Capítulo 16

1643 Words
A claridade atravessou a cortina fina antes mesmo do despertador tocar. Arya resmungou, virando o rosto contra o travesseiro, pronta para roubar mais cinco minutos de sono… quando sentiu. Peso. Quentinho. Um pequeno corpo acomodado contra a sua panturrilha. Ela abriu os olhos devagar, ainda presa naquela névoa entre sonho e realidade, até que a memória da noite anterior voltou como um sopro. O beco. O miado. A toalha. O leite. Latte. Arya levantou a cabeça o suficiente para enxergá-lo. O filhote dormia profundamente, enrolado como uma bolinha imperfeita, o peito subindo e descendo em um ritmo tranquilo. O pelo, agora limpo, estava macio e levemente espetado. Seguro. Ali. Com ela. Um sorriso involuntário apareceu em seus lábios. — Bom dia pra você também… — murmurou, a voz rouca de sono. Como se tivesse entendido, uma das orelhinhas tremeu. Mas ele continuou dormindo. Arya esticou o braço até o criado-mudo e pegou o celular. O horário fez seu estômago apertar. Ela ia se atrasar. Normalmente, isso a deixaria em pânico imediato — perder trabalho não era um luxo que pudesse se permitir. Mas bastou olhar para o filhote outra vez para saber que havia algo mais urgente naquela manhã. Ele precisava de coisas. Comida de verdade. Um potinho. Talvez uma caixinha de areia improvisada. Qualquer coisa que fosse melhor do que o improviso da noite anterior. Sentou-se na cama com cuidado para não acordá-lo e procurou o contato do gerente. Respirou fundo antes de ligar. — Arya? — a voz sonolenta atendeu do outro lado, provavelmente ainda terminando o café. — Oi, chefe. Desculpa ligar cedo… eu só queria avisar que vou chegar um pouquinho atrasada hoje. Coisa rápida, prometo. No máximo uma hora. Houve um silêncio curto, como se ele estivesse calculando o movimento do dia. — Aconteceu alguma coisa? Arya olhou para Latte de novo. Sim, pensou. Aconteceu que um gatinho decidiu confiar em mim. — Nada grave — respondeu. — Só preciso resolver uma coisinha antes de ir. Outro segundo de pausa. — Tudo bem. Mas tenta não demorar. O alívio desceu pelos ombros dela. — Obrigada. Eu compenso depois. Desligou. Arya deixou o celular de lado e passou a mão no rosto, despertando de vez. A responsabilidade tinha chegado rápido, sem aviso, mas estranhamente não parecia pesada. Parecia… certa. Levantou-se devagar. O movimento fez Latte se mexer, piscando, confuso, até erguer a cabecinha. — Ei, pequeno — ela falou suave. — Eu já volto, tá? Prometo que não vou demorar. Ajoelhou-se ao lado dele, fazendo carinho sob o queixo minúsculo. O ronronar veio mais fácil agora, quase automático. Aquilo derreteu algo dentro dela. — Você vai precisar de ração, sachê, um lugar decente pra fazer suas necessidades… talvez um brinquedo. — inclinou a cabeça. — Apesar de que você tem cara de quem vai brincar com qualquer tampinha de garrafa. Latte piscou lentamente, como se concordasse. Arya se levantou, trocou de roupa rápido, amarrou o cabelo em um coque simples e pegou a bolsa. Antes de sair, correu até a cozinha e deixou um pouquinho de água fresca em um copo baixo, improvisando. Não era perfeito. Mas era cuidado. Voltou até a porta e hesitou. Nunca tinha deixado ninguém esperando por ela. — Eu volto logo — repetiu. E saiu. O ar da manhã estava frio, acordando a cidade aos poucos. Arya caminhava rápido, os pensamentos girando em listas mentais: preço da ração, o que dava pra pagar, o que ficaria para o próximo salário. Talvez tivesse que cortar algo dela mesma. Tudo bem. Ela estava acostumada. O pet shop do bairro ficava a poucas quadras. A vitrine tinha coleiras coloridas e caminhas que pareciam nuvens. Arya entrou quase tímida, como se estivesse invadindo um mundo onde não pertencia. Mas pertencia. Agora pertencia. Uma atendente sorriu. — Posso ajudar? Arya assentiu, meio perdida. — É… eu encontrei um filhote. Bem pequeno. Eu preciso de… praticamente tudo. Enquanto a mulher começava a mostrar as opções mais básicas, Arya imaginava o Latte explorando o apartamento, tropeçando nas próprias patinhas, miando quando sentisse falta dela. O coração apertou. Acelerou a escolha. Pegou a menor ração, alguns sachês, uma bandejinha simples, areia, dois potinhos e, depois de muita luta interna… Um ratinho de brinquedo. — Ele merece — murmurou para si mesma. Pagou, agradeceu e saiu apressada. Precisava voltar. Mal sabia que, do outro lado da rua, dentro de um carro parado desde antes dela chegar, alguém observava cada passo. Cada sacola. Cada expressão suave que Arya não mostrava para mais ninguém. Dominic tamborilava os dedos no volante, o olhar escuro acompanhando o jeito atrapalhado dela equilibrar as compras. — Um gato… — murmurou. Havia curiosidade ali. E algo mais profundo. Algo que começava a se tornar perigoso. Ela era sozinha. Ele tinha certeza disso. Mas, ainda assim, Arya encontrava maneiras de abrir espaço no mundo dela. Mesmo que fosse para um animal