21. Lorena

1363 Words
Voltei à igreja no dia seguinte. Dessa vez, não foi porque eu tinha acabado de sair de um exame. Não estava chorando, não tinha Arcanjo esperando no carro e ninguém tinha me mandado entrar. Eu fui porque queria. Talvez isso mudasse tudo. Talvez não mudasse nada. Deixei Bia na escola, avisei Mirela que chegaria um pouco mais tarde à Clínica da Família e caminhei até a mesma igreja em que, dois dias antes, eu tinha sentado no último banco sem conseguir terminar uma oração. A porta estava aberta. Entrei. O cheiro de madeira, vela e piso antigo era o mesmo. Havia poucas pessoas. Uma senhora rezava perto da frente, um homem permanecia ajoelhado com a cabeça baixa e, próximo ao altar, um padre organizava alguns papéis. Escolhi o último banco outra vez. Talvez coragem também tivesse endereço e a minha ainda não passasse dali. Sentei, coloquei a bolsa ao lado e fiquei olhando para a cruz. Na primeira vez, eu tinha dito: — Se você ainda escuta… Depois disso, nada. Naquela manhã tentei continuar. — Eu voltei. Falei tão baixo que m*l ouvi minha própria voz. Parecia ridículo avisar Deus da minha presença. Mesmo assim, continuei. — Eu não sei fazer isso. Uma voz veio do corredor lateral: — Quase ninguém sabe quando realmente precisa. Virei assustada. O padre que eu tinha visto perto do altar estava alguns bancos à frente. Ele não se aproximou de imediato. — Desculpe — disse. — Não queria interromper. — Tudo bem. Ele fez um gesto discreto para o banco. — Posso? Assenti. Sentou deixando espaço entre nós. — Sou Vicente. — Lorena. — Você quer conversar ou prefere ficar sozinha? A pergunta me fez pensar em Arcanjo do lado de fora, perguntando antes de agir. — Acho que quero conversar. Padre Vicente assentiu. Esperou. Não perguntou o que tinha acontecido. Não tentou adivinhar. Foi isso que me fez começar. — Estou grávida. Ele olhou rapidamente para minha barriga e voltou ao meu rosto. — E meu bebê tem anencefalia. A palavra saiu menos trêmula do que antes. Talvez a gente também aprendesse a pronunciar a própria dor. — Os médicos confirmaram. Mais de uma vez. Ele permaneceu em silêncio. — Eu decidi continuar a gestação. Ainda nada. — Pode falar alguma coisa — pedi, quase nervosa. — Estou tentando não falar antes de entender o que você precisa de mim. Aquilo me desmontou um pouco. — Todo mundo quer saber o que eu vou fazer. Ou quer me dizer o que eu deveria fazer. — E o que você quer que eu faça? Olhei para a cruz. — Não sei. Demorei. — Talvez eu queira que o senhor me diga que Deus vai fazer um milagre. Padre Vicente não mudou de expressão. Meu peito apertou antes mesmo da resposta. — Eu não posso te prometer isso. Baixei os olhos. Era estranho. Eu já sabia que ele não podia. Ainda assim, ouvir doía. — Então pra que serve a fé? A pergunta saiu mais dura. Ele não pareceu ofendido. — Se eu te disser que fé serve para conseguir tudo o que você pede, eu transformo Deus num contrato. Você oferece oração, confiança, promessa… e Ele fica obrigado a entregar o resultado. Pensei em Eduardo. Nos documentos. Nas cláusulas. Na palavra obrigação. Quase achei c***l que até ali aquela ideia me perseguisse. — Mas a Bíblia fala de milagre. — Fala. — Então eu posso pedir? — Pode. Olhei para ele. — Mesmo sabendo do diagnóstico? — Uma coisa não impede a outra. Ele apoiou os braços nos joelhos. — Você pode pedir um milagre e continuar fazendo seu pré-natal. Pode rezar e ouvir os médicos. Pode acreditar que Deus pode fazer algo que você não compreende e, ao mesmo tempo, se preparar para um desfecho que você não quer. Meus olhos encheram. — Isso não é falta de fé? — Preparar-se para sofrer não significa desejar o sofrimento. E reconhecer a realidade não significa desistir de Deus. Fiquei quieta. Era exatamente o conflito que eu não conseguia