Lorena
Voltei da igreja sem resposta.
Talvez fosse injusto esperar uma depois de passar anos entrando em igreja só em casamento, batizado ou quando alguém morria, mas a verdade era essa: eu tinha sentado no último banco, falado meia dúzia de palavras para Deus e voltado para casa carregando exatamente o mesmo diagnóstico.
Ainda assim, alguma coisa estava diferente.
Não melhor.
Mais silenciosa.
Como se, por algumas horas, eu tivesse parado de lutar contra todas as perguntas ao mesmo tempo.
Durou até Bia chegar da escola.
— Mãe!
A porta abriu antes que eu respondesse.
Tainá entrou atrás dela carregando a mochila rosa em um ombro e uma sacola do mercado no outro.
— Sua filha tentou me convencer de que biscoito recheado é lanche saudável porque tem morango desenhado na embalagem.
Bia arrancou a mochila da mão dela.
— Tem morango.
— Desenhado.
— Continua sendo morango.
— Isso explica muita coisa sobre a alimentação infantil.
Sorri.
Era bom ouvir uma discussão sobre biscoito.
Normal.
Bia deixou a mochila no sofá e veio me abraçar.
— Você foi no médico?
A pergunta apareceu no meio da rotina com uma naturalidade que ainda me surpreendia.
— Fui.
— O bebê está bem?
Tainá me olhou imediatamente.
Essa era a parte difícil.
Para uma criança de sete anos, “bem” e “m*l” eram lugares muito claros. O bebê se mexia. O coração batia. Minha barriga crescia.
Como explicar que aquilo podia acontecer e, ainda assim, o diagnóstico continuar grave?
— O coração dele está batendo e ele continua aqui comigo.
Bia pareceu satisfeita por alguns segundos.
— Então tá bem.
Não corrigi naquele momento.
Não queria transformar toda conversa da minha filha numa aula sobre morte.
Ela abriu a mochila.
— Olha o que a tia Yasmin mandou.
Tirou uma folha já meio amassada.
No topo havia um desenho de uma árvore.
MINHA FAMÍLIA
Embaixo, vários espaços para nomes, fotos ou desenhos.
— É pra fazer hoje. A professora disse que família não precisa ser toda igual.
Peguei a folha.
— Ela disse isso?
— Disse. Porque o Pedro mora com a avó, a Júlia tem duas casas e o pai do Biel mora com ele e com o avô.
Tainá se jogou no sofá.
— Gostei dessa professora.
— Ela é bonita — Bia informou.
— Isso é requisito pedagógico agora?
— Não. Mas ela é.
Ri.
Bia continuou enquanto procurava o estojo:
— O Biel esqueceu o caderno de novo, aí dei uma folha pra ele. A professora falou que ele esquece as coisas, mas não é porque não liga.
Aquilo chamou minha atenção.
— Ela falou assim?
— Mais ou menos.
— Então não inventa fala da professora — Tainá avisou.
— Eu tô explicando!
Bia bufou.
— A Mia ficou lá no recreio também.
— Quem é Mia?
— Filha da tia Yasmin. Ela tem seis anos. A mãe dela tinha que esperar uma reunião e ela ficou um pouquinho com a gente.
A vida de Bia estava crescendo enquanto eu passava dias olhando para exames.
Amigos.
Professora.
Brigas por lápis.
Eu precisava lembrar disso.
Sentei à mesa com ela.
— Vamos fazer a árvore?
— Vamos.
Bia começou por nós duas.
Desenhou meu cabelo grande demais, os próprios cachos e dois olhos azuis enormes nos nossos rostos.
— Ficou bonito.
— Seus olhos ficaram parecendo duas piscinas.
— São assim.
Tainá apareceu atrás dela.
— A humildade veio forte nessa família.
Bia riu.
Depois desenhou Tainá numa lateral.
— Ei! Eu entro?
— Você é família.
Tainá parou.
A brincadeira sumiu por um instante.
— Claro que entro.
Ela beijou o alto da cabeça de Bia.
Minha filha voltou para a folha.
Fiquei olhando.
Aquilo era tão simples para ela.
Família era quem estava.
Talvez adulto complicasse demais as coisas.
Até Bia apontar para um espaço vazio no desenho.
— E o bebê?
Meu corpo enrijeceu.
— O que tem?
— Onde eu coloco ele?
Tainá parou atrás de mim.
— Você pode desenhar aqui — sugeri.
Bia segurou o lápis.
Não desenhou.
— Mas ele fica na nossa família ou na família da tia Priscila?
A pergunta veio sem maldade.
Mesmo assim, atravessou.
— Na família da tia Priscila.
— Mas ele está na sua barriga.
— Está.
Ela franziu a testa.
— Então ele fica nas duas?
