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1966 Words
Veronica Enquanto Bryce começava a preparar o jantar para os adultos, eu coloquei Oliver no cercadinho inflável e comecei a preparar sua comida. Conforme as recomendações de Bryce, preparei algumas fatias de banana, ovos mexidos e os restos de fatias de batata doce. Um copinho de leite com canudinho completava a refeição. Oliver comeu bastante, mas uma boa parte dela foi parar no seu babador e na sua cara. Ele balançava com felicidade e ria enquanto comia, um bom sinal de que ele não era tão exigente com a comida como Bryce havia pensado. “Ele é tão bagunceiro quanto o pai”, disse Liam enquanto ajudava Bryce a fazer o jantar. Bryce zombou. “Minha bagunça é artística. A dele é infantil.” “Pra mim dá na mesma.” Liam se curvou sobre o bebê. “Você consegue dizer Liam? Diga Liam para mim. Li-am.” “Pare com isso!”, disse Bryce. “Eu não vou deixar que você o ensine sua primeira palavra.” “Seria uma boa primeira palavra, na verdade, certo?” Liam me deu uma piscadela. “Muito melhor do que Bryce.” “Papai. Sua primeira palavra vai ser papai, ou papá, ou qualquer outra variação.” “Se você está dizendo, cara…” Limpei Oliver e o coloquei de volta no cercadinho inflável, de forma que o resto de nós pudesse jantar. O frango grelhado com penne parecia delicioso. Eu não tinha almoçado para conseguir chegar aqui a tempo e não tinha notado o quão faminta eu estava. Mas eu não queria parecer uma esfomeada, então servi apenas um pouco para começar e enchi o resto do prato com brócolis no vapor. Liam abriu uma garrafa de vinho branco e serviu quatro taças. “Então o que é que vocês estão fazendo aqui?”, perguntei quando começamos a comer. “É tipo um fim de semana do clube do Bolinha no lago?” Bryce engoliu uma colherada e limpou sua boca com um guardanapo. “Nós nos encontramos uma vez por ano pra passar algumas semanas no lago.” “Nós nos conhecemos na Drexel, na Filadélfia”, disse Pax. “Ficamos amigos durante a faculdade. Depois disso…” Ele se calou e olhou para os outros dois. “Costumávamos ser granes amigos, mas acabamos nos separando”, disse Liam. “Me mudei de volta para Londres.” “E essa casa no lago é tão incrível”, disse Pax, “que eu invento qualquer desculpa para sair de Filadélfia e dirigir até aqui.” Oliver gostava do que via e começou a balbuciar em língua de bebê. Eu sacudi meus dedos para ele e disse, “Me desculpem outra vez por pensar que vocês dois eram um casal. Em minha defesa, suas alianças são quase idênticas.” Os três olharam para seus dedos anulares, até mesmo Pax, que tinha o dedo visivelmente vazio. “Você pensou que eles eram gays?” “Bryce disse que eles eram parceiros!”, protestei. “Eu fiquei confusa!” “Hahahaha!”, Pax riu. “Vocês dois formam um belo casal, apesar de Bryce ser muita areia pro seu caminhãozinho.” Liam quase se engasgou com a comida. “Muita areia? Eu sou um arraso!” “Mas Bryce é o provedor”, Pax argumentou. “Você é o marido troféu.” Bryce deu uma risada. “Marido troféu… Eu tenho meus próprios meios!”, Liam protestou. “Minha galeria de arte em Londres é bem-sucedida!” “Graças ao seu s*********y”, provocou Pax. “Pare de dar corda… você o está encorajando”, Bryce respondeu. “É fácil pra você falar! Você não é o marido troféu na nossa relação de mentira!” “Considere um elogio”, eu me meti. Então perguntei ao Bryce, “Onde está a mãe do Oliver? Ela vem para a casa do lago?” Todos pararam de comer e um silêncio constrangedor pairou sobre a mesa. “Droga. O que foi que eu fiz?” “A mãe do Oliver, Amanda, faleceu.” “Oh não!” Eu pousei o garfo na mesa. “É isso. Não vou dizer nenhuma outra palavra durante o resto dos meus dias aqui. É a única maneira de evitar meter os pés pelas mãos.” “Está tudo bem”, disse Bryce gentilmente. Havia um sorriso triste brilhando em seus olhos castanhos. “Ela teve câncer no pâncreas. Eu ainda uso a aliança por puro hábito.” “Pâncreas…” Estendi o braço e apertei sua mão. “Sinto muito. Deve ter sido terrível.” “Sim, foi.” Pensei em contar a ele sobre minha mãe, mas eu não queria parecer mais miserável que ele, então apenas apertei sua mão mais uma vez. “Ela era uma mulher especial”, disse Liam. Ele pareceu ainda mais emotivo que Bryce. “Muito especial”, Pax completou com tristeza. Liam levantou sua taça de vinho. “À memória de Amanda.” Levantei minha taça junto com os outros. Os três homens lavaram a louça enquanto eu dava banho no Oliver. Ele amava tomar banho e passava o tempo espirrando água e jogando os brinquedos na banheira. Estava tão distraído com a brincadeira que me deixou lavar seus cabelos e limpá-lo sem problemas. “A menininha de quem eu tomava conta odiava banhos,” disse a ele. “Você é muito mais fácil.” “Abba dah!” Oliver concordou com alegria. Eu o sequei, coloquei uma fralda limpa e o vesti com seu pijama. Era azul com patinhos amarelos estampados. O levei para a sala de estar. Pax e Liam estavam vidrados na TV assistindo notícias sobre o vírus enquanto Bryce usava o telefone com fones no ouvido. “Qual é a rotina noturna do Ollie?”, perguntei. “História de ninar? Jogos?” “Histórias de ninar não funcionam pra ele. Eu geralmente o levo para um passeio. Tem uma trilha que segue o curso da água, mas não dá pra ser no carrinho, então eu uso