organizar dentro de mim. Se eu comprasse uma roupa para o bebê, parecia que estava fingindo que ele viveria. Se eu pensasse em despedida, parecia que estava desistindo antes da hora. Se pedisse milagre, temia estar negando a medicina. Se aceitasse o que os médicos diziam, sentia como se estivesse fechando a última porta. — Eu não quero passar a gravidez inteira esperando uma morte — falei. Padre Vicente respirou devagar. — Então não transforme cada dia numa sala de espera. Olhei para ele. — Seu filho está com você hoje? Minha mão foi à barriga. — Está. — Então hoje existe uma gestação, existe vínculo, existem cuidados que você precisa receber. O amanhã vai exigir coisas de você quando chegar. As lágrimas começaram. — E se eu amar demais? Ele demorou a responder. — Amor não costuma obedecer medida de segurança. Ri chorando. — Ótimo. — Eu não disse que era confortável. Passei a mão no rosto. — Minha filha já está se apegando. Ela queria ser irmã. — Quantos anos? — Sete. — E você? — Eu o quê? — Está se apegando? A pergunta foi gentil. Talvez por isso tenha doído tanto. — Sim. Foi a primeira vez que admiti sem acrescentar explicação. Sem dizer que o bebê não era geneticamente meu. Sem lembrar que Priscila era a mãe. Sem tentar corrigir a frase. Só: — Sim. Padre Vicente assentiu como se eu tivesse dito algo permitido. — Isso te assusta. — Muito. — Porque você pode perdê-lo? Balancei a cabeça. — E porque, mesmo que ele nasça e fique vivo por algum tempo, ele não vai ser meu filho para levar pra casa. Minha voz falhou. — Eu não sei qual luto me espera. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Talvez você não precise escolher o luto antes de chegar a ele. Olhei para a frente. — Fé não é saber como termina, Lorena. — Então é o quê? Ele sorriu de leve. — Se eu conseguir colocar em uma frase perfeita, desconfie de mim. Ri pelo nariz. — Mas posso te dizer o que eu acredito: fé não é garantia. Não é troca. Não é um jeito de obrigar Deus a concordar com a gente. Fez uma pausa. — Às vezes é continuar falando mesmo quando você não sabe se vai gostar da resposta. A frase me levou imediatamente a Arcanjo. Deus e eu não se fala. Talvez porque, para ele, a resposta tivesse doído demais. Eu não sabia o que tinha acontecido. E não era meu direito arrancar aquilo dele. Voltei os olhos para a cruz. — Posso rezar aqui? — Claro. Padre Vicente começou a levantar. Segurei de leve o braço dele. — Padre. — Sim? — Se eu pedir um milagre, o senhor vai achar que estou negando a ciência? — Não. — E se eu começar a me preparar para perder o bebê, Deus vai achar que eu não confiei? Ele me encarou com uma ternura que não tinha pena. — Eu não falo por Deus nesse nível de certeza. Mas não acredito que Ele precise que você minta sobre o seu medo para provar fé. Soltei o braço dele. — Obrigada. Ele se afastou. Fiquei sozinha outra vez. Dessa vez, não tentei encontrar uma oração bonita. Coloquei as duas mãos sobre a barriga. — Eu quero que ele viva. Minha voz tremeu. — Quero muito. Respirei. — Mas, se eu tiver que passar por outra coisa… Parei. Chorei. Demorei para conseguir terminar. — …não deixa eu passar sozinha. Não pedi que o diagnóstico desaparecesse. Também não aceitei a perda como se ela já tivesse acontecido. Pela primeira vez, consegui deixar as duas coisas existirem dentro de mim sem obrigar uma a matar a outra. Esperança. Medo. Quando saí da igreja, o mundo continuava igual. Nenhuma voz do céu. Nenhum sinal. Nenhum exame diferente. Mas eu também não tinha entrado ali para conseguir prova. Padre Vicente estava certo sobre uma coisa: fé não era contrato. E talvez, pela primeira vez desde o diagnóstico, eu conseguisse desejar um milagre sem transformar esse desejo numa promessa de que ele aconteceria.
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