Lorena
Do outro lado da linha, Priscila ficou muda.
Por alguns segundos, ouvi apenas a respiração dela.
— Como assim, errado?
Encostei as costas na parede do banheiro e fechei os olhos.
Eu tinha ensaiado aquela ligação umas dez vezes dentro da minha cabeça antes de apertar o nome dela na tela.
Nenhum ensaio serviu.
— O médico encontrou uma alteração no ultrassom.
— Que alteração?
Minha garganta travou.
Dizer a palavra pela segunda vez parecia torná-la mais real.
— Ele falou em suspeita de anencefalia.
Silêncio.
De novo.
Só que o silêncio de Priscila era diferente do silêncio do médico.
O dele tinha sido cautela.
O dela parecia queda.
— Não.
Ouvi um ruído do outro lado.
Alguma coisa caindo.
Talvez uma chave.
Talvez o celular quase escapando da mão.
— Pri…
— Não, Lorena. Você deve ter entendido errado.
Abri os olhos.
— Eu não entendi errado.
— Mas estava tudo bem.
— Eu sei.
— Os outros exames estavam bons.
— Eu sei.
— Então não faz sentido.
A voz dela começou a subir.
Não de raiva.
De desespero.
— Eu sei.
Era a única coisa que eu conseguia responder.
Porque tudo o que ela dizia eu já tinha repetido para mim mesma.
O coração estava batendo.
As consultas anteriores não tinham apontado nada daquela dimensão.
Não havia um aviso escrito no céu dizendo que alguma coisa ia mudar naquele dia.
Mas tinha mudado.
— Ele confirmou? — Priscila perguntou.
— Não. Pediu uma avaliação com medicina fetal.
Ela puxou o ar.
— Então não confirmou.
— Não.
— Então a gente não vai se desesperar antes da hora.
A gente.
Naquele momento, a palavra não me incomodou.
Ainda não.
Talvez porque, desde o começo, tudo tivesse sido tratado assim.
A gente.
A família.
Nós três.
Mesmo que o meu papel naquela história fosse diferente do papel deles.
Muito diferente.
— Eu vou com você — ela disse.
— Não precisa.
— Claro que precisa.
— Pri…
— Eu vou.
Não discuti.
Talvez, no fundo, eu também não quisesse entrar naquela sala outra vez sozinha.
⸻
Quando Priscila chegou ao hospital, Eduardo estava com ela.
Foi a primeira coisa que percebi.
A segunda foi que nenhum dos dois veio me abraçar.
Não sei por que reparei nisso.
Talvez porque eu estivesse esperando.
Talvez porque uma parte i****a de mim ainda imaginasse que Priscila atravessaria o corredor correndo e me envolveria como fazia quando éramos mais novas.
Ela não fez.
Parou diante de mim.
Os olhos estavam inchados.
— Você está bem?
Quase ri.
Não por achar engraçado.
Pela pergunta.
— Estou.
Mentira.
Ela olhou para minha barriga.
Depois para o meu rosto.
— Ele mexeu?
Minha mão foi automaticamente para o lugar onde eu tinha sentido um movimento pouco antes.
— Mexeu.
Priscila fechou os olhos por um instante.
Eduardo permaneceu ao lado dela.
Sério.
Contido.
Desde o começo, ele sempre tinha sido assim.
Prático.
Talvez fosse a maneira dele de lidar com aquilo.
Ou com qualquer coisa que fugisse do controle.
— Conseguiram encaixe? — perguntou.
— Conseguiram.
Ele assentiu.
— Melhor confirmar logo.
Não respondi.
Chamaram meu nome poucos minutos depois.
Entramos os três.
A médica que nos recebeu já estava com o exame anterior aberto no computador.
Fez algumas perguntas.
Explicou que repetiria as imagens.
Depois pediu que eu me deitasse.
Outra vez o gel.
Outra vez a luz baixa.
Outra vez aquela tela.
Mas não era mais um exame comum.
Priscila ficou perto da minha cabeça.
Eduardo permaneceu alguns passos atrás.
A médica começou.
Eu não olhava para o rosto dela.
Aprendi rápido demais que observar o rosto de um médico durante um exame podia ser uma forma c***l de antecipar respostas.
Fixei os olhos no monitor.
O coração apareceu.
A pulsação.
Os movimentos.
A vida acontecendo diante de nós.
Senti os dedos de Priscila apertarem o encosto da cadeira.
Ela também estava vendo.
Talvez pensando a mesma coisa que eu.
Como alguma coisa podia parecer tão viva e, ao mesmo tempo, carregar uma possibilidade tão devastadora?
A médica fez medidas.
Mudou ângulos.
Registrou imagens.
Demorou.
Muito.
Quando terminou, limpou parte do gel e pediu que eu me sentasse.
Ninguém falou.
Ela virou o monitor na nossa direção.
— O exame de hoje reforça a suspeita levantada anteriormente.
Priscila soltou um som baixo.
Quase um gemido.
Eduardo se aproximou.
— Reforça ou confirma?
— Os achados são altamente compatíveis com anencefalia.
Meu peito apertou.
Altamente compatíveis.
Outra expressão técnica que parecia inventada para evitar uma palavra definitiva e, ainda assim, destruir qualquer esperança.
Priscila levou as duas mãos ao rosto.
A médica continuou explicando.
Eu ouvi.
Dessa vez, ouvi tudo.
Talvez porque meu corpo tivesse entrado em algum estado estranho de alerta.
Ela falou sobre a formação do tubo neural.
Sobre a ausência de estruturas cranianas.
Sobre prognóstico.
Sobre a inviabilidade de sobrevivência prolongada após o nascimento.