Respirei fundo.
Tainá puxou uma cadeira, mas permaneceu quieta.
— É um pouco mais complicado, filha.
— Por quê?
Eu sabia que aquele momento chegaria.
Só não esperava que fosse numa atividade escolar com lápis de cor espalhado pela mesa.
— Você lembra que eu expliquei que estou ajudando a tia Priscila a ter um bebê?
— Lembro.
— Então. O bebê foi formado com uma sementinha da tia Priscila e uma do tio Eduardo.
Bia olhou para minha barriga.
— Nenhuma sua?
— Nenhuma minha.
Ela demorou.
— Então você não é a mãe dele?
Minha garganta fechou.
— A mãe dele é a tia Priscila.
Dizer aquilo era correto.
Eu sabia.
Mas alguma coisa dentro de mim reagiu.
Talvez meu corpo tivesse uma linguagem que a genética não conhecia.
Bia baixou o lápis.
— Mas quem dá comida pra ele é você.
— Meu corpo alimenta ele enquanto ele está aqui.
— E ele escuta você.
— Escuta sons daqui de dentro.
— Seu coração também?
Olhei para Tainá.
Pela primeira vez desde que eu a conhecia, ela não tinha expressão de quem estava prestes a responder alguma coisa.
Só esperava.
— Provavelmente ele escuta muitos sons do meu corpo — respondi.
Bia ficou alguns segundos pensando.
Depois fez a pergunta.
— Então como o bebê sabe quem é a mãe dele se ele escuta seu coração todo dia?
Não respondi.
Porque eu não sabia.
E não era uma dúvida médica.
Não era jurídica.
Não era uma questão sobre quem forneceu o óvulo, quem assinou o termo ou quem seria registrado como mãe.
Era uma pergunta de uma menina de sete anos tentando entender vínculo.
Tainá se mexeu na cadeira.
— Bia…
Minha filha olhou para ela.
— O quê?
Tainá abriu a boca.
Fechou.
Eu quase teria achado graça se não doesse tanto.
A mulher que sempre tinha uma resposta acabara de perder todas.
— Às vezes — comecei — o bebê pode conhecer pessoas de jeitos diferentes.
Bia voltou os olhos para mim.
— Como?
Procurei uma forma de dizer sem confundi-la mais.
— A tia Priscila é a mãe que quis muito que ele existisse. Foi dela e do tio Eduardo que veio o embrião. Eu sou a pessoa que está cuidando dele aqui dentro até ele nascer.
— Tipo uma casa?
A palavra me atingiu.
Tainá fez uma careta.
— Acho que sua mãe é um pouquinho mais importante que um apartamento.
Bia riu.
Eu também, apesar do nó.
— Meu corpo é a casa dele por enquanto.
Ela pareceu aceitar.
Por dois segundos.
— E quando ele sair?
Olhei para o desenho.
Para a árvore.
Para aquele espaço que ela ainda não tinha preenchido.
— Quando ele nascer, ele vai com a tia Priscila.
Bia abaixou os olhos.
— E a gente não vai ver ele mais?
— Vamos poder ver. Ela é minha prima. Ele vai continuar sendo da nossa família também.
— Então eu vou ser o quê?
Essa era mais fácil.
— Prima.
Ela fez cara de indignação.
— Só prima?
— O que você queria ser?
— Irmã.
A resposta veio tão rápido que meu peito apertou.
— Bia…
— Ele fica aqui dentro de casa comigo.
— Dentro da minha barriga.
— Mas mora aqui.
Tainá colocou a mão na boca.
Eu respirei devagar.
— Eu sei que pode parecer confuso.
— É confuso.
Nisso ela tinha razão.
Bia pegou o lápis novamente.
No espaço vazio da árvore, desenhou uma bolinha dentro de uma barriga enorme.
Depois puxou duas linhas.
Uma vinha até mim.
A outra ia para um desenho que ela disse ser Priscila.
— Pronto.
— O que você fez?
Ela deu de ombros.
— Coloquei nas duas.
Tainá olhou para mim.
Eu não consegui dizer que estava errado.
Talvez porque não estivesse.
Talvez família não precisasse funcionar como aquela atividade escolar imaginava, com uma linha para cada pessoa e um lugar exato para cada vínculo.
Bia continuou pintando como se tivesse resolvido o maior problema do mundo.
Eu fiquei olhando para o desenho.
Um bebê ligado a duas mulheres.
Uma pela genética e pelo desejo de ser mãe.
Outra pelo corpo, pelos batimentos, pela voz e pelo tempo.
E pela primeira vez percebi que a pergunta que eu vinha tentando evitar não era apenas até onde ia o direito sobre aquela gestação.
Era o que sobraria dentro de mim quando ela terminasse.