Arya tentou convencer a si mesma de que estava imaginando coisas.
Era fácil culpar o cansaço. O turno dobrado. O peso nas pernas depois de horas em pé. Qualquer coisa parecia uma explicação melhor do que admitir a verdade que se insinuava em sua mente.
Ele continuava olhando.
Mesmo de longe, mesmo cercado por homens que claramente esperavam sua atenção, o foco dele voltava.
Sempre.
Para ela.
Arya manteve a cabeça baixa enquanto preparava o café. Suas mãos eram rápidas, treinadas, mas o coração batia fora do ritmo. Sentia o calor do olhar em sua nuca como um toque físico, quase palpável.
Era ridículo.
Por que um homem como aquele perderia tempo com alguém como ela?
A resposta lógica era simples: não perderia.
Ainda assim, quando se virou para levar a xícara, a sensação voltou mais forte.
Perigo.
Não um perigo imediato, de gritos ou correria.
Era pior.
Era o tipo que mudava vidas sem fazer barulho.
Ela caminhou até a mesa, colocou a bebida diante dele com cuidado e murmurou um “com licença” rápido demais, pronta para sair.
— Qual é o seu nome?
A pergunta a atingiu no meio das costas.
Arya parou.
Funcionários não eram perguntados sobre nomes. Não por homens como aquele. Eles pediam, recebiam, ignoravam.
Ela virou devagar.
Os outros dois homens à mesa tinham parado de fingir que não ouviam. A gerente, atrás do balcão, observava com atenção disfarçada.
Arya engoliu seco.
— Arya — respondeu.
Ele repetiu mentalmente, ela percebeu. Viu na forma como os lábios dele se moveram sem som.
Arya.
Como se estivesse experimentando.
— Arya — Dominic disse, agora em voz alta.
O próprio nome pareceu diferente saindo da boca dele. Mais pesado. Mais íntimo.
Ela não gostou.
Ou talvez tivesse gostado demais — e isso era ainda pior.
— Posso ajudar em mais alguma coisa? — perguntou, agarrando-se ao profissionalismo como uma âncora.
Os olhos escuros deslizaram pelo rosto dela com uma calma estudada.
— Não.
Mas não parecia verdade.
Parecia o começo de alguma coisa.
Arya assentiu e voltou para o balcão sentindo o mundo ligeiramente torto. Tentou se concentrar nos outros pedidos, nas vozes, nos pratos. Tentou esquecer.
Não conseguiu.
De vez em quando, sem querer, olhava.
E ele estava sempre ali.
Não sorrindo.
Não conversando.
Não distraído.
Observando.
Ela.
Quando finalmente a reunião terminou, Arya sentiu o alívio chegar cedo demais. Limpou as mãos no avental, dizendo a si mesma que, em poucos minutos, ele sairia por aquela porta e levaria a estranheza junto.
Homens poderosos tinham coisas melhores para fazer.
Não guardavam rostos de garçonetes.
Certo?
Dominic levantou.
O movimento foi suficiente para alterar o clima inteiro do café. As pessoas fingiam não olhar, mas olhavam. Fingiam não se importar, mas se importavam.
Arya também.
Ela odiou isso.
Ele caminhou em direção à saída, os homens atrás dele, passos firmes, decididos.
Por um segundo — apenas um — Arya acreditou que estava livre.
Então ele parou.
Virou o rosto.
E a encontrou novamente.
Não houve sorriso de despedida. Nem gesto educado.
Só aquele olhar.
Profundo.
Seguro.
Como se estivesse confirmando algo.
Como se estivesse memorizando.
O sino da porta tocou quando ele saiu, e o barulho pareceu alto demais, abrupto demais, encerrando a cena como o bater de um martelo.
Arya soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
Acabou.
Tinha acabado.
Mas a sensação não ia embora.
Pelo contrário.
Ela crescia.
A gerente se aproximou, animada demais.
— Você sabe quem era, não sabe?
Arya balançou a cabeça.
— Não.
— Dominic Russo.
O nome pousou entre elas.
Pesado.
Cheio de significados que Arya não entendia, mas que faziam sua pele arrepiar mesmo assim.
Ela olhou para a porta fechada.
Tentou ignorar o frio que percorreu sua espinha.
Homens como ele viviam em outro universo. Um universo que nunca tocava o dela.
Nunca.
Arya repetiu isso durante todo o caminho para casa.
Repetiu ao trocar de roupa.
Repetiu ao se deitar.
Era só um encontro estranho.
Nada mais.
A cidade era grande demais. A vida era ocupada demais. Ele esqueceria.
Ela precisava acreditar nisso.
Mas, em algum ponto profundo que não queria encarar, Arya sabia:
o problema não era se Dominic Russo se lembraria dela.
O problema era que, quando ele disse seu nome…
pareceu uma promessa.