PONTO DE VISTO DE THALYANE VIRELLI
Eu estava organizando a sala para a próxima sessão quando ouvi passos firmes no corredor.
Pensei que fosse algum paciente… até que a porta se abriu.
E lá estava Alessandro. Surgindo literalmente do nada.
Terno preto impecável, gravata azul marinho ligeiramente afrouxada, olhar gelado e, como sempre, aquele perfume amadeirado com notas de canela que parecia me seguir mesmo nos sonhos.
Nos últimos quinze dias, ele estivera fora em uma viagem de negócios. Durante todo esse tempo, as mensagens dele chegavam diariamente, lembrando-me, de forma constante e insistente, de sua presença mesmo à distância.
— Olá, Thaly — disse, como se não tivesse desaparecido por semanas.
Senti que meu coração acelerou, minhas mãos ficaram frias.
— O que está fazendo aqui? — Perguntei, tentando manter a voz firme.
— Eu disse que voltaria mais cedo se me provocasse — respondeu, com aquele meio sorriso que nunca alcançava os olhos.
Antes que eu pudesse retrucar, o Dr. Marcos entrou na sala carregando alguns relatórios.
— Thalyane, você… — Ele parou abruptamente ao ver Alessandro. — Ah… não sabia que tinha visita.
Alessandro se virou lentamente para ele, avaliando cada gesto, cada reação, como um predador estudando outro macho em seu território.
— Vejo que continua trabalhando demais, Veylor — comentou Alessandro, estendendo a mão com um sorriso discreto.
Marcos retribuiu o cumprimento com a mesma firmeza. E, no instante em que os dois se encararam, o ambiente pareceu ganhar uma tensão silenciosa.
— Nem tanto. — Marcos sorriu de leve. — Inclusive, Moretti… obrigado por indicar a Thalyane. Ela é exatamente o que estávamos procurando. Talvez até mais.
Alessandro sustentou um sorriso elegante, embora o brilho frio nos olhos dele denunciasse algo menos cordial. Eu percebi.
— Fico satisfeito em saber que ainda tenho bom gosto para reconhecer talentos. — A voz dele saiu calma, precisa. — Quando decido apostar em algo, raramente estou errado.
— Imagino que sim — respondeu Marcos, sem desviar o olhar. — Ela é excelente no que faz.
— Ela é excelente em muitas coisas — Alessandro murmurou.
Então seus olhos encontraram os meus.
E o jeito como ele disse aquilo carregava significado demais. Senti o calor subir pelo meu rosto imediatamente.
Marcos já tinha entendido que existia algo entre mim e Alessandro — algo que ultrapassava apresentações ocasionais ou coincidências sociais.
— Eu preciso conversar com a Thalyane a sós — disse Alessandro. O tom firme deixava claro que aquilo estava longe de ser um pedido.
Marcos sustentou o olhar dele sem alterar a postura.
— Lamento, mas ainda preciso da ajuda dela para finalizar alguns relatórios.
A resposta veio calma, mas igualmente firme.
Alessandro deu um passo à frente, aproximando-se de mim o suficiente para tornar impossível ignorar sua presença.
Então deixou escapar um sorriso lento, quase provocativo.
— Então eu espero. Não tenho pressa.
O restante da tarde tornou-se sufocante.
Ele permaneceu na recepção da clínica como se aquele lugar também lhe pertencesse, os olhos verdes me seguiam a cada movimento, cada conversa trocada com Marcos, cada vez que eu cruzava o corredor.
E eu sentia aquilo o tempo inteiro.
O peso constante da atenção dele sobre mim.
Quase como se estivéssemos respirando o mesmo ar.
Quando finalmente o expediente terminou, Alessandro se aproximou outra vez.
— Vamos. — Abriu a porta da clínica para mim, natural demais em sua autoridade silenciosa.
— Eu não vou a lugar nenhum com você — retruquei, cruzando os braços.
Ele inclinou levemente a cabeça, analisando meu rosto com aquela falsa calma que sempre parecia esconder alguma coisa.
— Thalyane… não me desafie.
