6. Lorena

2000 Words
Lorena Essa frase ficou comigo durante todo o caminho até a Clínica da Família. Eu repetia na cabeça enquanto dirigia, estacionava, pegava minha bolsa, e quando tentava ajeitar o rosto no espelho do carro para parecer minimamente normal. Não adiantou. Mirela percebeu antes mesmo de eu passar da recepção. Ela vinha pelo corredor com uma prancheta na mão e aquele passo apressado de quem já tinha resolvido quinze problemas antes das dez da manhã. Parou quando me viu. — Ih. — O quê? — Essa cara. — Que cara? — A cara de quem passou a noite apanhando da própria cabeça. Soltei o ar. — Bom dia pra você também. Ela não riu. Mirela me conhecia o suficiente para saber quando eu usava ironia porque estava prestes a desmontar. — Vem cá. — Eu preciso trabalhar. — Você precisa sentar cinco minutos. — Mirela… — Cinco. Apontou para uma salinha vazia. — Ou eu começo a falar aqui no corredor. Olhei ao redor. — Você é insuportável. — Sou enfermeira. Está na descrição do cargo. Dessa vez eu ri. Pouco. Mas ri. Entrei. Ela fechou a porta. — Agora fala. Sentei. A bolsa ficou no meu colo. — Eu fui atrás de atendimento jurídico. — E? — Consegui um protocolo. Mirela esperou. — E? — Uma data. — E? Olhei para ela. — Distante. — Quanto? Contei. Ela soltou um palavrão baixo. — Mirela. — Ah, Lorena, pelo amor de Deus. Tem hora que palavrão é recurso terapêutico. Quase sorri de novo. Mas meu rosto desfez quando peguei o celular. — Eduardo continua mandando mensagem. O humor dela sumiu. — Me mostra. Abri a conversa. Ela leu. Não pegou o telefone da minha mão. Só acompanhou a tela enquanto eu passava. Você precisa cumprir o que assumiu. Os documentos existem por um motivo. Não transforma isso numa disputa jurídica. Mirela ergueu os olhos. — Você respondeu mais alguma coisa? — Não depois de ontem. — Ótimo. — Ótimo? — Até alguém que entenda disso olhar esses documentos, não assina nada. Não concorda com nada novo. Não vai para lugar nenhum para “conversar rapidinho” e não apaga mensagem nenhuma. — Foi praticamente o que me disseram no atendimento. — Então, pela primeira vez na vida, faz o que estão te orientando sem querer resolver tudo sozinha. Revirei os olhos. — Obrigada pelo carinho. — Disponha. Ela puxou uma cadeira e sentou na minha frente. — E a Bia? Meu peito apertou de outro jeito. — Está bem. Naquela manhã, eu a tinha deixado tentando escolher entre duas presilhas como se a decisão mais importante do mundo fosse qual combinava melhor com a roupa. Senti inveja. De uma forma bonita. Da simplicidade. — Ela percebeu alguma coisa? — Mirela perguntou. — Bia percebe até quando eu troco o sabonete do banheiro. Claro que percebeu. — E você falou o quê? — Que a mamãe está com um problema de adulto para resolver. Mirela assentiu. — Está certo. Meu telefone vibrou. Olhei. Tainá. Busco a Bia mais tarde. Não inventa desculpa. Mostrei para Mirela. — Pelo menos você tem gente te cercando. — Cercando é a palavra. — E ainda reclama. Tainá já tinha se oferecido para ficar com Bia depois do horário. Eu recusei três vezes. Ela ignorou as três. Segundo ela, eu precisava resolver uma coisa de cada vez. Era curioso. Todo mundo tinha opinião sobre o que eu precisava fazer. A diferença era que Tainá e Mirela não tentavam escolher o que eu faria com a gravidez. Só estavam tentando garantir que eu não desabasse enquanto escolhia. — Você vai fazer o quê depois daqui? — Mirela perguntou. — Não sei. — Vai procurar Dona Neide. Franzi a testa. — Dona Neide da Associação? — Ela mesma. — Pra quê? — Porque aquela mulher conhece metade do Rio e a outra metade deve favor para ela. — Mirela… — Estou falando sério. — Eu preciso de advogado, não de vereador. — E quem falou em vereador? Dona Neide vive ajudando morador com documento, encaminhamento, benefício, audiência, essas