11. Lorena

1917 Words
Não de uma decisão. De entender. Saí de casa com essa frase presa na cabeça e a pasta no banco do passageiro, grossa demais para uma história que tinha começado com uma coisa tão simples: Eu queria ajudar minha prima a ser mãe. Só isso. Agora tinha laudo. Contrato. Consentimento. Print de conversa. Documento de clínica. Advogado. E uma pergunta que ninguém conseguia responder por mim. O trânsito estava r**m. Melhor. Me obrigava a dirigir devagar. A não pensar rápido demais. Quando parei no sinal, meu celular acendeu no suporte. Mensagem de Eduardo. Precisamos saber qual foi sua decisão. Não abri. Dois segundos depois, outra. Isso não pode ficar indefinido. Soltei o ar pelo nariz. Era impressionante como ele conseguia transformar meu corpo em prazo. O sinal abriu. Segui. O escritório de Bernardo ficava fora do morro, numa rua movimentada, dentro de um prédio que parecia querer avisar antes mesmo da recepção que ali tudo tinha hora marcada, ar-condicionado e café em cápsula. Estacionei. Peguei a pasta. Antes de sair, o telefone vibrou outra vez. Pensei que fosse Eduardo. Era Arcanjo. Chegou? Fiquei olhando para a mensagem. Não gostei da primeira reação que tive. Uma espécie de alívio. Talvez porque, naquele momento, ele fosse uma das poucas pessoas que não estava perguntando qual decisão eu tinha tomado. Respondi: Acabei de chegar. Ele visualizou. Tá. Só isso. Sem “me avisa”. Sem “qualquer coisa eu resolvo”. Sem insistência. Guardei o celular. Talvez estivesse aprendendo mesmo. Entrei. ⸻ Bernardo não parecia o que eu tinha imaginado. Não sei exatamente o que eu esperava. Talvez um homem mais velho, cheio de termos difíceis, falando sem me olhar enquanto folheava papéis. Ele devia ter pouco menos de quarenta. Camisa social clara. Mangas dobradas. Sem gravata. Levantou quando entrei. — Lorena? — Sim. — Bernardo. Apertou minha mão. — Pode sentar. Coloquei a pasta sobre a mesa. Ele olhou para o volume. — Trouxe tudo? — Acho que até coisa que você não vai precisar. — Melhor sobrar do que faltar. Sentei. Bernardo não abriu a pasta. Primeiro me olhou. — Samuel me contou o básico. Meu estômago apertou. — Quanto é o básico? — Que você está em uma gestação por substituição, que o bebê recebeu diagnóstico de anencefalia e que os pais biológicos defendem a interrupção enquanto você ainda não tomou uma decisão. Assenti. — E que existe documentação assinada antes do procedimento. — Existe. — Certo. Ele puxou um bloco de papel. — Antes de eu olhar qualquer documento, quero te fazer uma pergunta. Quase ri. Mais uma. — Pode falar. — O que você quer saber de mim hoje? Fiquei quieta. A pergunta parecia parecida com a de Arcanjo. Mas vinha de outro lugar. — Se eles podem me obrigar. Bernardo assentiu. — Obrigá-la a quê? — A interromper. A palavra saiu mais baixa. — Porque o bebê é biologicamente deles. Ele fez uma anotação. — Certo. Esperei. Ele não respondeu imediatamente. Aquilo me deixou nervosa. — É uma pergunta difícil? — Não quero te responder de forma irresponsável. — Todo advogado resolveu falar isso hoje? Ele sorriu. — É uma boa epidemia. Acabei sorrindo também. Bernardo puxou a pasta. — Posso? — Claro. Abriu. Começou pelos documentos da clínica. Leu algumas páginas em silêncio. Virou. Voltou. Pegou outro. Eu observava cada movimento como se a resposta fosse aparecer no jeito como ele franzia a testa. — Você assinou isso quando? — perguntou. Respondi. — E esse? — Antes da transferência. — Você teve orientação jurídica independente nessa época? — Não. Ele ergueu os olhos. — Nenhuma? — A clínica explicou o procedimento. Falaram sobre consentimento, responsabilidades, exames… — Mas advogado seu? — Não. Anotou. — Certo. Meu joelho balançava embaixo da