Capítulo 3

716 Words
Arya tentou convencer a si mesma de que estava imaginando coisas. Era fácil culpar o cansaço. O turno dobrado. O peso nas pernas depois de horas em pé. Qualquer coisa parecia uma explicação melhor do que admitir a verdade que se insinuava em sua mente. Ele continuava olhando. Mesmo de longe, mesmo cercado por homens que claramente esperavam sua atenção, o foco dele voltava. Sempre. Para ela. Arya manteve a cabeça baixa enquanto preparava o café. Suas mãos eram rápidas, treinadas, mas o coração batia fora do ritmo. Sentia o calor do olhar em sua nuca como um toque físico, quase palpável. Era ridículo. Por que um homem como aquele perderia tempo com alguém como ela? A resposta lógica era simples: não perderia. Ainda assim, quando se virou para levar a xícara, a sensação voltou mais forte. Perigo. Não um perigo imediato, de gritos ou correria. Era pior. Era o tipo que mudava vidas sem fazer barulho. Ela caminhou até a mesa, colocou a bebida diante dele com cuidado e murmurou um “com licença” rápido demais, pronta para sair. — Qual é o seu nome? A pergunta a atingiu no meio das costas. Arya parou. Funcionários não eram perguntados sobre nomes. Não por homens como aquele. Eles pediam, recebiam, ignoravam. Ela virou devagar. Os outros dois homens à mesa tinham parado de fingir que não ouviam. A gerente, atrás do balcão, observava com atenção disfarçada. Arya engoliu seco. — Arya — respondeu. Ele repetiu mentalmente, ela percebeu. Viu na forma como os lábios dele se moveram sem som. Arya. Como se estivesse experimentando. — Arya — Dominic disse, agora em voz alta. O próprio nome pareceu diferente saindo da boca dele. Mais pesado. Mais íntimo. Ela não gostou. Ou talvez tivesse gostado demais — e isso era ainda pior. — Posso ajudar em mais alguma coisa? — perguntou, agarrando-se ao profissionalismo como uma âncora. Os olhos escuros deslizaram pelo rosto dela com uma calma estudada. — Não. Mas não parecia verdade. Parecia o começo de alguma coisa. Arya assentiu e voltou para o balcão sentindo o mundo ligeiramente torto. Tentou se concentrar nos outros pedidos, nas vozes, nos pratos. Tentou esquecer. Não conseguiu. De vez em quando, sem querer, olhava. E ele estava sempre ali. Não sorrindo. Não conversando. Não distraído. Observando. Ela. Quando finalmente a reunião terminou, Arya sentiu o alívio chegar cedo demais. Limpou as mãos no avental, dizendo a si mesma que, em poucos minutos, ele sairia por aquela porta e levaria a estranheza junto. Homens poderosos tinham coisas melhores para fazer. Não guardavam rostos de garçonetes. Certo? Dominic levantou. O movimento foi suficiente para alterar o clima inteiro do café. As pessoas fingiam não olhar, mas olhavam. Fingiam não se importar, mas se importavam. Arya também. Ela odiou isso. Ele caminhou em direção à saída, os homens atrás dele, passos firmes, decididos. Por um segundo — apenas um — Arya acreditou que estava livre. Então ele parou. Virou o rosto. E a encontrou novamente. Não houve sorriso de despedida. Nem gesto educado. Só aquele olhar. Profundo. Seguro. Como se estivesse confirmando algo. Como se estivesse memorizando. O sino da porta tocou quando ele saiu, e o barulho pareceu alto demais, abrupto demais, encerrando a cena como o bater de um martelo. Arya soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Acabou. Tinha acabado. Mas a sensação não ia embora. Pelo contrário. Ela crescia. A gerente se aproximou, animada demais. — Você sabe quem era, não sabe? Arya balançou a cabeça. — Não. — Dominic Russo. O nome pousou entre elas. Pesado. Cheio de significados que Arya não entendia, mas que faziam sua pele arrepiar mesmo assim. Ela olhou para a porta fechada. Tentou ignorar o frio que percorreu sua espinha. Homens como ele viviam em outro universo. Um universo que nunca tocava o dela. Nunca. Arya repetiu isso durante todo o caminho para casa. Repetiu ao trocar de roupa. Repetiu ao se deitar. Era só um encontro estranho. Nada mais. A cidade era grande demais. A vida era ocupada demais. Ele esqueceria. Ela precisava acreditar nisso. Mas, em algum ponto profundo que não queria encarar, Arya sabia: o problema não era se Dominic Russo se lembraria dela. O problema era que, quando ele disse seu nome… pareceu uma promessa.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD