Capítulo 18

771 Words
No mundo de Dominic Russo, informação valia mais do que ouro. Ela comprava lealdade. Vendia traições. E enterrava inimigos. Por isso, quando o nome de Arya Carter atravessou a mesa de um território rival, não foi tratado como curiosidade. Foi tratado como oportunidade. — Tem certeza? A sala era menor, mais escura, impregnada pelo cheiro de cigarro antigo. Diferente do império silencioso e sofisticado de Dominic, ali o poder se sustentava na intimidação crua. Viktor Petrov não gostava de trabalhar com suposições. O homem à sua frente engoliu em seco. — Absoluta. Russo mandou seguir a garota. Todo dia. Relatório de horário, caminho, quem chega perto. Ele nunca fez isso por ninguém. Viktor recostou na cadeira. Interessante. Muito interessante. Dominic Russo era conhecido por muitas coisas: frieza, precisão, punições rápidas. Mas apego? Interesse pessoal? Nunca. — Quem é ela? — perguntou. — Garçonete. Mora sozinha. Vida simples. Sem família por perto. Mais interessante ainda. Viktor soltou uma risada baixa. — Então o grande Dominic Russo finalmente tem um ponto fraco. O homem não respondeu. Não era uma frase que se comentasse. Viktor girou o copo de bebida entre os dedos, pensando. Não se ataca um homem como Dominic de frente. Era suicídio. Mas todo império tinha um ponto vulnerável. E, às vezes, ele caminhava distraído pela rua, segurando uma bolsa simples e tentando chegar ao trabalho no horário. — Quero tudo sobre ela — ordenou. — Rotina. Medos. Lugares que frequenta. Descubram o que faria Russo perder a cabeça. O subordinado assentiu. — E se ele descobrir que estamos olhando? Viktor sorriu. Um sorriso lento. Perigoso. — Ele vai descobrir. Era exatamente esse o objetivo. Enquanto isso, do outro lado da cidade, Arya organizava xícaras atrás do balcão tentando ignorar a sensação de que sua pele estava fina demais. Sensível demais. Como se qualquer olhar pudesse atravessá-la. Ela tinha dormido pouco de novo. Latte acordara durante a madrugada, perdido no novo ambiente, e ela passara um tempo sentada no chão com ele até que o filhote voltasse a se acalmar. Não reclamava. Na verdade, tinha sido o momento mais tranquilo dos últimos dias. Mas o cansaço agora pesava. E o medo também. Porque, por mais que Dominic não tivesse aparecido desde a última vez, a presença dele continuava ali. Invisível. Persistente. Ela pegou o pano e começou a limpar a bancada já limpa. — Você tá bem? — perguntou uma colega. Arya forçou um sorriso. — Tô sim. Mentira. Mas era a resposta mais fácil. O sino da porta tocou. Arya congelou por um segundo. Respirou. Não era ele. Dois homens que ela nunca tinha visto entraram. Roupas comuns, postura comum. Mas os olhos… Os olhos avaliavam. O lugar. As saídas. Ela. Arya tentou ignorar o arrepio que subiu pela coluna. Pegou o bloquinho. — Bom dia, o que vão querer? Eles pediram cafés simples. Nada fora do normal. Mas não paravam de olhar. Como se estivessem memorizando. Como se ela fosse um endereço. Arya sentiu a boca secar. Algo estava errado. Muito errado. E, pela primeira vez, o medo que Dominic despertava nela pareceu ganhar um formato ainda pior: E se existissem homens mais assustadores do que ele? — Tem gente olhando ela. Matteo falou assim que entrou no escritório. Dominic levantou o olhar imediatamente. — Quem? — Não são nossos. Isso bastou. O ar mudou. O corpo de Dominic ficou imóvel, mas os olhos escureceram de um jeito que Matteo conhecia bem demais. Tempestade. — Quantos? — perguntou. — Dois por enquanto. Não se aproximaram. Só observaram. Dominic caminhou até a mesa devagar. A mandíbula travada. Então era isso. Eles tinham farejado. Alguém tinha percebido que ele dedicava atenção demais a uma mulher que deveria ser irrelevante. Um erro. Um erro que ele não costumava cometer. Mas agora já estava feito. — Descubra quem mandou — ordenou. A voz dele era baixa. Mortal. — E a garota? — Matteo perguntou. Dominic ficou em silêncio por um instante. Protegê-la significava confirmar. Não fazer nada significava arriscar. Ele odiava ter escolhas limitadas. — Ninguém toca nela — disse por fim. — Se alguém chegar perto demais… Não precisou terminar. Matteo assentiu. Porque todos sabiam. Se alguém ousasse usar Arya contra ele… A cidade ia queimar. De volta ao café, Arya entregou as xícaras na mesa dos dois homens. As mãos não tremiam. Mas quase. Eles agradeceram com educação demais. Sorriram com interesse demais. E continuaram olhando. Ela voltou para trás do balcão com o coração batendo forte. Sem entender. Sem saber. Que, naquele momento, tinha se tornado oficialmente a peça mais valiosa de um jogo que nunca pediu para participar.
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