Capítulo 20

907 Words
Arya sentia quando algo ia acontecer. Não era lógica. Não era prova. Era o mesmo aperto que vinha avisando nos últimos dias que sua vida tinha saído do eixo. E agora ele gritava. Ela caminhava rápido pela calçada, a bolsa presa contra o corpo, repetindo mentalmente que só precisava chegar em casa. Tomar um banho. Sentar no chão com o Latte. Ouvir um miado em vez de ameaças invisíveis. Normalidade. Mesmo que fosse pequena. Mesmo que fosse frágil. O sol começava a descer no horizonte, espalhando sombras compridas entre os prédios. Pessoas passavam por ela, falando alto, distraídas, vivendo suas vidas comuns. Arya invejou cada uma delas. Dobrou a esquina. E parou. Ele estava ali. Como se tivesse sido colocado no caminho dela pelo próprio destino. Encostado no carro, paletó escuro, postura impecável, olhos fixos como se nunca tivessem aprendido a procurar outra coisa. Dominic Russo. O coração de Arya disparou tão forte que doeu. Por um segundo, pensou em fingir que não tinha visto. Atravessar a rua. Voltar. Correr. Mas sabia. Ele não era o tipo de homem que se deixava para trás. — Você precisa parar de fazer isso — ela disse antes mesmo de chegar perto o suficiente. A voz saiu falha, mas firme. Dominic não se moveu. — Fazer o quê? — perguntou. Como se não soubesse. Como se fosse inocente. Arya soltou uma risada curta, nervosa. — Aparecer. Me esperar. Decidir onde eu posso ou não respirar. Os olhos dele percorreram o rosto dela, registrando cada detalhe. O cansaço. O medo. A coragem teimosa que ela usava como armadura. — Eles te assustaram — Dominic afirmou. Não era pergunta. Arya cruzou os braços. — Quem eram? Silêncio. Ele poderia mentir. Poderia desconversar. Mas Dominic sempre preferiu a verdade quando ela servia aos próprios interesses. — Homens que queriam saber por que eu me interesso por você. A resposta atingiu como um choque. Arya piscou. — E por que você se interessa por mim? A pergunta saiu mais baixa. Mais perigosa. Dominic se afastou do carro. Um passo. Só um. Mas o espaço entre eles pareceu desaparecer. — Eu já te disse. A lembrança daquela frase no café atravessou a mente dela. Desde que eu vi você… Arya balançou a cabeça. — Isso não é resposta. Isso é loucura. Talvez fosse. Dominic nunca tinha sido acusado de sanidade. — No meu mundo — ele disse — quando alguém vira alvo de olhares errados, eu tiro esses olhares. Arya sentiu o estômago afundar. — Eu não pedi. A frase ficou entre eles. Firme. Necessária. Dominic respirou fundo pelo nariz, controlando a reação automática de rejeitar aquela ideia. Ela tinha razão. E, ainda assim, isso não mudava nada. — Você acha que eles teriam ido embora sozinhos? — perguntou. Arya hesitou. Não. — Não. — Então. Ela passou a mão pelo cabelo, frustrada. — Você não entende! Você me protege e me prende ao mesmo tempo! Algo brilhou nos olhos dele. Porque aquela frase chegava perto demais da verdade. Dominic sempre foi uma prisão elegante. Portas abertas. Saídas vigiadas. — Eu estou evitando que te usem contra mim — ele disse. Honesto. Cru. Arya levou um segundo para entender. Quando entendeu, ficou pálida. — Então é isso? — sussurrou. — Eu sou uma fraqueza? Ele sustentou o olhar dela. Sem piscar. — Está se tornando. O mundo pareceu inclinar. Arya riu, mas não havia humor. — Ótimo. Maravilhoso. Então agora, além de ter medo de você, eu tenho que ter medo de quem quer chegar até você. Dominic se aproximou mais um passo. O suficiente para que ela sentisse o perfume, a presença, o perigo. — Ninguém vai tocar em você. Promessa. Ameaça. Voto de guerra. — Você não pode garantir isso! — ela disparou. Ele podia. E faria. Mas Arya ainda não sabia o tamanho do homem à sua frente. Dominic ergueu a mão. Por um instante, ela achou que ele iria segurá-la. Não fez. Apenas deixou a mão pairando no ar entre os dois. Contenção. — Eu não vou deixar — repetiu. A intensidade na voz dele era quase insuportável. Arya sentiu os olhos arderem. Ela não queria isso. Não queria ser importante para alguém como ele. Porque importância, no mundo de Dominic Russo, vinha acompanhada de consequências. — Eu só quero viver minha vida — disse. Simples. Pequeno. Impossível. Dominic inclinou a cabeça, observando-a como se ela fosse um enigma que ele estava decidido a resolver. — E eu quero você nela. O silêncio que veio depois foi brutal. Arya não tinha resposta pronta para aquilo. Não tinha argumento forte o suficiente. Porque parte dela entendia. Parte dela sentia. E era essa parte que mais a aterrorizava. Ela deu um passo para trás. — Eu preciso ir. Dominic demorou. Mas abriu espaço. Vitória mínima. Ela passou por ele com o coração em disparada, cada passo exigindo força. Sentia o olhar dele queimando em suas costas. Quando estava a alguns metros, ouviu a voz dele mais uma vez. — Arya. Ela parou. Não virou. — Agora eles sabem que você existe. O ar ficou pesado. — Então eu vou garantir que nunca esqueçam que você é intocável. Um arrepio percorreu a espinha dela. Não soava como proteção. Soava como declaração de guerra. Arya continuou andando. Sem olhar para trás. Sem perceber que, naquele instante, Dominic Russo tinha acabado de escolher oficialmente o lado dela. Mesmo que ela ainda não tivesse escolhido o dele.
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