4. Lorena

1570 Words
A mensagem continuava na tela quando cheguei em casa. Eu já tinha lido tantas vezes que podia repetir de olhos fechados. Mesmo assim, não respondi. Joguei a bolsa no sofá, tirei os sapatos no meio da sala e fiquei parada. Só parada. Minha casa parecia estranha. Não porque alguma coisa tivesse mudado ali. Mas porque eu tinha mudado entre a hora em que saí e a hora em que voltei. De manhã, meu maior medo era descobrir o que havia de errado com o bebê. Agora eu tinha dois. O diagnóstico. E Eduardo. Entrei no quarto e procurei a pasta onde guardava os documentos da fertilização. Estava na última gaveta. Azul. Organizada. Priscila tinha comprado para mim. “Pra gente não perder nada”, ela disse na época. Sorri quando lembrei. Outro a gente. Sentei na cama e espalhei tudo. Termos. Autorizações. Exames. Consentimentos. Declarações. Li página por página. Algumas eu lembrava. Outras pareciam completamente novas, mesmo com a minha assinatura no final. Era estranho olhar para aquele nome escrito tantas vezes. Lorena Freitas. Minha assinatura. Minha autorização. Meu corpo. Mas, em nenhum papel, consegui encontrar a resposta para a pergunta que realmente importava. Se aquele bebê era biologicamente de Priscila e Eduardo, até onde isso dava a eles poder sobre uma gravidez que acontecia dentro de mim? Peguei o celular. Havia quatro mensagens de Priscila. Nenhuma agressiva. Isso quase doeu mais. Chegou bem? Depois: Me responde pelo menos isso. Mais tarde: Não quero brigar com você. E a última: Estou destruída, Lorena. Fechei os olhos. Eu sabia. Sabia mesmo. Priscila estava perdendo um filho antes de sequer conseguir segurá-lo no colo. Mas eu também estava vivendo alguma coisa. E parecia errado precisar escolher qual dor merecia existir mais. Respondi apenas: Cheguei. Preciso ficar quieta hoje. Ela visualizou na mesma hora. Não respondeu. Eduardo também não mandou mais nada. Ainda. ⸻ No dia seguinte, voltei ao hospital para buscar o laudo e passar pela orientação indicada pela equipe. Dessa vez fui sozinha. Por escolha. Eu precisava ouvir sem Priscila chorando ao meu lado. Sem Eduardo fazendo perguntas. Sem ninguém terminando minhas frases. A médica colocou o exame sobre a mesa. Não tinha mais “suspeita”. Não tinha mais “altamente compatível”. A palavra estava lá. Anencefalia. Preto no branco. Passei os olhos pelo laudo e parei no diagnóstico. Era curioso como uma folha de papel conseguia fazer uma tragédia parecer tão organizada. Nome. Data. Idade gestacional. Achados. Conclusão. Como se a vida coubesse em campos preenchidos. — Lorena? Levantei os olhos. — Desculpa. — Não precisa se desculpar. A médica aproximou a cadeira. — Eu imagino que muita coisa tenha passado pela sua cabeça desde ontem. Quase sorri. Muita coisa era pouco. — Eu tenho uma pergunta. — Pode fazer. Demorei. Porque ainda parecia feio perguntar. Como se reconhecer aquele conflito me transformasse em alguma coisa r**m. — Os pais biológicos querem interromper. Ela permaneceu me olhando. — E você? Baixei os olhos. — Eu não sei. Foi a primeira vez que consegui dizer aquilo sem me defender. Não sei. A médica não tentou preencher meu silêncio. Esperei algum julgamento. Não veio. — Você não precisa decidir neste minuto. Minha garganta apertou. — Eles acham que eu preciso. — Eles estão vivendo um luto. — Eu sei. — Mas você também está. Aquilo me pegou. Olhei para ela. Eu não tinha pensado na palavra daquela forma. Luto. Parecia pertencer a Priscila. A Eduardo. Aos pais. Não a mim. Afinal, aquele não era meu filho. Era? Não. Biologicamente, não. Legalmente, o projeto de filiação não era meu. Eu sabia de tudo isso. Mas então por que eu sentia como se alguma coisa estivesse sendo arrancada de mim antes mesmo de qualquer decisão? — Se eles quiserem interromper e eu não quiser… o que acontece? A médica apoiou as mãos sobre a mesa. — Lorena, existem duas coisas diferentes aqui. Uma é a filiação. Outra é o procedimento médico que seria realizado em você. Fiquei em silêncio. — A anencefalia permite que a gestante opte pela antecipação do parto sem que isso seja tratado criminalmente como aborto. Mas permita é diferente de obrigue. Meu peito se apertou. — Então ninguém pode me obrigar? — Nenhum procedimento pode ser realizado sem o seu consentimento. Olhei para o laudo outra vez. Tão simples. Uma frase. Ninguém pode me obrigar. Por que eu precisava ouvir aquilo de uma médica para lembrar que meu corpo ainda era meu? — E se eu decidir continuar? — Nós vamos conversar sobre acompanhamento, riscos, cuidados e tudo que você precisar saber. O diagnóstico não retira de você o direito