Angelo
Ela era linda.
Assim como eu me lembrava, a Liz era linda. Mas é claro que eu iria querer dar uma bela conferida na mulher que eu passaria um bom tempo junto. Estava pensando seriamente em aproveitar as partes boas daquele acordo de sangue.
Sentei confortavelmente no banco de mármore da capela da família Gutierrez, observando as chamas das velas se moverem, alternando o seu brilho.
O espaço permanece inalterado desde que meu pai o projetou. Colunas de mármore branco, enfeites de ouro ornamentados, cuidado e riqueza em todos os detalhes. Este santuário sagrado é apenas uma das muitas extravagâncias nesta propriedade há muito estabelecida por minha linhagem. Durante décadas, a linhagem Gutierrez floresceu nesta mansão. Nunca houve qualquer dúvida de que um dia ela seria minha. Só não esperava que fosse tão cedo. Agora, eu sou o descendente escolhido condenado a assombrar esses salões onde as memórias permanecem gravadas em cada superfície.
Meu pai costumava me trazer a esta capela quando menino, quando havia uma lição a ser aprendida. Antonio Gutierrez não era um homem mole. Ele era um herdeiro direto de um dos fundadores do Corleones. Um Filho das Sombras. Nossa sociedade é uma organização bem estabelecida enraizada em poderosas dinastias ao redor do mundo. Alguns nos chamam de Serpentes Negras. Um sindicato criminoso. Máfia. A verdade é muito mais complexa do que qualquer um desses termos simplistas.
Nossos ancestrais aprenderam há muito tempo que havia poder no segredo. O legado que nos foi transmitido foi muito mais evoluído do que o dos criminosos guerreando entre si nas ruas. Nós temos dinheiro, poder e somos muito mais sofisticados do que qualquer m****o da máfia espanhola comum. Não somos um simples Cartel. Vivemos escondidos como grandes homens e ninguém nos reconhecerá facilmente.
Somos altamente educados, instruídos e discretos, nunca abrimos mais da discrição. Mafiosos meticulosamente disfarçados como membros da sociedade.
Desde a infância, meu pai me ungiu com essa mesma grande responsabilidade. Ele era um m****o respeitado do alto escalão em nossa
sociedade e estava determinado a que seus filhos fossem moldados à sua imagem, não importando a que custo.
O custo me rendeu muitas lições difíceis ao longo dos anos. Ajoelhado no piso de mármore duro por horas. A dor de uma tira de couro contra minha pele, ou até uma pá de madeira. A repetição de orações e a culpa sufocante do arrependimento por nunca ser o bastante... Nunca ser suficiente.
Os Gutierrez não podem se dar ao luxo de ser fracos. As palavras de meu pai ainda ecoam nas paredes enquanto meus olhos vagam pelas fotos dele e de meu irmão Leonardo penduradas em lados opostos do altar. Não tenho dúvidas de que me diriam que os próximos passos são iminentes e necessários. A única maneira de corrigir o erro de suas mortes é punir sem piedade. O sangue deles está nas mãos de Mathias Gonzales, aquele filho da p**a simplesmente teve que ficar doente antes que eu pudesse espremer até o último fio de alma de seu corpo.
Minha cabeça mergulha enquanto a força da minha raiva sobe dentro de mim e escurece minha visão. Por quatro anos, eu estive esperando por isso. Quatro anos de inúmeras cirurgias e fisioterapia. A angústia e a dor sem fim foram meus únicos companheiros na escuridão enquanto eu procurava respostas para a verdade.
Mathias não pode tirar isso de mim. Sua doença não será o caminho mais fácil. Enquanto ele está deitado naquela cama de hospital, murchando e definhando, destruirei tudo o que ele sempre amou. E se ele acordar novamente, terá um horror ainda pior que a morte.
O destino decidiu por mim. O tempo é um luxo que não tenho mais, então devo agir agora. Essa certeza está vibrando pelos meus ossos e sacudindo a gaiola enferrujada em volta do meu coração. Até o último Mariano pagará com sangue e miséria, eles conhecerão o sofrimento mais intimamente do que eu jamais poderia.
A porta de passagem ao lado da capela se abre, me tirando dos meus pensamentos enquanto meu corpo inteiro reage com um estremecimento violento. Quão difícil é satisfazer meu simples pedido de silêncio completo em minha própria casa?
A nova empregada entra, inconsciente da minha presença enquanto acende a luz. O brilho faz meus olhos arderem, a observo incrédulo enquanto ela começa a limpar os bancos, cantarolando enquanto trabalha. Ela ainda não me notou porque está usando fones de ouvido, seus sentidos estão mais embotados do que um rato indo direto para uma armadilha.
