Arya acordou com a sensação incômoda de que tinha esquecido alguma coisa.
Não era um pensamento claro, nem um sonho que pudesse ser lembrado. Era apenas um peso leve no peito, um desconforto que se espalhava sob a pele como um aviso sem palavras.
Ela ficou deitada por alguns segundos, olhando o teto simples do apartamento, ouvindo o barulho distante dos carros na rua.
Respira.
Era só mais um dia.
Ela se obrigou a levantar, empurrando a estranheza para longe. Preparou café, tomou banho, vestiu roupas comuns. Os gestos automáticos ajudavam a acalmar a mente.
Rotina era segurança.
Enquanto saía do prédio, ajustando a bolsa no ombro, repetiu a mesma frase da noite anterior:
Ele vai esquecer.
Homens como Dominic Russo não guardavam memórias de mulheres comuns.
Não havia motivo.
O trajeto até o trabalho parecia normal demais. Pessoas apressadas, o vento frio da manhã, o cheiro de gasolina misturado ao de pão fresco de uma padaria próxima.
Tudo exatamente como sempre.
Então por que seu corpo continuava alerta?
Arya atravessou a rua com a impressão de que alguém a observava. Virou discretamente a cabeça, procurando um rosto insistente, um movimento suspeito.
Nada.
Talvez estivesse ficando paranoica.
Ridículo.
Ela soltou um suspiro baixo e entrou no café.
O turno começou agitado. Máquinas apitando, pedidos acumulando, clientes impacientes. O tipo de caos que normalmente ajudava a distraí-la.
Mas não naquele dia.
A cada vez que o sino da porta tocava, seu coração disparava.
Não era ele.
Claro que não era.
Mesmo assim, a decepção vinha misturada com alívio, e Arya odiava não entender os próprios sentimentos.
Por que se importava?
Ele tinha sido apenas um homem.
Um homem intenso, perigoso, inesquecível — mas ainda assim, apenas um cliente.
Nada mais.
Perto do horário do almoço, a gerente apareceu ao seu lado com uma expressão curiosa.
— Arya, você conhece alguém de carro preto?
Ela franziu a testa.
— Não.
— Tem um parado ali na frente já faz um tempo.
O mundo pareceu diminuir de tamanho.
Arya limpou as mãos no avental e tentou parecer casual enquanto olhava pela vitrine.
O carro estava lá.
Vidros escuros.
Motor ligado.
Imóvel.
Seu estômago apertou.
Talvez fosse coincidência. Alguém esperando outra pessoa. A cidade era cheia de carros pretos, cheia de histórias que não tinham nada a ver com ela.
Mesmo assim, não conseguiu parar de olhar.
— Quer que eu vá lá ver? — a gerente perguntou.
— Não! — Arya respondeu rápido demais. Forçou um sorriso. — Deve estar esperando alguém.
A mulher deu de ombros e voltou ao trabalho.
Mas Arya não conseguiu fazer o mesmo.
Durante os minutos seguintes, cada passo que dava parecia calculado, cada movimento pesado demais. Sentia o olhar invisível queimando novamente, como na noite anterior.
Era impossível.
Não podia ser.
Podia?
Ela tentou lembrar da expressão dele quando repetiu seu nome.
Arya.
Como se tivesse gostado.
Como se tivesse decidido guardar.
O sino da porta tocou de novo, fazendo-a pular.
Um cliente comum entrou, pedindo informações sobre o cardápio.
Arya atendeu, respirou, tentou recuperar o controle.
Quando arriscou olhar para a rua novamente…
O carro ainda estava lá.
Esperando.
Um arrepio percorreu sua coluna.
Talvez ele não tivesse esquecido.
Talvez tivesse sido exatamente o contrário.
A ideia fez suas mãos tremerem levemente.
Por que ela?
O que havia nela que poderia interessar a um homem que parecia ter o mundo inteiro aos pés?
Nada.
A resposta deveria ser nada.
Mas a presença constante do carro dizia outra coisa.
Arya engoliu seco e obrigou a si mesma a continuar trabalhando. Não podia simplesmente sair correndo por causa de uma suspeita. Não tinha prova de nada.
Era apenas medo.
E medo não pagava contas.
As horas passaram devagar demais.
Quando finalmente seu turno terminou, o céu começava a escurecer outra vez. Ela trocou de roupa no pequeno vestiário, o coração batendo rápido.
Talvez o carro tivesse ido embora.
Sim.
Provavelmente já tinha ido.
Era o mais lógico.
Arya saiu pela porta dos funcionários, ajustando a bolsa, preparando-se para a caminhada até o ponto de ônibus.
E lá estava ele.
Do outro lado da rua.
Mesmo carro.
Mesmo vidro escuro.
Esperando.
O ar ficou preso em seus pulmões.
Não era coincidência.
Não podia ser.
Arya deu um passo hesitante pela calçada, tentando ignorar, tentando agir normalmente, como se não estivesse à beira de algo que não compreendia.
O carro não se moveu.
Mas ela sentiu.
Sentiu como se uma linha invisível tivesse sido amarrada ao redor dela.
Como se, não importa para onde fosse agora, alguém saberia.
Alguém veria.
Seu celular vibrou dentro da bolsa, arrancando um pequeno grito assustado de seus lábios. Arya parou, o coração disparado, e levou alguns segundos para conseguir pegá-lo.
Número desconhecido.
Ela hesitou.
Não costumava atender.
Mas, por algum motivo, atendeu.
— Alô?
Silêncio.
Do outro lado da rua, o carro continuava parado.
O motor ligado.
A linha invisível apertando.
Arya sentiu o medo florescer, real, vivo, respirando contra sua garganta.
— Alô? — repetiu, a voz mais fraca.
Nada.
A ligação caiu.
Lentamente, como se estivesse dentro de um sonho r**m, ela levantou os olhos para o carro.
E teve a impressão — nítida demais para ignorar — de que, atrás daquele vidro escuro…
alguém sorria.