próprio braço, tinham idade para se lembrar — 2002, éramos garotos, esse caso repercutiu pelo país inteiro, não se falava em outra coisa. O Kim forçou um pouco a mente. — Eu me lembro, o garotinho que sumiu indo pra escola de bicicleta. — mas ainda havia mais coisas — Porém, ele foi encontrado, não foi? — Sim e não. Não tive tempo de dar uma olhada no caso, mas pesquisei algumas coisas na internet enquanto você fazia o curativo, encontraram um garoto muito idêntico a ele seis meses depois, mas aquele garoto, por mais que fosse praticamente igual, não era ele, fizeram um exame de DNA e foi comprovado que se tratava de uma outra criança que havia sumido de um orfanato dias antes. Era muito estranho, era novo demais na época para se lembrar com clareza, mas recordava-se de ter visto coisas relacionadas àquele caso por anos até que simplesmente sumisse da mídia e as pessoas não falassem mais sobre aquilo. — Isso é bizarro. — Sim, mas esse garoto pode ser o ômega que está na sua casa agora. Estava com a cabeça cheia demais, Jongin entraria em uma sala de cirurgia em menos de vinte minutos e precisava descansar a mente antes disso. Como médico, sua prioridade agora era o paciente que precisava de três pinos na perna esquerda para poder voltar a andar um dia. — Falo com você assim que terminar uma cirurgia que farei agora. — o moreno suspirou, sentia-a exausto naquele começo de noite — O ômega já pode ir pra casa, seja gentil e lhe dê uma carona. Chanyeol era gentil, não precisava falar. Mas fora preciso um certo esforço para convencer o Byun a aceitar aquela carona, o ômega parecia ainda mais receoso do que na questão de ir até o hospital. Chanyeol era um bom detetive, sempre procurava motivo para as coisas e logo passou a acreditar que Baekhyun estava querendo esconder sua casa, esconder onde vivia e isso o fazia acreditar que o mesmo estava passando por problemas em casa. Pensou ser algum companheiro abusivo, ou até mesmo um pai ou mãe abusivos. Precisava descobrir, era seu dever manter as pessoas à salvo e faria isso de um jeito ou de outro, mesmo que soasse extremamente intrometido. — Sabe que mesmo que recuse sou capaz de te seguir até em casa apenas para ter certeza. — foi direto com suas palavras, ele realmente faria isso — Byun, eu sou um policial, estou aqui para te defender, se tem algo errado acontecendo, você pode me falar. — Não há nada errado. Mas sua voz vacilava demais, falava sem convicção nenhuma. — Então me deixe leva-lo em casa. Ele acabou deixando depois de mais alguns minutos. Chanyeol dirigiu por longos minutos, o Byun morava em um bairro muito distante e quanto mais longe ele ia, mais óbvias as coisas ficavam. Baekhyun estava tentando esconder a própria realidade, a verdade era que ele vivia em um dos bairros mais perigosos da cidade. A segurança, a saúde, educação, tudo era bastante precário naquele lugar completamente abandonado pelo governo, e agora, sendo comandado por pessoas que não estavam nenhum pouco preocupadas com o bem estar das pessoas que viviam ali. O prédio onde o ômega vivia parecia abandonado, o que provavelmente estava, a fachada estava rachada e com uma pintura bastante velha e desgastada, além de haver pessoas estranhas entrando e saindo o tempo todo. O carro de modelo exclusivo da polícia chamava muita atenção parado ali. — Esse lugar- — Obrigado pela carona. O alfa não conseguiu ter tempo de dizer mais nada, o Byun saltou para fora do veículo assim que as portas foram destravadas, entrou pela porta do prédio desgastado e sumiu pela portaria m*l iluminada e sem qualquer pessoa que aparentemente cuidasse dela.
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