Lentamente, eu levanto a minha altura total e giro minha cabeça para olhar para ela. Ela pega o movimento com o canto do olho e olha para mim. Ela me olha assustada, abaixando a cabeça logo em seguida.
- Senhor, desculpe. Não sabia que estava aqui.
- Você não sabe bater? Quer que eu lhe arranque a mão para você se lembrar de usá-la?
Ela me olha, seu rosto é puro espanto. Ela se encolhe, explodindo em lágrimas histéricas enquanto balança a cabeça, correndo como se eu pudesse devorar sua alma a qualquer momento. Em sua retirada apressada, ela consegue apagar a luz e me trancar de volta no quarto, como se isso fosse me impedir se eu decidisse a perseguir. Mas ela não é a presa pela qual minha alma anseia, duvido que depois desta noite, eu a veja novamente.
***
Observo a assistente de vendas no espelho de corpo inteiro enquanto ela entrega uma seleção de vestidos conforme solicitado. Seus olhos estão voltados para o chão, ela nunca olha para mim uma vez. Pelo menos ela é capaz de seguir instruções. Ou talvez ela esteja apenas com medo de mim, como a maioria das mulheres.
Aquela é uma das lojas da nossa organização, então os funcionários já sabem da minha fama de implacável. Esse é o poder do nome Gutierrez. Como Filho da Sombras, ninguém desafia meus caprichos. E se eles são espertos, eles seguem minhas exigências sem questionar.
— Voltarei com mais alguns em um momento, Sr. Gutierrez.
A porta se abre e logo noto a presença conhecida da minha irmã, Olga. Ela sorri quando me vê. Minha irmã é alta e bonita como nossa mãe. Ela atrai os homens com um sorriso doce, mas é tão tóxica quanto veneno. Seu cabelo é comprido, do mesmo tom de preto que o meu, ela herdou os olhos escuros de meu pai, enquanto eu herdei os castanhos de minha mãe. Ela é a mais jovem, inteligente demais para seu próprio bem e mimada demais para fazer qualquer coisa com isso. Quando se tratava de nosso pai, Olga não escapou de sua brutalidade, mas muitas vezes ela foi
protegida por Leonardo e por mim. Tanto quanto podíamos, pelo menos.
— Irmão— Ela alisa as palmas das mãos sobre meus ombros, examinando o tecido do meu blazer com um olhar atento. — Isso é novo?
Ela está se referindo ao terno cinza sob medida costurado em volta do meu corpo com tanta maestria, eu arrisco um palpite que não há outro no mundo como ele. Foi feito para agradar apenas a mim, mas a Olga sempre teve um gosto pelas coisas boas da vida. Um efeito colateral da doença familiar que chamamos de riqueza. Os ricos nem sequer começam a tocar em nossa linhagem. Sangramos ouro.
— O que você está fazendo aqui? — pergunto a ela. — Você deve oferecer seus serviços onde eles são necessários.
— Você achou que eu não viria? — Ela faz beicinho. — Oh, como você me fere, meu querido irmão. Assim que recebi sua mensagem, avisei e voltei direto para casa.
— Você deveria ter ficado. — respondo sem rodeios. — Sua presença não é necessária.
Ignorando minha observação afiada, ela encontra meu olhar no espelho. — Diga-me a verdade. Está realmente acontecendo agora?
— Sim. Eu não tenho escolha. Mathias adoeceu, me forçando a tomar uma atitude.
Olga solta um suspiro, um sorriso lento surge em seus lábios vermelhos.
— Finalmente.
— Você tem outras coisas para ocupar seu tempo. — digo a ela. — Como encontrar uma pobre alma para se casar com você. Isso não é problema seu.
Ela dá um passo na minha frente, me segurando pelo colarinho enquanto ela olha para mim.
— Eu não vou embora. Isso não é apenas sobre você. Você não é o único que os perdeu e você não é o único que está esperando anos por vingança.
Por um momento, sou dominado pela culpa. Eu sei que não sou o único que os perdeu. Nossa família inteira está morta,
Olga tem deixado um rastro de devastação em seu caminho desde então. Mas ela não pode ser sensata sobre isso. Se dependesse dela, a vingança seria sangrenta e rápida, deixando um vazio de descontentamento que nunca poderia ser preenchido. Ela não tem paciência para ver as possibilidades e desenhá-las. Ela só pensa em uma morte rápida.
— Você terá sua vingança. — tiro suas mãos do meu terno. — Mas será feito do meu jeito.
— Claro que vai. — Ela me acalma com um tom suave. — Tudo o que estou pedindo é um lugar na primeira fila. Eu quero ajudar. Seja qual for a tarefa que você me der, não importa quão pequena, eu vou saboreá-la. Por favor, Angelo. Deixe-me fazer parte disso.