Cada frase parecia afastar o ar da sala.
Priscila chorava em silêncio.
Eduardo fez perguntas.
Muitas.
Objetivas.
Diretas.
Eu permaneci sentada.
Com a mão sobre a barriga.
Foi só quando a médica perguntou sobre nosso vínculo que percebi que aquela conversa ainda tinha outra camada.
— A senhora é o que da gestante?
— Prima — Priscila respondeu.
A voz dela saiu fraca.
Depois apontou para si mesma e para Eduardo.
— Nós somos os pais.
A médica olhou para mim.
Foi um olhar rápido.
Profissional.
Mas eu sabia o que viria.
— É uma gestação por substituição?
Assenti.
— Sim.
Priscila limpou o rosto.
Aquela era a explicação que transformava uma situação difícil em alguma coisa ainda mais complicada.
O bebê crescendo dentro de mim não tinha sido gerado com meus óvulos.
Não havia meu material genético ali.
O embrião era deles.
De Priscila e Eduardo.
Eu tinha concordado em gestar.
Ceder temporariamente meu útero.
Ajudar minha prima a realizar um sonho que o próprio corpo dela não conseguia sustentar.
Foi assim que começamos a falar sobre aquilo.
Como ajuda.
Como amor.
Como família.
Parecia simples quando ainda era apenas uma conversa em uma mesa.
Depois vieram os exames.
Os médicos.
Os procedimentos.
As assinaturas.
O embrião.
O teste positivo.
Os enjoos.
O medo.
A primeira vez que ouvi o coração.
Os primeiros movimentos.
E em algum ponto entre uma coisa e outra, aquilo deixou de ser apenas uma decisão que eu tinha tomado por alguém.
Passou a acontecer dentro de mim.
Literalmente.
A médica olhou para nós três antes de continuar.
— Nesse tipo de situação, algumas questões precisam ser discutidas com bastante cuidado, inclusive as decisões referentes à continuidade da gestação.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Priscila levantou o rosto.
— Continuidade?
— Diante do diagnóstico, vocês receberão orientação completa sobre as possibilidades médicas e legais aplicáveis ao caso.
Eduardo se mexeu atrás dela.
— Existe possibilidade de interrupção?
A pergunta saiu rápida.
Rápida demais.
Olhei para ele.
A médica respondeu com cautela.
— Existe previsão para situações como essa, mas qualquer decisão precisa respeitar o procedimento adequado e, principalmente, ser discutida com a paciente.
A paciente.
Eu.
Eduardo assentiu.
Priscila não falou nada.
A médica continuou explicando que ainda seriam necessários relatórios, avaliação e acompanhamento.
Quando saímos da sala, senti que minhas pernas não pertenciam mais a mim.
Caminhamos até um canto mais vazio do corredor.
Priscila chorava.
Eduardo colocou a mão no ombro dela.
Eu fiquei na frente dos dois.
Sem saber o que fazer com as minhas próprias mãos.
— Pri…
Ela me olhou.
— Não era esse o combinado.
A frase me atravessou.
— Eu sei.
— Não era para ser assim.
— Eu sei.
— A gente fez tudo certo.
Comecei a sentir vontade de chorar outra vez.
— Fez.
Ela olhou para a minha barriga.
E foi naquele instante que percebi algo no olhar dela.
Medo.
Mas não apenas medo.
Havia uma distância ali.
Como se o diagnóstico tivesse criado uma fronteira entre o bebê que ela esperava e aquele que agora existia.
Eduardo passou a mão pelo rosto.
— A gente precisa pensar racionalmente.
Priscila assentiu devagar.
Olhei para ele.
— Eduardo…
— O médico foi claro, Lorena.
— A médica.
Ele respirou fundo.
— Ela foi clara.
Eu não respondi.
— Se o diagnóstico está confirmado…
— Ela disse altamente compatível.
— Você entendeu o que ela explicou.
Entendi.
Essa era a pior parte.
Eu tinha entendido tudo.
Priscila enxugou as lágrimas.
— Eduardo tem razão.
Olhei para ela.
— Razão sobre o quê?
Ela demorou alguns segundos.
— Sobre a gente precisar pensar no que vai fazer agora.
Minha mão voltou para a barriga.
Um movimento pequeno aconteceu debaixo da minha palma.
Tão discreto que ninguém percebeu.
Ninguém além de mim.
Priscila continuou:
— Se não existe possibilidade…
Ela parou.
Respirou.
— Se ele não vai sobreviver…
Meu coração apertou quando ela disse ele.
Até aquele momento, nenhum de nós sabia o sexo.
Talvez tivesse escapado.
Talvez não significasse nada.
Mas, por algum motivo, significou para mim.
— A gente não pode prolongar isso — ela terminou.
Eduardo permaneceu em silêncio.
Priscila se aproximou um pouco.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Eu não quero ver você sofrendo. Não quero passar meses esperando um bebê que…
Ela não conseguiu terminar.
Eu também não queria que terminasse.
— Pri…
Ela segurou minha mão.
Foi o primeiro toque desde que tinha chegado.
Apertei os dedos dela.
Por um instante, vi minha prima de novo.
A mulher que chorou comigo quando descobriu que não conseguiria levar uma gravidez adiante.
A mulher que me perguntou, meses depois, se eu seria capaz de fazer aquilo por ela.
A mulher para quem eu tinha dito sim.
Porque era minha família.
Porque eu a amava.
Porque, naquela época, parecia que amor bastaria para resolver qualquer coisa.
Priscila apertou minha mão.
— Vamos fazer o que precisa ser feito.
Franzi a testa.
Ela respirou fundo.
E então disse:
— A gente vai interromper a gestação.