coisas. Se ela não souber quem procurar, vai saber quem sabe. Pensei. Não parecia absurdo. Naquele momento, qualquer caminho que não terminasse em uma data distante demais já parecia melhor. — Vou depois do expediente. — Não. — Como assim, não? — Você está péssima. — Obrigada novamente. — Lorena, você quase colocou a ficha de um paciente na bandeja de medicação quando chegou. Fechei os olhos. Tinha colocado mesmo. — Vai agora. Eu seguro aqui e converso com a coordenação. — Mirela… — Vai. ⸻ A Associação de Moradores ficava numa parte do Morro da Aurora onde a rua começava a estreitar antes de virar viela. Eu conhecia o lugar. Quem trabalhava atendendo aquele território acabava conhecendo. Campanha de vacinação. Reunião de saúde. Ação com idosos. Orientação para gestante. Dona Neide estava sempre no meio. Quando entrei, ela discutia com um homem sobre uma infiltração. — Se continuar esperando, vai cair na cabeça de alguém. Aí todo mundo aparece dizendo que não sabia. Ela me viu. — Lorena? — Oi, Dona Neide. Apontou para uma cadeira. — Senta aí, minha filha. Virou para o homem. — Depois você volta. E traz foto. Não vem me contar história sem foto porque eu não sou vidente. Ele saiu resmungando. Ela sentou do outro lado da mesa. — E essa barriga? A pergunta veio acompanhada de um sorriso. O meu não veio. Ela percebeu. — Ih. Todo mundo estava dizendo “ih” quando olhava para mim. Talvez minha situação já estivesse estampada na testa. — Aconteceu uma coisa. Contei. Mais uma vez. Eu começava a odiar contar aquela história. A cada repetição, ela ficava menos parecida com minha vida e mais parecida com um caso. Gestação por substituição. Diagnóstico. Anencefalia. Interrupção. Documentos. Pressão. Dona Neide não me interrompeu. Quando terminei, pediu: — Deixa eu ver as mensagens. Entreguei o celular. Ela colocou os óculos. Leu uma. Depois outra. Voltou algumas. Seu rosto mudou. — Esse Eduardo sabe onde você mora? A pergunta me pegou desprevenida. — Sabe. Ela abaixou o telefone. — Como sabe? — Dona Neide, ele é marido da minha prima. Claro que sabe. — E tem chave? — Não. — Costuma aparecer sem avisar? — Não. — Já te ameaçou? — Não. — Tem certeza? — Tenho. Ela devolveu o celular. — Por que está me perguntando isso? — Porque uma coisa é parente desesperado falando besteira. Outra coisa é homem começando a achar que assinatura em papel dá direito sobre o corpo dos outros. Fiquei quieta. Ela apontou para o telefone. — Guarda tudo. — Já me orientaram. — Então guarda duas vezes. — Como se guarda duas vezes? — Não sei. Faz print, manda pro seu e-mail, joga na nuvem, imprime, escreve na testa. Só não perde. Ri pelo nariz. Ela pegou o próprio celular. — Vou ligar para uma pessoa. Meu coração acelerou. — Advogado? Dona Neide me olhou por cima dos óculos. — Calma. — É advogado? — Lorena. — Tá bom. Ela procurou um contato. Levantou da cadeira e foi para o canto da sala. Falou baixo. Não consegui ouvir tudo. Só pedaços. — Preciso de uma orientação. Pausa. — Não. É uma menina que trabalha na Clínica. Outra pausa. — Grávida. Depois: — Complicado. Ela olhou na minha direção. Virei o rosto imediatamente, fingindo interesse num cartaz sobre coleta de lixo. A ligação terminou. — E aí? — E aí o quê? — Dona Neide! Ela riu. — Espera. — Eu passei a manhã inteira esperando! — Então já está treinada. — A senhora está se divertindo com a minha desgraça? — Se eu não rir de alguma coisa aqui, minha filha, eu morro antes do almoço. Não tive argumento. Ela me ofereceu água. Aceitei. Fiquei ali quase vinte minutos. Gente entrando. Gente saindo. Uma senhora querendo informação sobre remédio. Um rapaz reclamando de um poste. Uma mãe perguntando sobre vaga em creche. A Associação parecia um lugar onde todos os problemas que