o canguru, mas se for muito pesado para você…” “Eu já carreguei bebês mais pesados que Ollie,” disse. “Vou ficar bem.” Bryce fez um sinal positivo. “Se você precisar de alguma coisa, estarei no andar de baixo pintando.” Encontrei o canguru no corredor da frente. Tive que ajustar as alças porque meus braços eram mais finos do que os músculos de Bryce, mas deu tudo certo. Amarrei a parte de baixo na cintura, peguei Oliver e o segurei contra meu peito, e então puxei o resto do canguru para envolvê-lo. Mesmo sem ter meus próprios filhos, era incrivelmente natural para mim segurar um bebê contra o meu peito. Me parecia certo e me dava um sentimento materno que era maior do que quando eu alimentava, trocava fraldas ou dava banho. Minha mãe costumava chamar isso de coceira no útero. Me fazia querer ter meus próprios filhos algum dia. Algum dia, pensei. Se eu encontrar o cara certo. O sol estava se pondo atrás das árvores do outro lado do lago enquanto eu caminhei para a varanda. Desci dois lances de escada até a beira do lago. Saboreei o som calmo da água batendo na margem do lago. Ela ia e vinha, ia e vinha… Ali era tão sereno. Depois de viver no Brooklin por anos sem férias, eu tinha me esquecido o real significado da palavra paz. O caminho que Bryce sugeriu era pela direita. Ele levava às árvores e seguia pelo lago, bem no limite da floresta. O ar estava frio e estalava quando comecei a caminhar. O cheiro dos pinheiros estava forte no ar, misturado a outros mil aromas da terra que dançavam e entravam pelas minhas narinas. Em questão de minutos comecei a relaxar. Todo o stress e as preocupações das semanas anteriores se esvaíram. Em algum lugar distante uma coruja piou. Era difícil acreditar que uma pandemia assolava o resto do mundo. Eu não podia acreditar na minha sorte. Eu finalmente tinha um emprego e graças à pandemia era em tempo integral ao invés de parcial. Se minha entrevista tivesse sido duas horas mais tarde, eles provavelmente nem me deixariam entrar na casa nem teriam me contratado. As últimas semanas foram as mais difíceis da minha vida. Ser demitida do trabalho de babá, parar o carro no estacionamento do shopping para dormir, usar um passe-livre na academia para tomar banho de manhã, ser muito orgulhosa para voltar para a casa do meu pai porque eu não queria que ele soubesse o que aconteceu… não até que eu estivesse com tudo resolvido de novo. Agora eu estava hospedada em uma casa do lago que valia milhões, comendo massa fresca, bebendo bons vinhos e indo caminhar na floresta com Oliver preso ao meu peito. Uma loucura pensar em como as coisas mudam rápido. Caminhei por vinte minutos em uma direção e depois voltei. Ollie dormiu rapidamente, pendurado docemente no canguru. Assim que a noite apareceu no céu acima de mim tudo parecia tão brilhante! Eu nunca tinha visto tantas estrelas quando morava na cidade. Quando voltei para a casa do lago, fiquei do lado de fora, esvaziando minha cabeça, olhando para o céu. Deixei meus olhos receberem aquela luz estrelada que eu nunca tinha visto antes. De frente, a casa do lago parecia que tinha um único andar, mas da parte de trás eu podia ver que ela se estendia em direção ao lago e o andar do subsolo aparecia abaixo do primeiro. Ele era todo de vidro e dava uma visão clara do seu interior durante a noite. Enquanto eu subia as escadas de madeira para a varanda, pude ver o que havia no andar de baixo. Era um estúdio de arte, vários lençóis brancos estavam espalhados por toda a parte e havia uma pilha de telas brancas no chão. Caixotes de madeira enchiam a parede esquerda. Uma tela do tamanho de um carro pequeno estava encostada na parede de dentro. Bryce estava de frente para ela. Ele vestia o que estava vestindo mais cedo, jeans e uma camiseta branca, mas havia mais manchas de tinta do que antes. Ele estava de costas para mim enquanto misturava dois tubos de tinta. Então se aproximou da tela e começou a dar pinceladas violentas que deixavam marcas vermelhas na tela, antes imaculada. Eram como feridas cortando a pele. Bryce voltou para os tubos de tinta. Parecia frustrado com a cor e seu cabelo preto balançava enquanto ele chacoalhava a cabeça, aborrecido. Finalmente, ele atirou o tubo de tinta longe e se sentou em um dos caixotes de madeira. Em seguida, pegou seu telefone e começou a ler alguma coisa. Parecia um bom momento para interrompê-lo, então bati gentilmente no vidro e abri a porta de correr. “Desculpe por interromper”, sussurrei. “Você quer dizer boa noite ao Oliver antes que eu o coloque na cama?” A expressão de aborrecimento sumiu e seu rosto se iluminou quando viu o filho. Ele se aproximou e se inclinou para beijar o bebê, que estava preso a meu peito, e gentilmente acariciou sua cabeça. Ele estava tão perto que eu podia sentir seu cheiro, uma mistura almíscar e tinta. Meu coração derreteu ao ver um pai que se preocupava tanto com seu filho. É a coceira no útero, a voz da minha mãe me provocava mentalmente. “Bons sonhos, Ollie”, disse Bryce. E então, para mim: “Depois de colocá-lo na cama, você pode voltar aqui? Eu quero te perguntar uma coisa.” “Claro!”, eu disse, e meu estômago se revirou de excitação pensando no que poderia ser.
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