perdido. Os lábios dele se curvaram de leve. — Continue observando — ordenou, sem tirar os olhos dela. Porque, de uma coisa, Dominic tinha plena convicção. Não importava quantos desvios surgissem no caminho. No final… Arya seria dele. Arya praticamente subiu as escadas correndo. As sacolas batiam contra sua perna a cada degrau, o plástico fazendo barulho demais para o horário, mas ela não diminuía o ritmo. A ansiedade tinha um motivo simples e urgente: Ele. Quando chegou ao andar, já procurava as chaves dentro da bolsa antes mesmo de parar em frente à porta. O coração batia rápido, um medo irracional crescendo — e se ele tivesse conseguido sair? E se tivesse se machucado? E se… A fechadura girou. Ela entrou. — Latte? A porta m*l tinha fechado e um miado fino respondeu, vindo da sala. O alívio foi tão imediato que as pernas quase amoleceram. — Graças a Deus… Arya largou as sacolas no chão e foi atrás dele. O filhote estava perto do sofá, tropeçando desajeitado nas próprias patas, como se ainda estivesse aprendendo a existir dentro daquele espaço. Quando a viu, levantou a cabeça e miou de novo. Como uma reclamação. Você demorou. Arya riu, o som escapando leve, verdadeiro — raro. — Eu falei que voltava rápido! Ajoelhou-se e o pegou com cuidado. Latte era tão pequeno que cabia fácil nas duas mãos dela. Quente, frágil, vivo. Ele esfregou o focinho no dedo dela, e algo no peito de Arya se apertou de um jeito que ela não sabia explicar. Fazia muito tempo que ninguém precisava dela. — Olha quanta coisa eu trouxe pra você… — murmurou. Ela o colocou no sofá e foi buscar as compras, começando a espalhar tudo pelo chão. Os potinhos primeiro. Lavou rápido na pia, secou como deu, colocou água fresca em um e um pouco de ração no outro. Abriu um sachê também, amassando para facilitar. — Eu não sei exatamente o que filhotes comem, então a gente vai aprendendo junto, tá? Latte observava tudo com atenção exagerada, como se fosse a coisa mais fascinante do mundo. Depois veio a bandejinha com areia, posicionada no cantinho da lavanderia improvisada. Arya colocou o ratinho de brinquedo por último. — E isso aqui… é luxo. Então aproveita. Ela jogou o brinquedo devagar perto dele. Latte levou meio segundo para entender. No segundo seguinte, se atirou. Desequilibrado, determinado, feroz em seus cinco centímetros de coragem. Arya gargalhou. Gargalhou de verdade, levando a mão à boca, surpresa com a facilidade daquele som. O filhote escorregava, errava o alvo, mordia o próprio nada, mas continuava tentando como se o destino do universo dependesse daquilo. — Você é péssimo nisso — disse, entre risadas. Ele miou, indignado. E tentou de novo. Arya sentou no chão, esquecendo por um instante o medo constante que a acompanhava nos últimos dias. Esquecendo os olhos escuros que pareciam persegui-la mesmo quando não estavam ali. Ali, naquele apartamento pequeno, só existia ela e um gatinho que tinha decidido confiar nela. Era simples. Era bom. Mas o relógio na parede não tinha a mesma paciência. Arya olhou a hora e arregalou os olhos. — Eu vou me atrasar muito! Levantou num pulo. Latte congelou, assustado com a mudança repentina. Ela correu até ele, ajoelhando outra vez. — Ei, ei… calma. Eu só vou tomar um banho e depois trabalhar, tá? Eu preciso trabalhar pra comprar mais dessas coisas chiques pra você. Fez carinho na cabecinha dele. — Comporta-se. Como se tivesse entendido o tom sério, Latte piscou devagar. Arya levantou e foi para o banheiro. O banho foi rápido demais para ser relaxante. A água quente ajudava a soltar a tensão dos músculos, mas a mente continuava acelerada. Pensamentos práticos. Preciso bater o ponto. Preciso chegar antes que o chefe mude de ideia. Preciso fingir normalidade. Quando fechou o registro, respirou fundo. Você consegue. Vestiu o uniforme, prendeu o cabelo com mais cuidado dessa vez e passou um pouco de corretivo abaixo dos olhos. Não apagava o cansaço, mas ajudava. Antes de sair, voltou para a sala. Latte estava sentado perto dos potinhos, cheirando a ração com desconfiança. Arya se agachou. — Eu sei. Não parece grande coisa. Mas foi o que deu hoje. Ele lambeu um pouquinho. Vitória. Ela sorriu. Pegou o celular, a bolsa, as chaves — e hesitou outra vez. O medo voltava sempre na hora de atravessar aquela porta. Mas agora havia algo novo. — Eu volto logo — prometeu. Não era apenas para si mesma. Era para ele. Arya saiu e trancou. E, do outro lado da rua, estacionado no mesmo ponto discreto de sempre, um par de olhos acompanhou quando ela apareceu. Observou o cabelo ainda úmido. A pressa. A vida simples que ela tentava manter. Dominic não sabia o que tinha mudado dentro daquele apartamento. Ainda não. Mas sentia. Algo estava diferente. E ele descobriria. Sempre descobria. O carro ligou alguns segundos depois que Arya virou a esquina. Mantendo distância. Sem que ela percebesse.
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