Naquela noite, demorei mais do que deveria para responder à pergunta que Arcanjo tinha feito.
Quer que alguém te leve?
Eu poderia dirigir.
Tecnicamente, não havia motivo para não dirigir.
Mas depois do que tinha acontecido com Eduardo e sabendo que, na manhã seguinte, alguém colocaria um aparelho sobre minha barriga para confirmar se o pior diagnóstico da minha vida continuava sendo verdadeiro, percebi que independência não precisava significar fazer tudo sozinha.
Peguei o celular.
Se a oferta ainda estiver de pé, aceito a carona amanhã.
A resposta veio pouco depois.
Que horas?
Nenhum comentário.
Nenhum “eu sabia”.
Só isso.
Passei o horário.
Ele respondeu:
Estarei aí.
Guardei o telefone.
⸻
Mirela já estava me esperando quando cheguei à Clínica da Família antes de sair para a consulta.
Tinha conseguido mexer na minha escala, organizar a ausência e separar os documentos do encaminhamento.
— Você vai me dever um café — disse, entregando uma folha.
— Só um?
— Dois. Dei meu jeito com seu horário de hoje e já falei que talvez você precise de novas liberações depois.
Olhei para ela.
— Eu odeio dar trabalho.
— Então vai precisar superar. Gravidez de alto risco não vai respeitar sua escala porque você é funcionária daqui.
— Eu sei.
— Sabe como profissional. Quero ver aceitar como paciente.
Aquilo estava virando uma perseguição coletiva.
— Dra. Helena falou a mesma coisa.
— Porque ela é inteligente.
Guardei os papéis na bolsa.
— Se eu voltar acabada?
Mirela diminuiu o tom.
— Você não volta para trabalhar hoje.
— Mirela…
— Lorena, não negocia.
Sorri sem vontade.
— Tá.
Ela me abraçou rápido.
— Me avisa depois.
Arcanjo estava me esperando do lado de fora.
Encostado no carro, todo de preto, grande demais até para parecer confortável parado.
Quando me viu, abriu a porta do passageiro.
— Bom dia.
— Bom dia.
Entrei.
Ele deu a volta e assumiu o volante.
Nos primeiros minutos, quase não falamos.
Agradeci por isso.
— Bia? — perguntou depois.
— Escola. Tainá pega ela.
Ele assentiu.
— E seu braço?
Olhei para onde Eduardo tinha segurado.
— Normal.
— Não ficou marca?
— Não.
A mandíbula dele endureceu mesmo assim.
— Arcanjo.
— Não falei nada.
— Seu rosto fala.
Ele soltou o ar.
— Estou dirigindo.
— Ótimo. Continua.
Vi o canto da boca dele mexer.
Foi pouco.
Mas vi.
⸻
A médica da medicina fetal tinha um jeito diferente de Dra. Helena.
Helena conversava antes de tocar no exame.
Aquela médica, Dra. Elisa, parecia precisar primeiro das imagens para depois organizar as palavras.
Explicou o que faria, conferiu os laudos anteriores e pediu autorização antes de começar.
Arcanjo ficou do lado de fora.
Eu tinha decidido entrar sozinha.
Deitei.
Gel.
Outra vez.
A mesma sensação fria.
O mesmo teto.
A mesma tela.
Mas eu já não era a mulher do primeiro ultrassom.
Agora eu sabia o que procuravam.
Talvez por isso cada silêncio doesse mais.
Dra. Elisa movimentou o transdutor devagar.
Parou.
Mediu.
Mudou o ângulo.
Voltou.
Eu observava o rosto dela.
— Pode falar comigo enquanto faz? — pedi.
Ela me olhou.
— Posso.
Apontou para a tela.
— Estou avaliando novamente as estruturas cranianas e encefálicas.
Minha respiração ficou curta.
Ela continuou o exame.
— Os achados permanecem compatíveis com o diagnóstico anterior.
Não foi surpresa.
Mesmo assim, senti como se alguém tivesse arrancado o ar da sala.
— Então confirmou?
Dra. Elisa tirou os olhos da tela.
— A avaliação de hoje sustenta o diagnóstico de anencefalia. Os achados que esperávamos rever continuam presentes.
Minha mão apertou o lençol de papel.
