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1063 Words
Veronica Bryce e eu fomos para a sala de estar onde estavam Liam e Pax parados em frente à TV. Um homem com um semblante preocupado estava diante de um púlpito e seu título aparecia na tela. Diretor do Centro de Controle de Doenças. Pax estendeu o controle remoto e aumentou o volume. “…a propagação do vírus está acelerando exponencialmente…” Nós quatro estávamos escutávamos silenciosamente. A cada cinco minutos, as palavras paravam de significar alguma coisa e passavam por cima de mim, me entorpecendo. Palavras como quarentena, curva de infectados e distanciamento social passaram pela minha consciência sem realmente serem absorvidas. Então a entrevista acabou e foi substituída por uma lista de tópicos. Todos os voos norte americanos foram suspensos. Todas as rotas ferroviárias foram canceladas. Os restaurantes não podiam mais operar. Grupos com mais de seis pessoas estavam proibidos. Máscaras foram recomendadas a todos que precisassem sair de casa. Civis foram aconselhados a ficar no lugar em que estivessem. “Isso… isso não pode ser real”, eu disse. “Isso deve ser um erro, como quando H. G. Wells leu A guerra dos mundos na rádio, certo?” “Isso é loucura.” Bryce cobriu sua boca com a mão e continuou encarando a TV. “p**a merda – o mercado está implodindo”, disse Pax. Seus olhos verdes estavam arregalados enquanto ele encarava seu telefone. “Por que eles anunciaram isso enquanto o mercado ainda está aberto?” “Mercado?” Bryce disse. “Tem uma p***a de um vírus por aí e você tá preocupado com dinheiro?” “É meu trabalho me preocupar com os investimentos das pessoas. Eu preciso fazer umas ligações.” Pax saiu da casa com seu celular no ouvido. “Minha mãe disse que o mesmo está acontecendo na Inglaterra”, disse Liam com a voz baixa, segurando seu celular que mostrava uma mensagem de texto. “Tudo está fechado. As pessoas foram instruídas a ficar em casa. O mundo está acabando?” “Parece que sim. O diretor do CDC disse que os sintomas aparecem dentro de vinte e quatro horas…” “Eu estou aqui faz mais tempo que isso”, Liam disse. “Só tive contato com vocês desde então, estou seguro. Mas Pax e…” Ele se calou e olhou para mim. Bryce me olhou de relance e então recuou. “Com quem você esteve em contato nos últimos dois dias, Veronica?” Eu percebi o que ele estava insinuando: você deve estar infectada. O pensamento me irritou… e depois me aterrorizou. “Ninguém!” “Ninguém? Você esteve sozinha em casa nos últimos dois dias?” Na verdade, eu dormi no meu carro durante toda a semana anterior enquanto procurava emprego no Brooklin. Tomei banho na Associação Cristã para Jovens antes de todo mundo chegar. Minha última entrevista foi quatro dias antes, então meu contato com pessoas foi limitado. “Eu estive sozinha em casa”, confirmei. “Fui à loja de conveniência algumas vezes, mas só isso. Eu não posso…” Eu engoli o fel que subia pelo fundo da minha garganta. “Não posso garantir que não esteja infectada. Mas eu me sinto bem!” Bryce pôde notar que eu estava começando a entrar em pânico. Ele gentilmente tocou meu braço e disse: “eu não quis te acusar de nada. Agora não importa, você já esteve próxima do Ollie e de mim. Se você estiver contagiosa, não há nada que possamos fazer a não ser esperar que você não tenha o vírus.” Eu assenti, mas agora tudo o que eu podia pensar era no meu corpo e como eu me sentia. Minhas alergias de primavera estavam me incomodando já fazia uma semana, e eu tive dor de garganta. Eu estava cansada e minhas costas doíam porque dormi no meu carro. Mas a reportagem na TV disse que fadiga era um dos sintomas do vírus. Será que eu estava bem? Pax voltou da varanda. “As negociações da bolsa foram interrompidas. É um caos total.” “Quem esteve com você nos últimos dois dias?”, Bryce perguntou. “Você estava indo pro escritório, certo?” Pax chacoalhou a cabeça. “Eles estão reformando o escritório na Filadélfia, então eu estava trabalhando de casa nas últimas duas semanas. Graças a Deus. Eu saí de casa, no entanto. Comprei quentinhas pra jantar nas últimas três noites. Parei em dois postos de eletricidade para carregar meu carro no meu caminho até aqui. Merda, eu entrei na loja de conveniência para comprar bebida e salgadinhos. Merda!” “Assim como a Veronica”, Liam disse. “Nós te abraçamos e estivemos próximos de você na última meia hora. Se você estiver infectado, agora todos nós estamos também.” Fez-se um silêncio constrangedor enquanto todos nós processávamos o ocorrido. “Acho que vocês não me querem mais por perto”, eu disse. “Se todo mundo precisa permanecer onde está, você não vai querer que eu fique indo e vindo, dia sim, dia não…” “Você está certa: não quero você indo e vindo”, Bryce disse. Meu coração ficou apertado. “Eu quero te contratar em tempo integral”, ele disse. “O que?”, deixei escapar um gritinho. “Você fica aqui com a gente no lago. Seis dias na semana, com um dia livre para te ajudar a manter a sanidade. Só tem outras três famílias por aqui agora. Estamos bem isolados, o que significa que estamos seguros. Estamos presos com comida para pelo menos um mês. Podemos arrumar uma maneira de pedir outros itens se precisarmos. Só estou pensando alto, mas esse me parece o melhor cenário para todos. Se você quiser voltar pra casa eu entendo totalmente. Mas se você ficar, eu dobro o valor da sua diária.” Eu estava pronta para aceitar no momento em que ele ofereceu. Ficaria grata só com um quarto para dormir. Mas ganhar dobrado, tempo integral ao invés de tempo parcial… “Ok”, respondi rapidamente. “Prefiro muito mais ficar aqui no lago do que voltar para o Brooklin.” Bryce suspirou aliviado. “Eu tenho muita sorte de você ter chegado aqui na hora que chegou, Veronica.” Eu sou a sortuda nessa história, pensei enquanto assistíamos as notícias na TV.
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