Nos primeiros dias depois da rejeição, Arya acreditou que o pior tinha passado.
Dominic tinha ido embora.
Sem gritar. Sem ameaçar. Sem insistir.
Educado.
Controlado.
Definitivo.
Ela repetia isso para si mesma sempre que o pensamento tentava voltar.
Acabou.
Mas a tranquilidade que deveria acompanhar aquela certeza… não vinha.
Veio outra coisa.
Uma inquietação miúda.
Constante.
Como um arrepio que começava na nuca e descia pelas costas sem motivo aparente.
No terceiro dia, Arya percebeu que estava olhando por cima do ombro.
No quarto, notou que estava escolhendo caminhos diferentes para voltar para casa.
No quinto, começou a se perguntar se aquilo era paranoia.
Ou instinto.
A cidade continuava igual. Pessoas andando, buzinas, conversas altas, o cheiro de café escapando das padarias.
Tudo normal.
E, ainda assim, não estava.
Porque havia momentos — rápidos, quase invisíveis — em que ela sentia.
Como se alguém a acompanhasse.
Observasse.
Não perto o suficiente para tocar.
Mas perto o bastante para saber.
Arya odiava essa sensação.
Odiava mais ainda o nome que vinha junto com ela.
Dominic.
Ela tentava afastar o pensamento.
Ele prometeu respeitar.
E Dominic parecia um homem que cumpria promessas.
Não parecia?
Do outro lado da cidade, Matteo observava a tela do celular com a mandíbula tensa.
— Isso está ficando frequente demais — comentou.
Dominic não levantou os olhos dos relatórios sobre a mesa.
— O quê?
— Você pedir atualização de hora em hora.
Silêncio.
Dominic fechou a pasta devagar antes de responder.
— Eu pedi descrição de rotina.
— Já temos.
Tinham mesmo.
Arya saía do trabalho, ia para casa. Às vezes passava no mercado. Não visitava amigos. Não recebia ninguém.
Sozinha.
Sempre sozinha.
Matteo respirou fundo.
— Então por que continuar?
A pergunta era perigosa.
Mas alguém precisava fazê-la.
Dominic se recostou na cadeira, o olhar ficando distante por um segundo.
Porque saber não era o mesmo que ver.
E ele precisava ver.
Precisava ter certeza de que o mundo continuava tratando ela com o cuidado que ele considerava aceitável.
— Porque pode mudar — respondeu.
Matteo passou a mão pelo rosto.
— Chefe…
Dominic ergueu o olhar.
E ali estava.
Não o líder frio.
Mas o homem.
— Eu não vou encostar nela — disse. — Não vou forçar nada. Mas também não vou fingir que consigo simplesmente virar as costas.
Matteo sustentou o olhar por um momento.
Depois assentiu.
Entendia.
Não concordava.
Mas entendia.
— Vou manter a equipe longe — garantiu.
Dominic fez um movimento positivo com a cabeça.
Era tudo que precisava.
Por enquanto.
Na sexta-feira, aconteceu.
Arya estava saindo do trabalho quando um cliente a alcançou na calçada.
Ela o reconheceu.
Tinha ido ao café algumas vezes nas últimas semanas. Sorriso fácil, educado, insistente de um jeito que antes parecia inofensivo.
— Ei, Arya — ele chamou, aproximando-se demais.
O corpo dela ficou rígido automaticamente.
— Oi.
— Você sai sempre esse horário? — perguntou, casual.
Simples.
Mas invasivo.
Arya forçou um sorriso.
— Quase sempre.
Ele pareceu animado demais com a resposta.
— A gente podia jantar qualquer dia. Conheço um lugar incrível aqui perto.
Convite normal.
Situação comum.
Nada errado.
Então por que o desconforto era tão grande?
Talvez porque, depois de Dominic, qualquer interesse masculino parecia carregado de intenção demais.
— Eu… não estou procurando nada agora — respondeu, tentando ser gentil.
O homem insistiu.
— É só um jantar.
Ela abriu a boca para repetir a negativa.
Mas alguém falou antes.
— Ela disse não.
A voz veio calma.
Fria.
Absoluta.
O cliente congelou.
Arya também.
Não.
Não podia ser.
Quando virou a cabeça, não viu Dominic.
Mas viu o homem parado alguns metros atrás.
Terno escuro.
Postura firme.
Olhar que prometia consequências.
O cliente levantou as mãos em rendição imediata.
— Ei, tudo bem, eu só estava conversando.
O homem não respondeu.
Nem precisou.
A mensagem tinha sido entregue.
O cliente murmurou uma despedida apressada e praticamente fugiu.
Arya ficou parada, o coração disparado.
Quando procurou o estranho outra vez…
Ele já estava atravessando a rua.
Indiferente.
Como se nunca tivesse participado da cena.
Frio percorreu a espinha dela.
Aquilo não era coincidência.
Não podia ser.
Arya olhou ao redor.
Procurando.
Temendo.
Precisando confirmar.
Mas Dominic não estava ali.
E talvez isso fosse o mais assustador.
O relatório chegou a Dominic minutos depois.
Contato masculino. Abordagem interrompida. Ela não foi tocada.
Ele releu a última frase.
Não foi tocada.
Bom.
Muito bom.
Dominic apoiou o celular na mesa, respirando fundo.
Não tinha sido necessário aparecer.
Era assim que precisava funcionar.
Proteção.
Distância.
Controle.
Mesmo que ela nunca soubesse.
Mesmo que o crédito jamais fosse dele.
— Você está ultrapassando uma linha — Matteo comentou, parado à porta.
Dominic não negou.
Não discutiu.
Não tentou se justificar.
Porque ambos sabiam a verdade.
Ele já tinha ultrapassado.
A questão era até onde iria.
Arya entrou em casa naquela noite mais abalada do que queria admitir.
Trancou a porta.
Encostou as costas nela.
Tentou diminuir a velocidade do coração.
Alguém tinha mandado aquele homem embora.
Alguém que falava como quem tinha autoridade.
Como quem tinha direito.
O pensamento se formou antes que pudesse impedir.
Ele.
Dominic.
— Não… — sussurrou.
Mas a sensação continuava ali.
Viva.
Presente.
Como uma sombra que aprendia a caminhar junto com ela.
E, pela primeira vez, Arya percebeu algo que fez o estômago afundar.
Talvez ele estivesse respeitando a resposta dela.
Só não tinha prometido parar de protegê-la.