Capítulo 6

801 Words
Arya não dormiu. Mesmo depois de trancar a porta, conferir as janelas duas vezes e deixar a luz da cozinha acesa como se isso pudesse afastar qualquer coisa, o medo continuou ali, deitado ao lado dela. O número desconhecido. O silêncio do outro lado da linha. O carro. Principalmente o carro. Ela repetia para si mesma que poderia ser imaginação, exagero, coincidência c***l. Mas seu corpo não acreditava. Cada estalo do prédio a fazia prender a respiração. Cada farol que atravessava a cortina parecia uma ameaça. Quando o despertador tocou, Arya já estava acordada. Cansada. Tensa. Vulnerável. Pensou em faltar ao trabalho. Mas faltar significava explicar. Criar perguntas. Levantar suspeitas que ela não saberia responder. Então levantou. Tomou banho demorado, como se a água pudesse lavar a sensação de estar sendo observada. Escolheu roupas simples, prendeu o cabelo com cuidado e tentou montar uma expressão normal. Você está bem. Você precisa estar. A rua estava comum demais para alguém que tinha sentido o mundo mudar na noite anterior. Pessoas andando com pressa, ônibus passando, vizinhos discutindo sobre coisas pequenas. Arya odiou como tudo parecia indiferente ao caos dentro dela. O caminho até o café foi um teste de resistência. A cada carro que diminuía a velocidade, a cada homem que falava alto demais, o coração dela disparava. Mas ele não apareceu. Talvez tivesse sido um aviso. Talvez tivesse sido suficiente. Talvez… Ela se agarrou a essa esperança como alguém que segura a borda de um precipício. O turno começou e, pela primeira vez desde que trabalhava ali, Arya torceu para que o movimento fosse fraco. Queria silêncio. Queria respirar. Queria convencer a si mesma de que tinha exagerado. Funcionou. Por algumas horas. Até o sino da porta tocar. O som atravessou seu corpo como um choque elétrico. Arya virou automaticamente. E o mundo parou. Dominic Russo estava ali. Sem pressa. Sem esforço. Como se aquele lugar sempre tivesse pertencido a ele. Não havia carro agora. Não havia vidro separando. Não havia distância segura. Era ele. Real. Perto. Os olhos escuros encontraram os dela imediatamente, como se nunca tivessem perdido o caminho. Arya esqueceu como respirar. Algumas pessoas no café reconheceram quem era. Ela viu na mudança da postura, nos cochichos rápidos, no respeito repentino. Mas Dominic não prestava atenção em ninguém. Só nela. Ele caminhou em sua direção. Cada passo ecoava alto demais na cabeça de Arya, como um contador regressivo. Ela queria se mexer, chamar outra pessoa para atender, desaparecer atrás do balcão. Seu corpo não obedeceu. Quando Dominic parou diante dela, o ar pareceu pesado, difícil de puxar. Perto, ele era ainda pior. Mais intenso. Mais dominante. Mais impossível de ignorar. — Bom dia, Arya. Ele lembrava. Claro que lembrava. Ouvir o próprio nome na voz dele fez algo se contorcer dentro dela. Medo, sim. Mas não só isso — e essa era a parte que mais a assustava. — Bom dia — conseguiu responder, quase em um sussurro. Dominic inclinou levemente a cabeça, observando-a como se estivesse confirmando que ela ainda era real. — Você saiu apressada ontem. O coração dela tropeçou. Ele tinha visto. — Eu… meu turno tinha acabado — disse, tentando manter a firmeza. — Eu sei. A resposta veio calma demais. Sabia. A palavra carregava significados que ela não queria explorar. Arya apertou o bloquinho entre os dedos. — O que o senhor deseja? Os lábios dele se curvaram em algo que definitivamente não era um sorriso gentil. — Conversar. Não. Não, não, não. Aquilo não fazia parte do mundo dela. Pessoas como Dominic Russo não conversavam com mulheres como Arya Carter. — Estou trabalhando — ela disse, a coragem surgindo no desespero. Por um segundo, algo brilhou nos olhos dele. Aprovação. Como se tivesse gostado da resistência. — Então termine — respondeu. — Eu espero. Era uma ordem disfarçada de paciência. Arya sentiu o chão escapar sob seus pés. Ele estava confortável demais. Seguro demais. Como alguém que já tinha decidido o resultado antes mesmo do jogo começar. — Por quê? — a pergunta escapou antes que pudesse impedir. Dominic se inclinou um pouco, diminuindo a distância. Quando falou, a voz era baixa o suficiente para ser só dela. — Porque, desde que eu vi você… não consegui pensar em mais nada. A verdade nua, direta, perigosa. Arya perdeu o fôlego. Aquilo não era romance. Era captura. Ele se afastou devagar, como se não tivesse acabado de virar o mundo dela do avesso. — Eu espero — repetiu. E foi sentar. Como um homem que tinha todo o tempo do mundo. Arya permaneceu imóvel por alguns segundos. Ela sabia. Sabia com uma clareza assustadora que, se fosse até ele quando o turno acabasse, nada voltaria a ser como antes. Mas também sabia outra coisa. Dominic Russo não parecia um homem que aceitava recusas.
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