Eduardo tinha escrito que viria falar comigo pessoalmente.
Por isso, quando acordei na manhã seguinte, a primeira coisa que fiz foi pegar o celular.
Nenhuma mensagem nova.
Não significava que ele tivesse desistido.
Enviei os prints da noite anterior para Bernardo antes mesmo de levantar da cama.
Ele respondeu alguns minutos depois:
Não encontre com ele sozinha por iniciativa sua. Se ele aparecer, você não é obrigada a recebê-lo nem a discutir o caso. Me avise.
Aquilo era orientação.
Não pânico.
Tentei tratar assim.
Preparei Bia para a escola, tomei café quase frio e fui trabalhar. Durante algumas horas, consegui me ocupar com gente de verdade, pressão para aferir, prontuário para atualizar, paciente perguntando onde retirava medicamento.
O mundo continuava funcionando apesar de o meu parecer suspenso.
Foi perto do fim do turno que Mirela percebeu que eu estava olhando o celular demais.
— Ele falou alguma coisa?
— Não.
— Então para de esperar mensagem.
— Fácil falar.
— Eu sei.
Ela encostou no balcão.
— Você vai buscar a Bia?
— Tainá vai. Preciso passar em casa antes.
— Quer que eu vá com você?
Balancei a cabeça.
— Não quero organizar minha vida inteira em torno do Eduardo.
— Isso é diferente de se colocar em risco por orgulho.
— Não é orgulho. Bernardo sabe. Tainá sabe onde estou. E Eduardo nunca foi violento comigo.
Mirela fez uma expressão que dizia claramente que não gostava da frase.
— Gente pressionada faz coisa que nunca fez antes.
— Eu sei.
Saí prometendo avisar quando chegasse.
Quando entrei no Morro da Aurora, tentei me convencer de que estava exagerando.
Até ver o carro.
Reconheci antes mesmo de reconhecer Eduardo.
Parado perto da minha rua, destoando dos veículos dos moradores e das motos que subiam e desciam.
Meu estômago apertou.
Eduardo estava encostado na porta, olhando o celular.
Ele levantou a cabeça assim que me viu.
— Lorena.
Parei alguns metros antes.
— Eu pedi para você não vir.
— Você não pediu. Disse que não queria conversar ontem.
— E você resolveu que hoje eu queria?
Ele respirou fundo e veio na minha direção.
— Não precisa fazer cena.
Olhei em volta.
Duas pessoas passavam pela rua. Uma vizinha arrumava alguma coisa na janela.
— Eu não estou fazendo cena.
— Então conversa comigo.
— Meu advogado pediu que a gente trate as questões jurídicas por ele.
A expressão de Eduardo endureceu.
— É exatamente disso que estou falando. Você colocou advogado, dono de morro e sabe-se lá mais quem numa coisa que era da nossa família.
— Vocês colocaram contrato no meio antes de eu procurar advogado.
Ele abriu a boca, mas fechou de novo.
— Priscila passou a noite chorando.
A culpa veio rápida.
Cruel.
— Eu sei que ela está sofrendo.
— Não, você não sabe. Você tomou uma decisão sobre o filho dela e depois desligou o telefone.
— Eu não desliguei. Ela desligou.
— Você sabe o que eu quero dizer.
— Sei. Só não aceito que você mude os fatos para ficar mais fácil me culpar.
Eduardo passou a mão pelo cabelo.
— Lorena, escuta. Ainda dá tempo de a gente resolver isso sem transformar tudo numa guerra.
A palavra me irritou.
— Quem está falando em guerra é você.
— Eu estou tentando proteger minha mulher.
— E eu estou tentando continuar dona do meu corpo.
Ele se aproximou mais.
Não gritou.
Talvez fosse pior porque falava baixo, controlado.
— O bebê é nosso.
— Nunca disse que não era.
— Então você precisa entender que sua decisão tem consequência para nós.
— Eu entendo. O que você não entende é que a decisão também tem consequência física para mim.
— Você aceitou essa gestação.
— Aceitei gestar. Não assinei um papel dizendo que vocês poderiam autorizar procedimento médico em meu nome.
Vi algo mudar no rosto dele.
— Bernardo colocou isso na sua cabeça?
— Não. Bernardo explicou o que estava nos documentos que você vive usando para me pressionar.
Eduardo balançou a cabeça.
— Esse advogado vai dizer qualquer coisa enquanto estiver recebendo.
— Chega.
