💫THALYANE VIRELLI💫
O dia seguinte amanheceu claro, mas dentro de mim ainda havia sombras do que aconteceu na noite anterior.
Meus olhos ardiam pela falta de sono; depois de correr por quase uma hora e meia, eu ainda fiquei acordada a madrugada inteira, me entupindo de doces e café enquanto minha mente fazia o que sempre faz: girar, rodar, prender e repetir pensamentos até o limite.
Eu revivi tudo.
A forma como ele me segurou, como meus gemidos se misturaram aos dele e como por um instante ele pareceu despido de toda aquela frieza que carrega como armadura.
Alessandro parecia diferente, entregue e quase humano.
Mas, logo depois, a lembrança da forma como ele saiu do meu apartamento, da frase “talvez um dia eu queira repetir isso”, voltava como um tapa na cara.
Era ridículo como ele mexeu comigo… e me descartou com a mesma facilidade.
Eu não tenho muitas experiências com homens, mas as poucas que tive nenhum deles me rejeitou tão facilmente.
Pode soar egoísta da minha parte.
Ego, vaidade, chamem como quiser. Mas eu sou uma ótima companhia, quer dizer… na maior parte do tempo. Pelo menos eu acho que sim.
Será que tudo está só na minha cabeça, e eu fui apenas mais uma?
Mais uma peça substituível para um cara que domina cada ambiente que entra?
Eu estudei casos assim. Leio romances tóxicos, analiso relações doentias, consumo histórias e testemunhos, eu sei exatamente quem é Alessandro. Tudo em mim grita que aquele afeto, aquele olhar que parecia atravessar minha alma… podia muito bem ser manipulação pura.
Ele é bom nisso, na verdade é perfeito nisso e talvez eu já estivesse presa na teia sem perceber.
Na faculdade, tudo parecia surreal. As pessoas conversavam, as cadeiras arrastavam, os lápis riscavam, e nada daquilo fazia sentido. Cada palavra da professora se misturava ao som abafado do meu próprio coração batendo mais rápido do que deveria.
Respirei fundo, peguei a caneta e juro que tentei focar.
Mas era difícil imaginar reações químicas ou teorias psicológicas quando minha mente insistia em voltar pra ele.
Eu piscava devagar, lutando contra o sono, contra a dor no peito e contra a sensação de que uma parte de mim ainda estava lá, presa na noite anterior. E, mesmo assim, mesmo com todos os avisos internos que eu conheço tão bem… Alessandro não saía da minha cabeça.
✨✨✨✨✨✨✨
Depois da aula, fui para o estágio. Não estava com fome, na verdade, só tinha café no estômago desde cedo e a dor de cabeça latejava tanto que parecia pulsar atrás dos olhos. Antes de começar meu turno na Clínica Solares, eu precisava estar com a mente clara para avisar Marcos sobre minha decisão.
Entrei na sala de descanso reservada aos funcionários, um espaço silencioso e frio demais para o meu gosto, mas perfeito para desligar por alguns minutos.
Deitei no pequeno sofá, me obrigando a parar, a respirar, a existir sem pressão por alguns instantes. A cabeça doía como se eu tivesse atravessado um dia inteiro quando, na verdade, eram só horas. Fechei os olhos por um instante ou pelo que imaginei ser um instante.
Quando abri de novo, o relógio marcava 47 minutos depois.
Meu corpo reagiu primeiro com um sobressalto, seguido por um suspiro profundo.
Mesmo tendo dormido tão pouco, eu me sentia carregada a 100%, como se alguém tivesse reiniciado meu sistema.
A mente finalmente estava limpa, e pronta para falar com o Dr. Marcos.
Levantei-me, ajeitei o cabelo, respirei fundo e fui para o consultório. Ele me recebeu com o habitual sorriso acolhedor.
— Boa tarde, Thalyane. Como foi a aula hoje? — Perguntou, com aquele interesse genuíno que me constrangia e me colocava no lugar ao mesmo tempo.
— Boa tarde, Dr. Marcos. Foi produtiva, mas… — hesitei, lembrando que ele não precisava saber sobre Alessandro. — …hoje queria conversar sobre a proposta que você mencionou.
Ele inclinou a cabeça, atento.
— Claro. Pensou melhor sobre isso?
— Sim. — Respirei fundo, tentando manter a firmeza. — Agradeço muito pela oportunidade, mas… não me sinto pronta. Sou nova demais, ainda tenho muito a aprender. Quero focar nos estudos e no que posso absorver aqui com você antes de assumir uma responsabilidade tão grande.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, me analisando com aquela calma que sempre me desmontava por dentro.
— Entendo, Thalyane. — Disse por fim, com um sorriso tranquilo. — Não é fácil tomar decisões como essa, mas reconheço a maturidade da sua escolha. O importante é que você esteja preparada quando chegar a hora.
Meu peito soltou o ar preso e senti um alívio que quase me fez sorrir.
— Obrigada, Dr. Marcos. Aprender com você tem sido mais importante para mim do que qualquer oportunidade para a qual eu não esteja pronta.
— E quanto a Alessandro? Ele teve influência em sua escolha? — Perguntou com uma sutileza que me fez engolir em seco.
—Alessandro… não — murmurei, cuidadosa. — Essa decisão é minha.
Marcos sorriu, e aquele sorriso carregava aprovação, confiança… e uma espécie de orgulho silencioso.
— Fico feliz em ouvir isso. — Sua voz era firme, mas suave. — É importante reconhecer seus limites e respeitar seu tempo. Muitos se perdem na pressa de avançar sem estarem prontos.
Assenti, sentindo a determinação crescer. Marcos tinha esse efeito em mim, ele tornava o caos compreensível, organizável, respirável.
— Obrigada. — Repeti. — Quero aprender antes de me arriscar e entender melhor como lidar com os pacientes, como você faz.
Ele cruzou os braços, ainda atento a cada nuance da minha expressão.
— Esse é o primeiro passo para se tornar uma profissional consciente. Saber dizer “não”. Reconhecer que certas situações com pessoas ou com decisões importantes … não devem ser enfrentadas sem estratégia.
A frase ficou ecoando dentro de mim. Alessandro o veio à mente como um impacto. Mas hoje… hoje eu tinha escolhido minhas regras.
Hoje eu ainda mantinha o controle.
— Entendi. — falei, com a voz firme.
Ele sorriu de novo, desta vez mais leve. E aquela aprovação silenciosa foi exatamente o que eu precisava para sustentar minha própria decisão.
Mesmo sabendo que, mais cedo ou mais tarde, Alessandro voltaria a ser meu ponto fraco, naquele instante eu tinha vencido uma batalha interna. Eu ainda podia escolher minhas próprias peças e traçar meus próprios limites.