mesa. — Bernardo. — Oi? — Você está me deixando nervosa. Ele largou a caneta. — Então vamos por partes. Finalmente. — Primeiro: o diagnóstico de anencefalia coloca a gestação numa situação jurídica específica em relação à possibilidade de interrupção. Assenti. — Isso eu já ouvi. — Mas possibilidade não é ordem. Fiquei imóvel. Bernardo continuou: — O fato de existir permissão para interromper não significa que alguém seja obrigado a interromper. A frase entrou devagar. — Então eles não podem simplesmente decidir? — Não estou dizendo que não existem questões jurídicas envolvendo a filiação, os documentos, as responsabilidades e o projeto parental. Existem. E são importantes. Ele apontou para minha barriga com cuidado, sem teatralidade. — Mas existe uma diferença entre discutir responsabilidades em torno dessa gestação e tratar uma intervenção médica no seu corpo como se pudesse ser determinada por terceiros apenas porque o material genético pertence a eles. Engoli em seco. — Então o documento não vale? — Eu não disse isso. A resposta veio firme. — Esses documentos valem e precisam ser analisados. Só que “valer” não significa que toda cláusula produza qualquer efeito em qualquer situação. Olhei para ele. — Traduz. Bernardo sorriu de leve. — Uma assinatura não transforma seu corpo em objeto de contrato. Meu peito apertou. Silêncio. — Mesmo o bebê não sendo geneticamente meu? — A questão genética não apaga o fato de que a gestação acontece no seu corpo. Passei a mão na barriga. Automaticamente. — Eduardo fala como se eu estivesse descumprindo uma obrigação. — Eu vi as mensagens que Samuel me encaminhou por alto. Quero ler todas com calma. — Ele disse que eu preciso cumprir o que assumi. — E eu preciso saber exatamente o que você assumiu. Ele puxou outro documento. — Não o que Eduardo diz que você assumiu. Aquilo me acertou. Forte. Porque, nos últimos dias, eu tinha começado a confundir as duas coisas. Documento. Interpretação de Eduardo. Medo. Tudo tinha virado a mesma coisa. Bernardo separou alguns papéis. — Também quero os termos da clínica em ordem cronológica. — Tenho tudo. — Laudos completos. — Aqui. — Mensagens com Priscila e Eduardo desde o diagnóstico. — Também. — E qualquer conversa anterior sobre o que seria feito caso aparecesse uma malformação grave. Parei. — Não lembro de ter existido. — Então não inventa memória. — Como assim? — Não tenta reconstruir hoje uma conversa só porque agora ela parece importante. Se lembrar, me conta. Se tiver escrito, melhor. Se não tiver, diz que não lembra. Assenti. Gostei daquilo. Era simples. Honesto. — Você acha que eles vão entrar na Justiça? Bernardo recostou na cadeira. — Podem. Meu estômago afundou. — E podem conseguir? — Lorena, eu não vou prometer resultado. Fechei os olhos. — Eu sabia. — Sei que é frustrante. — Muito. — Mas seria pior eu te dizer o que você quer ouvir. Abri os olhos. — Nem sei o que quero ouvir. — Então já temos um problema a menos. Soltei uma risada curta. Ele ficou sério novamente. — O que eu posso te dizer hoje é que a situação não pode ser reduzida a “o bebê é deles, então eles decidem” nem a “o corpo é seu, então todo o resto deixa de existir”. — Complicado. — Bastante. — Ótimo. — Direito de Família costuma ser r**m em oferecer frases bonitas. — E eu achando que advogado vivia de frase pronta. — Só no i********:. Ri. Precisava daquilo. De alguém que não transformasse minha vida num tribunal a cada frase. Bernardo fechou parte da pasta. — Você já decidiu se quer continuar a gestação? A pergunta veio. Aquela. Fiquei olhando para ele. Pensei no movimento que tinha sentido. Na mão de Bia sobre minha barriga. Na voz de Priscila. Nas mensagens de Eduardo. No laudo. Na palavra “incompatível”. — Não. Bernardo