Voltei à igreja no dia seguinte.
Dessa vez, não foi porque eu tinha acabado de sair de um exame.
Não estava chorando, não tinha Arcanjo esperando no carro e ninguém tinha me mandado entrar.
Eu fui porque queria.
Talvez isso mudasse tudo.
Talvez não mudasse nada.
Deixei Bia na escola, avisei Mirela que chegaria um pouco mais tarde à Clínica da Família e caminhei até a mesma igreja em que, dois dias antes, eu tinha sentado no último banco sem conseguir terminar uma oração.
A porta estava aberta.
Entrei.
O cheiro de madeira, vela e piso antigo era o mesmo. Havia poucas pessoas. Uma senhora rezava perto da frente, um homem permanecia ajoelhado com a cabeça baixa e, próximo ao altar, um padre organizava alguns papéis.
Escolhi o último banco outra vez.
Talvez coragem também tivesse endereço e a minha ainda não passasse dali.
Sentei, coloquei a bolsa ao lado e fiquei olhando para a cruz.
Na primeira vez, eu tinha dito:
— Se você ainda escuta…
Depois disso, nada.
Naquela manhã tentei continuar.
— Eu voltei.
Falei tão baixo que m*l ouvi minha própria voz.
Parecia ridículo avisar Deus da minha presença.
Mesmo assim, continuei.
— Eu não sei fazer isso.
Uma voz veio do corredor lateral:
— Quase ninguém sabe quando realmente precisa.
Virei assustada.
O padre que eu tinha visto perto do altar estava alguns bancos à frente. Ele não se aproximou de imediato.
— Desculpe — disse. — Não queria interromper.
— Tudo bem.
Ele fez um gesto discreto para o banco.
— Posso?
Assenti.
Sentou deixando espaço entre nós.
— Sou Vicente.
— Lorena.
— Você quer conversar ou prefere ficar sozinha?
A pergunta me fez pensar em Arcanjo do lado de fora, perguntando antes de agir.
— Acho que quero conversar.
Padre Vicente assentiu.
Esperou.
Não perguntou o que tinha acontecido.
Não tentou adivinhar.
Foi isso que me fez começar.
— Estou grávida.
Ele olhou rapidamente para minha barriga e voltou ao meu rosto.
— E meu bebê tem anencefalia.
A palavra saiu menos trêmula do que antes.
Talvez a gente também aprendesse a pronunciar a própria dor.
— Os médicos confirmaram. Mais de uma vez.
Ele permaneceu em silêncio.
— Eu decidi continuar a gestação.
Ainda nada.
— Pode falar alguma coisa — pedi, quase nervosa.
— Estou tentando não falar antes de entender o que você precisa de mim.
Aquilo me desmontou um pouco.
— Todo mundo quer saber o que eu vou fazer. Ou quer me dizer o que eu deveria fazer.
— E o que você quer que eu faça?
Olhei para a cruz.
— Não sei.
Demorei.
— Talvez eu queira que o senhor me diga que Deus vai fazer um milagre.
Padre Vicente não mudou de expressão.
Meu peito apertou antes mesmo da resposta.
— Eu não posso te prometer isso.
Baixei os olhos.
Era estranho. Eu já sabia que ele não podia. Ainda assim, ouvir doía.
— Então pra que serve a fé?
A pergunta saiu mais dura.
Ele não pareceu ofendido.
— Se eu te disser que fé serve para conseguir tudo o que você pede, eu transformo Deus num contrato. Você oferece oração, confiança, promessa… e Ele fica obrigado a entregar o resultado.
Pensei em Eduardo.
Nos documentos.
Nas cláusulas.
Na palavra obrigação.
Quase achei c***l que até ali aquela ideia me perseguisse.
— Mas a Bíblia fala de milagre.
— Fala.
— Então eu posso pedir?
— Pode.
Olhei para ele.
— Mesmo sabendo do diagnóstico?
— Uma coisa não impede a outra.
Ele apoiou os braços nos joelhos.
— Você pode pedir um milagre e continuar fazendo seu pré-natal. Pode rezar e ouvir os médicos. Pode acreditar que Deus pode fazer algo que você não compreende e, ao mesmo tempo, se preparar para um desfecho que você não quer.
Meus olhos encheram.
— Isso não é falta de fé?
— Preparar-se para sofrer não significa desejar o sofrimento. E reconhecer a realidade não significa desistir de Deus.
