A luz que atravessava a janela não era suave; era invasiva, quase c***l, um feixe estreito que cortava a poeira suspensa no ar e pousava diretamente sobre o rosto de Alice como um lembrete insistente de que ela ainda estava ali, ainda viva, mesmo quando desejava desaparecer. Ela abriu os olhos antes do despertador tocar — sempre antes. O corpo aprendera a antecipar o caos. Ficou imóvel por alguns segundos, ouvindo. O silêncio era pior do que o barulho, porque silêncio significava que ele ainda estava em casa.
Virou o rosto devagar e encarou o teto manchado de infiltração, contando as rachaduras como fazia desde os treze anos, quando a mãe morreu e o mundo deixou de ter estrutura. Um. Dois. Três. Respirou fundo, tentando manter o ritmo estável, mas o ranger da madeira no cômodo ao lado rompeu qualquer ilusão de tranquilidade. O cheiro veio logo depois: álcool velho, fumo impregnado, suor azedo. Ela fechou os olhos por um instante, não por medo — medo já era antigo demais —, mas por exaustão.
Levantou-se. O chão de cimento estava gelado sob os pés, e o frio subiu pelas pernas como um lembrete físico de que ainda sentia alguma coisa. Na cozinha improvisada, a pia estava cheia de copos sujos, uma garrafa vazia tombada sobre a mesa e uma cadeira caída denunciavam a noite anterior. Não precisou perguntar o que havia acontecido; nunca precisava. Enquanto colocava água para ferver, percebeu a própria mão tremendo. Não era pavor. Era tensão acumulada. O corpo dela vivia contraído, como se estivesse sempre esperando o próximo impacto.
Olhou-se no espelho rachado acima da pia. Vinte anos. Olhos grandes demais para um rosto cansado demais. A marca arroxeada na lateral do maxilar, parcialmente escondida por maquiagem m*l espalhada, parecia mais um lembrete do que uma ferida. Tocou o próprio reflexo com a ponta dos dedos e murmurou, quase inaudível: “Eu vou sair daqui.” Não soava como promessa; soava como ameaça.
Os passos arrastados anunciaram a presença dele antes mesmo que Dante aparecesse na porta da cozinha. A camisa aberta, o peito magro, os olhos inchados e vermelhos; ele parecia menor a cada ano, consumido por vícios que não perdoavam. Ainda assim, era grande o suficiente para machucar. “Alice…”, chamou com aquela urgência falsa que ela conhecia bem. Ela não respondeu, apenas serviu o café, deixando que o aroma forte tentasse competir com o odor de álcool impregnado na pele dele.
“Você tem dinheiro guardado?”, perguntou ele, coçando o queixo por fazer. “Só um pouco. Eu resolvo hoje. Prometo.” Promessas eram como garrafas vazias naquela casa: sempre existiam, nunca serviam para nada. Ela manteve a voz firme. Disse que o que ganhara era para o aluguel, para a luz, para a comida — que não havia sobrado nada. Ele riu sem humor e avançou dois passos. “Eu sou seu pai.” Ela ergueu os olhos lentamente. “Pai protege. Pai não aposta o dinheiro da filha.”
O silêncio que se formou entre eles foi denso o bastante para cortar o ar. Ela viu o exato momento em que a vergonha dele se transformou em agressão. A mão ergueu-se e, por um segundo, ela pensou na mãe, na última vez que a viu viva, na sensação de impotência que a acompanhara por anos. O t**a veio rápido, o som seco ecoando na cozinha pequena. A cabeça virou para o lado, mas a dor não foi o pior; foi o calor da humilhação, a confirmação de que, mesmo adulta, ainda era a menina incapaz de impedir o inevitável.
Ela não chorou. Olhou para ele novamente — e foi isso que o desestabilizou. O medo já não habitava aqueles olhos; havia algo mais perigoso ali, algo que se aproximava do julgamento. Dante piscou, a mão ainda suspensa no ar como se ele próprio estivesse surpreso com o que fizera. “Eu não queria… Eles estão me cobrando. Eu perdi muito dessa vez.” Havia algo diferente naquela manhã. Não era apenas ressaca; era desespero.
“Quanto?”, perguntou ela, embora já temesse a resposta. Ele hesitou antes de admitir: cinquenta mil. O número ficou suspenso no ar como uma sentença. Cinquenta mil eram mais do que ela ganharia em anos. “Eu recupero”, insistiu ele, mas ela quase riu. “Você não recupera nem a própria dignidade.”
Foi então que a porta da casa se abriu com violência suficiente para bater na parede. Três homens entraram armados, os olhos frios, a presença pesada. O ar da cozinha mudou imediatamente. O cheiro de pólvora misturou-se ao perfume caro de alguém que entrou logo depois, sem pressa, como se o espaço já lhe pertencesse.
Ele era alto, ombros largos, tatuagens subindo pelo pescoço, camisa preta ajustada ao corpo. Os olhos eram escuros demais para serem lidos com facilidade. Não precisava levantar a voz; o silêncio se moldava ao redor dele. “Então esse é o famoso Dante”, disse, e o tom baixo era mais ameaçador do que qualquer grito. Dante caiu de joelhos. “Bento… eu consigo pagar…”
Bento. O nome ficou gravado na mente dela.
Ele caminhou até o centro da cozinha e ignorou Dante como se ignorasse lixo. O olhar passou por ele e pousou nela. O mundo pareceu encolher. Não era um olhar de homem para mulher; era o olhar de alguém avaliando valor. “Essa é a filha?”, perguntou, sem desviar os olhos. Dante tentou intervir, mas Bento continuou observando-a como se o restante fosse ruído.
“Quanto ele deve?”, Alice perguntou, a voz surpreendentemente firme. Alguns homens trocaram olhares; não estavam acostumados a ser confrontados. “Cinquenta mil”, respondeu Bento. Ela respirou fundo e disse que poderia pagar em parcelas. Ele deu um meio sorriso, pequeno e interessado. “Parcelas levam tempo. E eu não sou paciente.”
A mão dele ergueu-se, não para bater, mas para levantar o queixo dela. O toque era firme, quente. Ela deveria ter sentido nojo, mas sentiu consciência — a percepção clara de que ele media cada reação. “Você vale mais do que cinquenta mil”, murmurou ele, e o silêncio que se seguiu foi brutal.
Dante, trêmulo, sussurrou o que ela já intuía antes de ouvir: “Leva ela… Fica com ela até eu pagar.” O mundo não desmoronou; implodiu. Não houve grito. Apenas um vazio preciso, cortante. Ela virou o rosto lentamente para o pai. Ele não a olhava; olhava para Bento, implorando por si mesmo.
“Você está me entregando sua filha?”, Bento perguntou, como se quisesse ouvir a confirmação. Dante assentiu. Alice soltou uma risada baixa, quase inaudível. Bento percebeu. “Você acha engraçado?” Ela o encarou. “Não. Eu acho previsível.”
Algo mudou no olhar dele — interesse, talvez respeito, certamente perigo. Ele a soltou e ordenou que a levassem. Dois homens seguraram seus braços, mas ela não gritou nem lutou. Olhou para Dante pela última vez e disse, com voz firme: “Você nunca me perdeu no jogo, pai. Você me perdeu quando escolheu não me proteger.”
Quando foi colocada na caminhonete preta, o sol começava a nascer sobre o Vidigal. Ela observou o céu por alguns segundos, sentindo algo que não era medo, mas determinação. Se aquele homem achava que havia comprado uma dívida, acabara de adquirir algo muito mais complexo.
Ela não seria moeda.
Ela seria estratégia.