— Não mudou nada.
Ela não me ofereceu esperança falsa.
— Não em relação ao diagnóstico.
Virei o rosto para a tela.
O coração aparecia.
Movimento.
Uma vida acontecendo dentro de uma imagem que também dizia morte.
— O coração está batendo normalmente agora?
— Está.
A resposta me atravessou.
— Isso sempre parece contraditório.
Dra. Elisa diminuiu o aparelho.
— Para quem está vivendo a gestação, pode parecer. O bebê pode ter atividade cardíaca e movimentos fetais durante a gravidez apesar da malformação cerebral grave.
Assenti.
Eu sabia.
Mas saber não impedia de doer.
— Posso ouvir?
Ela entendeu.
Ajustou o aparelho.
O som encheu a sala.
Rápido.
Forte.
Fechei os olhos.
Chorei sem fazer barulho.
Era c***l demais um coração soar tão vivo dentro de uma história que os médicos diziam ter tão pouco tempo.
Dra. Elisa não desligou imediatamente.
Também não tentou me tocar.
Esperou.
Quando pedi, ela parou.
— Desculpa.
— Não precisa pedir desculpa.
Limpei o rosto.
— Eu decidi continuar a gestação.
Ela assentiu.
— Vi a anotação.
— Você acha irresponsável?
A pergunta escapou.
Ela franziu levemente a testa.
— Minha função não é dar nota moral para sua decisão. Minha função é ter certeza de que ela está sendo tomada com informação e acompanhar você da forma mais segura possível.
Aquilo me acalmou mais do que qualquer aprovação.
— E agora?
Ela começou a explicar os próximos passos: acompanhamento no alto risco, controle obstétrico regular, avaliação de intercorrências, organização futura do parto e conversa progressiva sobre o cuidado neonatal.
Eu ouvi.
Dessa vez, sem procurar uma brecha escondida.
No final, ela perguntou:
— Tem alguém esperando você?
— Tem.
— Ótimo.
Peguei a bolsa.
Antes de sair, olhei mais uma vez para a tela já apagada.
Talvez aquela fosse a pior parte.
A imagem sumia.
O diagnóstico vinha comigo.
⸻
Arcanjo levantou assim que me viu.
Não perguntou de imediato.
Só abriu a porta do carro.
Entrei.
Ele entrou depois.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
— Confirmou? — perguntou.
Olhei para frente.
— Confirmou.
Ele fechou os olhos por um instante.
Depois ligou o carro.
Nada de frase vazia.
Nada de “vai ficar tudo bem”.
Agradeci por isso.
Seguimos algumas ruas sem conversar.
Eu encarava a cidade pela janela, pessoas atravessando, ônibus passando, comércio aberto.
Tudo normal.
Meu bebê tinha um coração batendo e um diagnóstico incompatível com uma vida longa.
E alguém do lado de fora comprava pão.
Eu não sabia como o mundo conseguia continuar tão igual.
Foi então que vi a igreja.
Pequena.
Católica.
Porta aberta.
Não pensei.
— Para.
Arcanjo olhou para mim.
— O quê?
— Para o carro.
Ele encostou.
Desafivelei o cinto.
— Lorena?
Minha mão ficou na maçaneta.
— Eu preciso entrar ali.
Ele olhou para a igreja.
Depois para mim.
— Quer que eu vá?
Não sabia por que a pergunta me emocionou.
Talvez porque, mais uma vez, ele tivesse perguntado.
— Não.
Ele assentiu.
— Eu espero aqui.
Saí.
Atravessei a rua.
Fazia anos que eu não entrava numa igreja daquele jeito.
Sem missa.
Sem festa.
Sem saber direito o que queria dizer.
Empurrei a porta.
O lugar estava quase vazio.
Sentei no último banco porque não tive coragem de ir mais perto.
Olhei para a cruz.
Tentei rezar.
Nenhuma oração veio.
Eu conhecia palavras demais naquele momento.
Anencefalia.
Prognóstico.
Alto risco.
Autonomia.
Responsabilidade.
Cuidados paliativos.
Nenhuma delas servia ali.
Baixei a cabeça.
Pousei a mão sobre a barriga.
E falei a única coisa que consegui:
— Se você ainda escuta…