Passei por ele.
— A conversa acabou.
Eduardo segurou meu antebraço.
Não forte.
Mas segurou.
Meu corpo inteiro reagiu.
— Solta.
— Lorena, espera.
— Eu falei pra soltar.
Antes que ele respondesse, uma voz veio alguns metros atrás.
— Ela mandou soltar.
Eduardo me largou.
Virei.
Arcanjo vinha pela rua com Léo.
Fael estava um pouco mais atrás.
Naquele momento entendi como eles tinham aparecido.
Eu tinha visto Fael perto da entrada quando subi.
Provavelmente ele também tinha visto Eduardo.
Arcanjo não correu.
Não precisou.
O jeito como caminhou já fez Eduardo recuar meio passo.
— Isso não diz respeito a você — Eduardo falou.
Arcanjo parou ao meu lado.
— Encostar nela desse jeito diz.
— Eu não machuquei ninguém.
— Ainda bem.
A voz dele estava baixa.
Fria.
Léo ficou alguns passos atrás, observando.
Eduardo olhou de Arcanjo para mim.
— É isso agora? Você anda com segurança?
— Não — respondi antes que Arcanjo pudesse falar. — Eu não chamei ninguém.
Fael levantou uma mão discretamente.
— Eu vi o carro parado fazia tempo. Avisei o Léo.
Eduardo soltou uma risada sem humor.
— Claro. Todo mundo sabe da vida de todo mundo aqui.
Arcanjo deu um passo à frente.
— Você veio até a casa dela depois de ela dizer que não queria conversar.
— Eu vim falar com a mulher que está carregando meu filho.
— E ela falou pra você soltar o braço dela.
— Arcanjo.
Ele olhou para mim.
A raiva estava ali.
Era visível na mandíbula travada, nos ombros rígidos.
— Não — falei.
— Não o quê?
— Eu sei essa cara.
Léo desviou os olhos, talvez para esconder alguma reação.
— Lorena…
— Eu pedi ajuda. Não guerra.
O silêncio caiu.
Eduardo também ouviu.
Eu continuei olhando para Arcanjo.
— Não quero ninguém ameaçando ele. Não quero recado, não quero homem indo atrás dele, não quero nada disso.
— Ele te segurou.
— E eu mandei soltar.
— Ele não soltou de primeira.
— E você apareceu. Acabou.
Arcanjo respirou fundo.
Era estranho perceber o esforço que ele fazia para não assumir o controle.
— Então o que você quer que eu faça?
A pergunta me acertou.
A mesma.
Outra vez.
Só que agora ele perguntou antes.
— Nada.
Ele franziu a testa.
— Nada?
— Fica aqui enquanto ele vai embora.
Arcanjo me encarou por alguns segundos.
Depois assentiu.
— Beleza.
Voltei para Eduardo.
— Daqui pra frente, assunto jurídico é com Bernardo. Se Priscila quiser falar comigo como minha prima, eu vou ouvir quando estivermos em condições de conversar. Mas você não aparece aqui de surpresa outra vez.
Eduardo parecia dividido entre raiva e constrangimento.
— Você está levando isso longe demais.
— Não fui eu que vim até a casa de alguém depois de avisar que queria conversar “sem advogado”.
Ele me encarou.
Depois entrou no carro.
Arcanjo não falou nada enquanto Eduardo dava partida e descia a rua.
Só quando o carro desapareceu ele virou para mim.
— Você está bem?
Olhei para o meu braço.
Não havia marca.
— Estou.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele assentiu.
Nenhuma oferta de vingança.
Nenhuma promessa.
Só ficou ali.
Meu celular vibrou.
Mirela.
Abri a mensagem.
Consegui falar com o alto risco. Encaixaram sua medicina fetal. Amanhã cedo. Depois me liga porque precisamos organizar sua escala.
Meu peito apertou.
Eduardo m*l tinha desaparecido da rua e outra realidade já estava chegando.
Mostrei a mensagem para Arcanjo.
— Amanhã vão repetir a avaliação.
Ele leu sem pegar o celular da minha mão.
— Quer que alguém te leve?
Dessa vez, ele perguntou.
Olhei para ele.
— Ainda não sei.
Arcanjo assentiu.
— Quando souber, você fala.
E foi assim que, no meio de toda aquela confusão, percebi uma coisa estranha:
enquanto Eduardo continuava tentando antecipar minhas decisões, Arcanjo estava começando a aprender a esperar por elas.