— Vou considerar.
A vendedora volta com mais vestidos, pendurando-os e perguntando se preciso de mais alguma coisa um momento antes que ela desapareça novamente. Enquanto eu caminho em direção a eles, Olga está bem ao meu lado, seu olhar fixo em mim.
Eu a ignoro e começo a examinar as peças cuidadosamente, uma por uma. Eles são todos pretos, como eu pedi. Rendas, pérolas e seda são lindas demais para gente como Liz Gonzalez. No entanto, ela terá um independentemente. Nenhuma esposa minha se casará comigo em frangalhos, mas certamente terei prazer em ver a destruição de seu lindo vestido assim que a cerimônia terminar.
— Você está realmente comprando um vestido para ela? — Olga zomba. — Por quê?
— Porque ela vai ser minha esposa. — rosno. — Não vou a deixar manchar o nome Gutierrez vestindo qualquer coisa que eu não aprove.
— Ela será uma Gutierrez apenas no nome. — ela rosna. — Quem se importa com o que ela veste quando seu sangue manchar o chão da Mansão? Se dependesse de mim, eu faria isso na cerimônia na frente de sua família para todos verem. Ela deveria ter que andar nua sobre brasas para merecer sua mão em casamento.
— É por isso que não depende de você.
— Ainda não entendo por que você tem que se casar com ela. Basta torturá-la e acabar com isso.
— Você não precisa entender. — a dispenso friamente.
A sala fica em silêncio, posso sentir Olga me observando enquanto observo cada vestido. Ainda há muito a ser feito, sua presença está apenas atrasando meus esforços. Mas mandá-la embora agora só aumentaria sua raiva.
Pego o vestido mais fino da seleção e o penduro na ponta do cabide. Depois de chamar a vendedora e dizer a ela para embalar, Olga murmura baixinho.
— Ela não merece usar algo tão bonito. Malditos Gonzalez.
— Talvez não, mas não é sua decisão.
Ela me observa com cuidado enquanto ando pela loja, procurando um par de saltos para combinar. O joalheiro estará aqui em breve com uma seleção de anéis. O resto eu posso mandar meu pessoal buscar. Flores. Velas. Penteado. Faço uma pausa na frente de uma vitrine de lingerie, engolindo o nó na minha garganta.
— Você deve estar brincando. — Olga sibila. — Não me diga que você realmente planeja dormir com aquela mulher horrível.
Eu toco a renda preta e tento imaginar como Liz ficaria em tal exibição. Minha inimiga e minha futura esposa. A mulher quinze anos mais nova que eu. Ao longo do tempo, eu a observei. Conheço suas curvas, sua suavidade, seus sonhos impossivelmente femininos de escapar desta vida. Ela será minha para fazer o que eu quiser. Minha para tomar, tocar, atormentar e horrorizar.
Pego a caneta no bolso e percebo que Mercedes continua me observando como um falcão implacável, devorando todos os meus movimentos e pensamentos silenciosos.
— O que é isso? — Seus olhos percorrem a caneta com curiosidade.
Eu o devolvo ao meu bolso e a ignoro. Um movimento potencialmente perigoso quando se trata de minha irmã. Ela tem o hábito de desenterrar informações e minha reação só servirá para intensificar sua curiosidade. Eu a conheço bem para saber disso. Ele é uma mulher extremamente determinada.
Ela só descobriu minhas suspeitas sobre a traição do Mathias porque ela mesma vasculhou meu escritório quando eu não lhe dei as respostas que ela queria. Depois que ela descobriu meus arquivos sobre a família Gonzales, ela parece uma cobra perseguindo um roedor. Imparável. Mesmo agora, ela está praticamente espumando pela boca e eu sei que terei que ser vigilante sobre as regras quando se trata de Liz.
Olga pode querer sua vingança, mas ela também entende seu lugar. Eu sou o chefe da família Gutierrez. Sou eu quem controla a vida dela. Seu destino. E ela sabe que não deve nem piscar sem a minha aprovação primeiro. Será o mesmo com Liz.
Liz doce e venenosa.
— Quando você vai matá-la? — Olga pergunta.
Eu a ignoro e escolho um par de saltos para minha noiva, para o aborrecimento da minha irmã.
— Se eu não te conhecesse bem, eu pensaria que você realmente quer se casar com essa mulher. — ela acusa.
Eu olho para ela para que não haja m*l-entendidos entre nós.
— O que eu quero é destruí-la. Não se engane sobre isso. Será feito.
— Então me diga como? — ela implora com dor em sua voz. — Diga-me como você vai matá-la.
Eu só tenho uma resposta para ela.
— Devagar.