Fiquei quieta.
Era exatamente o conflito que eu não conseguia organizar dentro de mim.
Se eu comprasse uma roupa para o bebê, parecia que estava fingindo que ele viveria.
Se eu pensasse em despedida, parecia que estava desistindo antes da hora.
Se pedisse milagre, temia estar negando a medicina.
Se aceitasse o que os médicos diziam, sentia como se estivesse fechando a última porta.
— Eu não quero passar a gravidez inteira esperando uma morte — falei.
Padre Vicente respirou devagar.
— Então não transforme cada dia numa sala de espera.
Olhei para ele.
— Seu filho está com você hoje?
Minha mão foi à barriga.
— Está.
— Então hoje existe uma gestação, existe vínculo, existem cuidados que você precisa receber. O amanhã vai exigir coisas de você quando chegar.
As lágrimas começaram.
— E se eu amar demais?
Ele demorou a responder.
— Amor não costuma obedecer medida de segurança.
Ri chorando.
— Ótimo.
— Eu não disse que era confortável.
Passei a mão no rosto.
— Minha filha já está se apegando. Ela queria ser irmã.
— Quantos anos?
— Sete.
— E você?
— Eu o quê?
— Está se apegando?
A pergunta foi gentil.
Talvez por isso tenha doído tanto.
— Sim.
Foi a primeira vez que admiti sem acrescentar explicação.
Sem dizer que o bebê não era geneticamente meu.
Sem lembrar que Priscila era a mãe.
Sem tentar corrigir a frase.
Só:
— Sim.
Padre Vicente assentiu como se eu tivesse dito algo permitido.
— Isso te assusta.
— Muito.
— Porque você pode perdê-lo?
Balancei a cabeça.
— E porque, mesmo que ele nasça e fique vivo por algum tempo, ele não vai ser meu filho para levar pra casa.
Minha voz falhou.
— Eu não sei qual luto me espera.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Talvez você não precise escolher o luto antes de chegar a ele.
Olhei para a frente.
— Fé não é saber como termina, Lorena.
— Então é o quê?
Ele sorriu de leve.
— Se eu conseguir colocar em uma frase perfeita, desconfie de mim.
Ri pelo nariz.
— Mas posso te dizer o que eu acredito: fé não é garantia. Não é troca. Não é um jeito de obrigar Deus a concordar com a gente.
Fez uma pausa.
— Às vezes é continuar falando mesmo quando você não sabe se vai gostar da resposta.
A frase me levou imediatamente a Arcanjo.
Deus e eu não se fala.
Talvez porque, para ele, a resposta tivesse doído demais.
Eu não sabia o que tinha acontecido.
E não era meu direito arrancar aquilo dele.
Voltei os olhos para a cruz.
— Posso rezar aqui?
— Claro.
Padre Vicente começou a levantar.
Segurei de leve o braço dele.
— Padre.
— Sim?
— Se eu pedir um milagre, o senhor vai achar que estou negando a ciência?
— Não.
— E se eu começar a me preparar para perder o bebê, Deus vai achar que eu não confiei?
Ele me encarou com uma ternura que não tinha pena.
— Eu não falo por Deus nesse nível de certeza. Mas não acredito que Ele precise que você minta sobre o seu medo para provar fé.
Soltei o braço dele.
— Obrigada.
Ele se afastou.
Fiquei sozinha outra vez.
Dessa vez, não tentei encontrar uma oração bonita.
Coloquei as duas mãos sobre a barriga.
— Eu quero que ele viva.
Minha voz tremeu.
— Quero muito.
Respirei.
— Mas, se eu tiver que passar por outra coisa…
Parei.
Chorei.
Demorei para conseguir terminar.
— …não deixa eu passar sozinha.
Não pedi que o diagnóstico desaparecesse.
Também não aceitei a perda como se ela já tivesse acontecido.
Pela primeira vez, consegui deixar as duas coisas existirem dentro de mim sem obrigar uma a matar a outra.
Esperança.
Medo.
Quando saí da igreja, o mundo continuava igual.
Nenhuma voz do céu.
Nenhum sinal.
Nenhum exame diferente.
Mas eu também não tinha entrado ali para conseguir prova.
Padre Vicente estava certo sobre uma coisa:
fé não era contrato.
E talvez, pela primeira vez desde o diagnóstico, eu conseguisse desejar um milagre sem transformar esse desejo numa promessa de que ele aconteceria.