assentiu. Só isso. Não franziu a testa. Não tentou me convencer. — Isso é um problema? — perguntei. — Não. — Todo mundo parece achar que é. — Não saber ainda também é uma resposta. Minha garganta apertou. — Por quanto tempo? — Aí entram medicina, tempo gestacional, suas condições clínicas e as decisões que eventualmente precisem ser tomadas. Eu não vou fingir que o tempo não existe. Assenti. — Mas também não vou te dizer que você precisa escolher hoje porque outras pessoas estão desconfortáveis com a sua dúvida. Baixei os olhos. Aquilo doeu. Talvez porque fosse exatamente isso. Priscila sofria. Eduardo queria solução. E eu estava no meio. — E a Priscila? — perguntei. — Ela é a mãe. — É. — Isso não dá direito a ela de participar? — Participar é diferente de decidir sozinha. Olhei para ele. — E eu também não decido tudo sozinha? — É justamente isso que vamos precisar separar. Bernardo juntou as mãos sobre a mesa. — Existem camadas diferentes aqui. Uma é o procedimento médico no seu corpo. Outra é o projeto parental deles. Outra são os documentos assinados. Outra são as consequências da decisão que você tomar. Meu coração acelerou. — Consequências? — Jurídicas, familiares, práticas. Não estou usando a palavra como ameaça. Assenti lentamente. — Eu só quero saber onde eu estou pisando. — É para isso que eu sirvo. Pela primeira vez desde que tinha entrado, relaxei um pouco. — Você aceita o caso? Bernardo respirou. — Eu aceito analisar os documentos e te orientar. — Isso é um sim? — É um “vamos começar”. Quase sorri. A mesma frase da mensagem. — E os honorários? Ele puxou uma folha. — A gente conversa agora. Meu corpo ficou tenso de novo. Ele percebeu. — Algum problema? — Não. Mentira. Pensei em Arcanjo. Na mensagem oferecendo pagar. Na minha resposta. Bernardo passou os valores de forma direta. Não era barato. Também não era impossível. Fiz a conta mental. Ia apertar. Muito. — Dá pra parcelar? — Dá. Soltei o ar. — Então eu pago. Bernardo me olhou por um segundo a mais. — Caio me disse que, se você tivesse dificuldade… Levantei os olhos imediatamente. — Não. Ele parou. — Tudo bem. — Ele falou com você? — Samuel comentou que ele talvez quisesse ajudar. — Eu agradeço, mas não. — Certo. Nenhuma insistência. Assinei o contrato de honorários depois de ler. Página por página. Bernardo percebeu. — Pode ler com calma. — Estou aprendendo. — Continue. Quando terminei, guardei minha via. Levantei. — Então agora? — Agora eu leio tudo. — E eu? — Você vai pra casa. — Só isso? — Por enquanto. — E se Eduardo mandar mensagem? — Não apaga. Não entra em discussão jurídica por w******p. Se houver urgência ou ameaça, me avisa. Peguei a bolsa. — E minha decisão? Bernardo me olhou. — Essa parte continua sendo sua. Saí do escritório com a pasta mais leve. Não porque tivesse menos papel. Porque, pela primeira vez, eu conseguia separar algumas coisas. Permitir não era obrigar. Assinar não era entregar meu corpo. Ser mãe biológica não significava decidir tudo. Ser gestante também não significava apagar os outros. Nada era simples. Mas pelo menos começava a ter contorno. Quando entrei no elevador, meu celular vibrou. Eduardo. Abri. Espero que você finalmente tenha procurado orientação e entendido que não pode simplesmente mudar o que foi combinado. Fiquei olhando para a mensagem. Horas antes, aquilo teria me feito duvidar de tudo. Agora não. Não respondi. Guardei o celular. As portas do elevador se fecharam. E, pela primeira vez desde o diagnóstico, eu não senti que precisava decidir para calar alguém. Eu ainda não sabia o que faria. Mas finalmente começava a entender uma coisa: A pressa deles não podia virar a minha vontade.
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