não cabiam em outro lugar vinham parar. Talvez por isso eu estivesse ali. Meu celular vibrou. Tainá. Bia já está comigo. Comeu. Para de se preocupar com ela por cinco minutos e resolve sua vida. Sorri. Respondi um coração. Quando levantei os olhos, um homem entrou. Alto. Negro. Camiseta escura. Boné. Nada nele parecia extraordinário até perceber que Dona Neide imediatamente parou o que estava fazendo. — Léo. — Dona Neide. Ele cumprimentou primeiro ela. Depois olhou para mim. Não foi um olhar invasivo. Foi rápido. De reconhecimento. Como quem já sabia quem estava procurando. Meu estômago embrulhou. — É ela? — perguntou. Dona Neide assentiu. — Lorena. Ele estendeu a mão. — Léo. Apertei. — Oi. Esperei. Ele não tinha pasta. Não tinha terno. Não tinha absolutamente nada que lembrasse o advogado que eu esperava. Olhei para Dona Neide. — Ele é… — Não — ela respondeu antes que eu terminasse. — Não o quê? — Não é advogado. Fechei os olhos. — Dona Neide, eu vim aqui porque preciso de um advogado. — Eu sei. Léo colocou as mãos nos bolsos. — O advogado vem depois. Olhei para ele. — Como assim? — Primeiro ele quer entender o que está acontecendo. — Ele quem? Dona Neide retirou os óculos. E foi aí que alguma coisa no ambiente mudou. Não dramaticamente. Ninguém ficou em silêncio. Nenhuma música imaginária começou a tocar. Mas eu conhecia aquele nome. Quem trabalhava no território conhecia. Todo mundo conhecia. Mesmo quem fingia que não. — Caio Ribeiro — Dona Neide respondeu. Meu estômago apertou. — Caio… Léo completou: — Arcanjo. Fiquei olhando para os dois. — Não. Dona Neide franziu a testa. — Não o quê? — Eu vim procurar advogado. — E vai encontrar. — Por que o Arcanjo está no meio disso? Léo respondeu com uma tranquilidade que me irritou. — Porque Dona Neide pediu ajuda. Olhei para ela. — Eu pedi indicação! — E eu pedi ajuda pra conseguir a indicação. — Isso é completamente diferente. Ela deu de ombros. — Às vezes o caminho faz uma curva. — Eu não quero curva. — Então você escolheu o morro errado pra procurar caminho reto. Respirei fundo. — Eu não vou envolver esse homem na minha vida. Léo quase sorriu. — Ele também não pediu pra se envolver. — Ótimo. Então resolvido. Peguei minha bolsa. — Espera — Dona Neide disse. — Eu agradeço. De verdade. Mas eu já tenho problema demais. Léo continuou no mesmo lugar. — Ele só quer conversar. — E eu não quero. — Tudo bem. Parei. Esperava insistência. Não veio. Ele tirou o celular do bolso. Olhou a tela. Depois para mim. — Eu só vim trazer o recado. — Qual? Léo guardou o telefone. — Arcanjo mandou subir. Meu coração bateu errado. Olhei para Dona Neide. Ela não parecia assustada. Isso deveria ter me tranquilizado. Não tranquilizou. Voltei os olhos para Léo. — E se eu não subir? Dessa vez, ele sorriu de verdade. Pequeno. Quase respeitoso. — Aí eu volto e digo que você não quis. Fiquei parada. Aquilo não combinava com nenhuma das histórias que eu já tinha ouvido sobre Caio Ribeiro. Talvez justamente por isso eu tenha ficado ainda mais desconfiada. Apertei a alça da bolsa. — E o que exatamente ele quer comigo? Léo abriu a porta da Associação. — Isso você vai ter que perguntar pra ele. Olhei para a rua. Depois para Dona Neide. Depois para a barriga. Eu tinha saído de casa procurando alguém que entendesse de leis. Tinha terminado numa Associação de Moradores, diante do braço direito do homem cujo nome circulava pelo Morro da Aurora sempre em voz um pouco mais baixa. Minha vida definitivamente tinha perdido qualquer compromisso com o normal. Respirei fundo. — Onde? Léo apontou para cima. E eu soube, antes mesmo de dar o primeiro passo, que talvez o problema não fosse subir. Era descobrir quem estaria me esperando quando eu chegasse lá.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD