Arya sabia exatamente onde Dominic estava.
Mesmo quando não estava olhando.
Era como uma consciência nova grudada nela, puxando sua atenção de tempos em tempos, lembrando que ele ocupava um ponto específico do salão.
Mesa perto da janela.
Costas protegidas.
Visão ampla de tudo.
Inclusive dela.
A bandeja tremia um pouco em suas mãos quando voltou com os pedidos completos. Xícaras, copos de água, pequenos pratos. Coisas simples que de repente pareciam pesar mais do que deveriam.
Respira.
É só trabalho.
Ela se aproximou da mesa.
Os homens interromperam a conversa outra vez. Não abruptamente, mas o suficiente para que ela percebesse que a presença dela alterava o ambiente.
Respeito.
Cuidado.
Talvez até curiosidade.
Arya colocou o café de Dominic por último.
Não por estratégia.
Mas porque deixar ele por último significava adiar o momento de ficar perto demais.
Quando finalmente depositou a xícara diante dele, seus olhos se encontraram.
O impacto foi imediato.
Ele não sorriu.
Não precisava.
Havia algo mais poderoso ali.
Atenção total.
— Obrigado — Dominic disse, baixo.
Educado.
Como se fossem apenas dois desconhecidos dividindo uma formalidade.
Arya fez um movimento de cabeça.
— Se precisarem de algo mais, é só chamar.
Frase padrão.
Escudo profissional.
Ela se virou.
Deu dois passos.
— Arya.
Outra vez.
Sempre ele.
Ela voltou, controlando a respiração.
— Sim?
Dominic segurava a xícara, mas não bebia. Os olhos permaneciam nela, atentos demais para serem casuais.
— Trouxe açúcar?
A pergunta era simples.
Inofensiva.
Mas havia algo por baixo.
Ela não sabia o quê.
— Posso trazer.
— Eu espero.
O coração dela tropeçou.
Ele sempre esperava.
Arya assentiu e se afastou novamente.
Atrás do balcão, respirou fundo antes de pegar os sachês. Precisava de um segundo. Só um.
Porque aquela dinâmica estava mudando algo dentro dela.
Dominic não avançava.
Não forçava.
Mas também não desaparecia.
Era como se estivesse aprendendo a ficar.
Aprendendo a ocupar espaço sem pedir permissão.
E a pior parte?
Arya estava começando a permitir.
Voltou à mesa.
Entregou o açúcar.
Dessa vez, ele segurou o pacote por um instante mais longo do que o necessário, como se a demora fosse calculada.
Não toque.
Nunca toque.
Mas perto o suficiente para que a eletricidade existisse.
— Obrigado — repetiu.
Ela ia sair.
Mas um dos homens chamou Dominic pelo nome, trazendo a reunião de volta.
Arya aproveitou a distração.
Ficou.
Não perto demais.
Mas o suficiente para ouvir fragmentos.
“…entrega amanhã…”
“…ninguém pode saber…”
“…resolvido antes que vire problema…”
O tom era sério.
Organizado.
Perigoso.
Arya sentiu um frio percorrer a espinha.
Não era assunto de empresários comuns.
Não era o tipo de conversa que acontecia em voz baixa por acaso.
Quando Dominic percebeu que ela tinha ouvido, ergueu os olhos.
Não bravo.
Não surpreso.
Apenas atento.
Como se avaliasse o que aquilo significava.
Arya baixou o olhar rapidamente.
— Vou deixá-los à vontade — disse.
Dessa vez, ninguém a chamou de volta.
Mas ela sentia.
Sentia o olhar dele acompanhando cada passo até o balcão.
O tempo passou devagar.
Dolorosamente devagar.
Arya atendia outras mesas, respondia perguntas, sorria, mas parte dela permanecia ali, presa naquela perto da janela.
A cada vez que precisava atravessar o salão, o coração acelerava.
A cada risada baixa vinda do grupo, ela se perguntava que tipo de homem Dominic realmente era fora daqueles encontros com ela.
Quantas vidas ele tocava.
Quantas mudava.
Quantas destruía.
E por que, entre todas as pessoas do mundo…
ele tinha escolhido justamente ela.
Quando percebeu, estava olhando.
Outra vez.
Dominic interrompeu a conversa no meio.
Só para sustentar o olhar de volta.
Como se dissesse:
Eu sei.
Arya virou o rosto imediatamente, o pulso disparado.
Isso estava ficando perigoso.
Não por ele.
Mas por ela.
Quase duas horas depois, a reunião começou a terminar. Cadeiras arrastaram. Telefones apareceram. Decisões finais foram tomadas.
Arya sentiu antes mesmo de confirmar.
Ele ia embora.
E o pensamento trouxe um alívio que veio misturado com algo muito pior.
Decepção.
Dominic se levantou por último.
Os homens aguardaram.
Ele ajeitou o paletó.
Mas, antes de sair, caminhou até o balcão.
Direto.
Sem pressa.
Sem pedir permissão.
Arya ficou imóvel.
O coração tão alto que ela tinha certeza de que qualquer pessoa poderia ouvir.
Ele parou do outro lado.
Perto.
Público.
Mas ainda assim íntimo.
— O café estava perfeito — disse.
Ela assentiu.
— Fico feliz.
Dominic a observou por um momento mais longo.
Como se estivesse memorizando.
— Tenha uma boa noite, Arya.
Havia algo diferente ali.
Suave.
Quase gentil demais.
Ela engoliu em seco.
— O senhor também.
Ele sustentou o olhar por mais um segundo.
Depois foi embora.
Os carros partiram.
O peso diminuiu.
O café voltou ao normal.
Mas Arya continuou parada.
Porque a ausência dele agora tinha um formato.
E ela não sabia se gostava disso.