de escolher como atravessar essa gestação. Engoli em seco. — Mesmo o bebê sendo deles? Ela demorou um segundo antes de responder. — O material genético não muda quem está gestando. Minha mão foi para a barriga. Ele não mexeu. Mesmo assim, deixei a mão ali. — Eu não estou dizendo que quero continuar. — Eu sei. — Só não quero que decidam antes de mim. — Isso é diferente. Assenti. Muito. Era exatamente isso. Eu não tinha decidido levar a gestação até o fim. Não tinha decidido interromper. Eu não estava defendendo uma escolha. Estava defendendo o direito de chegar até ela. Sozinha. Consciente. Sem ameaça. Sem culpa. Sem alguém colocar um contrato na mesa e apontar para a minha assinatura. Saí da consulta com o laudo dentro da bolsa. No corredor, parei perto da janela. O celular vibrou. Priscila. Dessa vez, atendi. — Oi. — Você foi ao hospital? — Fui. — Sozinha? — Fui. Silêncio. — E? Olhei pela janela. — Confirmou. Ouvi o choro dela antes mesmo que tentasse esconder. Fechei os olhos. — Pri… — Eu sabia. Ela respirou fundo. — Eu sabia, mas ainda estava esperando alguém dizer que tinham errado. Meu peito doeu. — Eu também. Ficamos alguns segundos em silêncio. Dessa vez, não era um silêncio r**m. Era só tristeza. — Lorena… — Hum? — Você pensou? A paz acabou ali. — Pensei. — E? — Eu ainda não decidi. Ela soltou o ar. — Meu Deus… — Pri, por favor. — Quanto tempo você precisa? — Eu não sei. — Lorena, eu não consigo… A voz dela quebrou. — Eu não consigo acordar todo dia sabendo que meu filho está crescendo para morrer. Fechei os olhos. A frase me atingiu em cheio. Eu queria abraçá-la. Queria dizer que faria qualquer coisa para parar aquela dor. Mas foi exatamente assim que tudo tinha começado. Eu faria qualquer coisa por você. Até emprestar meu corpo. Talvez esse tivesse sido o problema. Em algum momento, “qualquer coisa” tinha deixado de ter limite. — Eu sinto muito — falei. — Então me ajuda. As lágrimas desceram. — Eu estou tentando. — Não parece. A ligação terminou pouco depois. Sem gritos. Sem despedida. Só duas pessoas que se amavam e, naquele momento, não sabiam mais como ficar do mesmo lado. Guardei o celular. Ele vibrou quase imediatamente. Eduardo. Não era ligação. Mensagem. Priscila me contou que você ainda não decidiu. Não respondi. Outra chegou. Precisamos resolver isso. Depois: Não é justo prolongar o sofrimento dela. Apertei o telefone com força. Comecei a digitar. Apaguei. Digitei outra vez. Eu também estou passando por isso. Ele demorou pouco. Ninguém está dizendo que não. Esperei. Então veio outra. Mas não podemos ignorar o motivo pelo qual essa gestação existe. Meu coração acelerou. Respondi: Não estou ignorando. Só não vou fazer um procedimento porque vocês decidiram que eu tenho que fazer. Os três pontinhos apareceram. Sumiram. Voltaram. Não foi isso que eu disse. Antes que eu respondesse, chegou outra: Você está levando tudo para um lado que não precisa. Ri sem humor. Então para de falar de documento. Dessa vez, ele demorou. Um minuto. Dois. Olhei para minha barriga. Senti um movimento. Coloquei a mão ali. — Calma. Nem sabia se falava com ele ou comigo. O celular vibrou. Baixei os olhos. Os documentos existem por um motivo. Meu peito esquentou. Nenhum documento pode me obrigar a passar por um procedimento médico contra a minha vontade. A resposta veio rápida. Não distorce as coisas. Eu já estava chorando. De raiva agora. Então explica. O que você quer dizer desde ontem? Ele visualizou. Não respondeu imediatamente. Fiquei olhando para a tela. Meu coração batia tão forte que conseguia sentir no pescoço. Até que a mensagem apareceu. Uma linha. Só uma. Mas suficiente para mudar tudo. Você precisa cumprir o que assumiu. Li. Uma vez. Duas. Três. E, pela primeira vez desde que Priscila tinha me pedido para carregar o filho dela, eu não me senti parte de um gesto de amor. Eu me senti parte de um contrato. Bloqueei a tela. Passei a mão sobre a barriga. E pensei nos papéis espalhados na minha cama. Nas assinaturas. Nas cláusulas que eu não lembrava. Na certeza de Eduardo. Na minha falta de dinheiro para contratar alguém que pudesse olhar aquilo e me dizer, sem emoção, sem parentesco, sem culpa, o que realmente significava. Foi aí que entendi que já não bastava perguntar a um médico. Eu precisava de alguém que soubesse ler aqueles papéis. E, principalmente, que soubesse me dizer se a minha assinatura tinha feito aquilo que Eduardo parecia acreditar. Se eu tinha ajudado minha prima a gerar um filho. Ou se, sem perceber, tinha assinado o direito de outra pessoa decidir sobre mim.
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