Meu coração disparou imediatamente. Ele estava diferente. Mais sombrio.
E justamente por isso, ainda mais impossível de ignorar.
— Por que você me indicou para essa vaga? — Perguntei em voz baixa, incapaz de esconder completamente a curiosidade.
Alessandro diminuiu a distância entre nós, e o perfume amadeirado invadiu meu espaço de novo.
— Porque você merece estar em um lugar onde possa mostrar tudo o que tem. — O meio sorriso surgiu no canto da boca dele. — E, sinceramente… eu queria ter certeza de que você estaria exatamente onde deveria estar.
Um silêncio denso se instalou entre nós, saturado de intenções que nenhum dos dois ousava verbalizar.
— Então… você se infiltra na minha vida profissional só para me provocar? — Perguntei, tentando soar firme, embora minha voz traísse uma leve oscilação.
Ele sorriu. Não era gentil, nem casual. Era afiado, perigoso, calculado para me desestabilizar.
— Se isso te mantém perto… — respondeu, pausando exatamente no momento certo — então talvez seja exatamente isso.
Soltei um suspiro impaciente e revirei os olhos, tentando disfarçar o impacto que aquelas palavras tiveram em mim — sem sucesso algum.
Saímos da clínica e Alessandro caminhava ao meu lado como se a rua inteira lhe pertencesse — mãos nos bolsos, postura tranquila demais, olhar fixo à frente.
A cada passo, a irritação crescia dentro de mim, comprimida, implorando por saída.
Quando chegamos ao estacionamento, parei de repente.
— Alessandro, nós precisamos conversar. Agora.
Ele ergueu uma sobrancelha, e um esboço de sorriso lento surgiu, quase satisfeito.
— Finalmente… achei que você fosse tentar me evitar até em pensamento.
Cruzei os braços, ancorando firmeza no corpo.
— O que você fez hoje foi inaceitável. Essa vigilância disfarçada de acaso. Eu não sou um projeto seu, não sou sua funcionária e, muito menos, sua propriedade.
O sorriso perdeu intensidade, mas não desapareceu por completo.
— Thaly, eu só estava cuidando de você.
— Cuidando? — Soltei uma risada curta, áspera. — Isso não é cuidado. É sufocamento. Você some, reaparece como se nada tivesse acontecido, e acha normal surgir no meu ambiente de trabalho para me medir, me observar, me intimidar?
Ele deu um passo à frente. A voz veio baixa, firme, carregada daquele perigo que ele sempre dominava tão bem.
— Eu não estava te intimidando. Só estava te lembrando de quem você é para mim.
— Alessandro, escuta com atenção — respondi, cada palavra medida, afiada. — Eu até entro no seu jogo. Suporto as provocações. Às vezes… até gosto. Mas me observar, seguir meus passos, interferir na minha vida profissional? Isso não. Ou você para agora, ou eu corto você da minha vida de vez.
Ele me estudou, imóvel, como se estivesse ponderando rotas, perdas, consequências. Depois de alguns segundos, soltou um suspiro e tirou uma das mãos do bolso.
— Você não faz ideia do que está pedindo.
— Sei exatamente — mantive o olhar firme. — Se quiser continuar por perto, vai ter que respeitar meus limites.
O silêncio que se formou entre nós era quase tangível, vibrando com uma tensão que poderia cortar. Ele parecia dividido: ceder ou avançar ainda mais. Por fim, falou:
— Está bem, Thaly.
O modo íntimo como pronunciou meu apelido não trouxe alívio algum. Soou como promessa. E como ameaça.
— Mas não esqueça — continuou — quando você estiver pronta para parar de fugir, eu vou estar lá.
Ele se afastou e entrou no carro preto que o aguardava. Fiquei parada, sentindo o peso daquele confronto se acomodar nos ombros.
Parte de mim queria acreditar que ele respeitaria. A outra parte — a mais lúcida — sabia que Alessandro Moretti não era homem de obedecer às regras que não fossem criadas por ele mesmo. Ainda assim, ao menos, meus limites haviam sido claros.