O telefone tocou no meio da manhã.
— Em duas horas você vai almoçar comigo — a voz dele soou firme, sem espaço para resposta. — Restaurante Lindomar, no centro.
Ela respirou fundo.
— Tá bom.
— Esteja apresentável. Vou estar te aguardando.
A ligação caiu.
Ela ficou alguns segundos olhando para o celular, o coração acelerado. Não por ansiedade romântica. Era nervosismo puro. Aquele homem ainda era um estranho — e, mesmo assim, já mandava no tempo dela.
Foi se arrumar com calma.
O cabelo ruivo, cacheado, caía em ondas vivas sobre os ombros. Os olhos azuis contrastavam com a pele clara. Era linda, mesmo sem tentar. Magrinha, baixa, delicada, mas com algo firme no olhar.
Escolheu um vestido preto, simples e elegante. Nada exagerado.
Pegou a bolsa, conferiu o horário e saiu.
Quando chegou ao restaurante, viu primeiro a limusine. Preta, imponente, ocupando espaço como se o mundo tivesse que abrir passagem.
Ele estava dentro do carro.
Quando a viu, desceu imediatamente. Alto, loiro, musculoso, presença forte. Caminhou até ela e, para surpresa dela —
— Você está linda — disse, olhando diretamente nos olhos dela.
Antes que ela pudesse reagir, ele se levantou, aproximou-se e tocou os lábios nos dela. Um beijo rápido, calculado, mais encenação do que desejo.
— e disse tem paparazzi olhando ...
Pegou a mão dela com firmeza e a conduziu para dentro.
No restaurante, puxou a cadeira para ela se sentar, depois tomou o lugar à frente. Tudo era correto demais. Frio demais.
— Bom… — ele respirou. — Eu me chamo Elijah.
Ela levantou o queixo.
— E eu me chamo Elisa...
Ele arqueou a sobrancelha.
— Vamos ter que nos acostumar, então.
O silêncio se instalou por alguns segundos.
— Eu não sei o que você espera desse casamento — ele continuou —, mas não é o que eu queria.
Ela soltou um riso curto.
— Elijah, você acha que eu estou casando com você por causa do seu dinheiro? Você está enganado.
Ele a observou, atento.
— Eu terminei minha faculdade. Estou fazendo estágio. Vai demorar, mas eu vou conseguir o meu próprio dinheiro. Eu não pretendo usar o seu.
Ele sorriu, desacreditado.
— Mas você devia usar.
— Vou usar o mínimo possível — respondeu com firmeza. — Eu sei que, como esposa do renomado Elijah Damari, eu preciso estar à altura. Me vestir bem. Cuidar da aparência. Trocar de celular, se precisar. Só isso.
Ele inclinou-se levemente para frente.
— E por que você não queria casar comigo? — perguntou. — Sou milionário. Posso te dar o mundo.
Ela sustentou o olhar.
— Porque dinheiro não me conquista. Eu quero um homem que cuide de mim, sim, mas que me ame do jeito que eu sou. Que me valorize. Que me proteja. Que seja louco por mim, apaixonado por mim.
A voz dela não tremeu.
— Eu não vou me vender para sua família para pagar as contas da minha. Eu fui escolhida porque sou a filha mais velha. Só isso.
Ela respirou fundo.
— Não estou dizendo isso para você sentir pena de mim. Eu não quero sua pena. Quero apenas que você entenda: você não escolheu isso. Nem eu.
Ele ficou em silêncio.
— Diante das nossas famílias, da sociedade, do seu sobrenome, da sua reputação… — ela continuou — nós vamos ter que fingir muito bem que somos um ótimo casal.
Ela deu um sorriso calmo, quase irônico.
— Então fique tranquilo, querido. Não vai ter problema nenhum.
Ele a encarou por longos segundos.
Pela primeira vez, não viu uma mulher interesseira.
Viu alguém tão presa quanto ele.
E aquilo… o incomodou mais do que deveria.
O garçom se aproximou, interrompendo o silêncio pesado.
— Boa tarde. Desejam ver o cardápio?
Elijah fez um leve gesto com a mão.
— Traga o de sempre para mim.
— Para a senhora? — o garçom perguntou.
Ele olhou para Elisa, esperando.
— Água com gás — ela respondeu. — E uma salada simples.
O garçom assentiu e se afastou.
— Você não come muito? — Elijah perguntou.
— Como o suficiente para não depender de ninguém — respondeu, sem suavizar o tom.
Ele soltou um meio sorriso, mais curioso do que debochado.
— Você é diferente do que imaginei.
— E você é exatamente como imaginei — ela rebateu.
— Arrogante?
— Controlador.
Ele apoiou os cotovelos na mesa.
— Eu precisei aprender a ser assim. Neste mundo, se você não controla, é controlado.
— Eu sei — ela respondeu. — Estou vivendo isso agora.
Ele a observou com mais atenção. O cabelo ruivo cacheado, o vestido preto simples, a postura firme apesar da delicadeza do corpo. Ela não parecia intimidada. Parecia… cansada.
— Nosso casamento vai acontecer — ele disse, finalmente. — Querendo ou não.
— Eu sei.
— Então precisamos combinar algumas coisas.
Ela cruzou os braços.
— Pode falar.
— Aparições públicas. Eventos. Jantares. Sorrisos. Nada de escândalos. Nada de cenas.
— Concordo — ela disse. — Eu também tenho minhas condições.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Não me toque sem o meu consentimento. Não invada meu espaço. Não finja i********e quando não houver ninguém olhando.
O olhar dele escureceu por um instante.
— Nem mesmo beijos?
— Só quando for necessário. E sempre por aparência. Nunca por obrigação íntima.
O garçom voltou com os pedidos, quebrando a tensão. Eles ficaram em silêncio até ele se afastar novamente.
— Mais alguma coisa? — Elijah perguntou.
Ela pensou por um segundo.
— Sim. Eu não quero que você tente me comprar com presentes caros, viagens ou dinheiro. Isso não vai funcionar comigo.
Ele inclinou a cabeça, analisando.
— E se eu disser que não sei fazer diferente?
— Então você vai aprender — respondeu com calma. — Assim como eu estou aprendendo a viver um casamento que nunca quis.
Ele deu uma risada baixa, sem humor.
— Você é perigosa, Elisa.
— Não — ela disse, bebendo um gole de água. — Eu só não sou submissa.
O silêncio voltou, mas agora era diferente. Não era vazio. Era cheio de algo novo. Confronto. Curiosidade. Resistência.
Quando terminaram o almoço, ele se levantou e estendeu a mão.
— Vamos.
Ela hesitou por um segundo, depois aceitou.
Do lado de fora, a limusine os aguardava. Os fotógrafos ainda estavam ali, atentos.
Ele se aproximou do ouvido dela e sussurrou:
— Lembre-se do combinado.
Ela sorriu para as câmeras, perfeita.
— Sempre.
Mas por dentro, sabia:
aquele casamento não seria apenas um contrato.
Seria uma guerra silenciosa.