Ponto de vista Thalyane Virelli
A última prova terminou às onze e meia da manhã. Quando entreguei a folha e atravessei a porta da sala, tive a sensação física de soltar uma mochila cheia de pedras que eu carregava havia semanas.
— Acabou… — murmurei para mim mesma, deixando escapar um quase sorriso no corredor.
Em vez de voltar direto para casa, decidi me dar um presente ou alguns. Eu merecia. Primeira parada: minha perfumaria favorita.
O vendedor me reconheceu de imediato e abriu um sorriso cúmplice.
— Dia especial, Thalyane?
— Dia de comemorar que eu sobrevivi às provas — respondi.
Passei mais de uma hora entre frascos, borrifando o ar com notas florais, amadeiradas, adocicadas.
Cada aroma despertava sensações diferentes, pequenas lembranças, estados de espírito que pareciam se encaixar em partes distintas de mim.
Minha coleção já ocupava uma prateleira inteira no quarto, mas sempre havia a impressão incômoda de que algo ainda faltava.
Escolhi três fragrâncias novas: uma delicada e romântica, outra envolvente e misteriosa, e a terceira… provocante, quase insolente.
Talvez fosse exagero, mas eu nunca soube parar em uma só.
A cada borrifada, a cada embalagem luxuosa nas mãos, sentia uma alegria súbita, contagiante que abafava o mundo lá fora e fazia todo o resto perder importância.
No fundo, eu sabia que gastava mais do que deveria, que parte daqueles frascos acabava esquecida no fundo da prateleira. Mas, naquele instante, nada importava além do prazer de sair da loja com uma sacola cheia.
Uma pontada de arrependimento surgiu, rápida, mas logo foi abafada pela expectativa de abrir as caixas novas assim que chegasse em casa.
Segunda parada: uma boutique de lingerie. Ali, algo diferente em mim despertou. Antes, só perfumes e festas me davam essa sensação elétrica e viciante.
Mas agora, ao tocar os tecidos macios, rendas finas e cortes ousados, senti outro tipo de prazer. Era como se cada peça fosse parte de um segredo, uma arma silenciosa.
Acabei escolhendo três conjuntos — preto, vinho e um azul profundo que nunca tinha usado antes.
Só de imaginar o impacto que causariam, principalmente se Alessandro algum dia me visse usando, meu coração acelerou.
Era como se, mesmo sem querer, eu estivesse entrando ainda mais no jogo dele e esse bendito pensamento… me empolgava de um jeito perigoso.
Caminhando até o carro de aplicativo, senti uma estranha leveza.
Por algumas horas, não havia provas, estágio ou a presença sufocante dele.
Em casa, coloquei as compras sobre a cama e experimentei tudo, só para mim mesma.
Olhando no espelho, senti algo diferente: como se estivesse me reconectando comigo… ou talvez descobrindo uma versão nova, mais ousada, mais viciada na sensação de poder. Foi aí que o celular vibrou.
Alessandro: Aproveite seu descanso, Thaly. Você vai precisar de energia para o que preparei.
Segurei o celular por um instante, o ar preso no peito, sentindo aquele frio e calor misturados que só ele conseguia provocar.
Guardei o celular e me joguei no sofá, e por algumas horas, ainda que pequenas, o mundo parecia meu… mas eu sabia que essa pausa não duraria.
Eu estava no sofá, pernas cruzadas, revisando mentalmente a lista de compras enquanto sorria sozinha. Os frascos novos já ocupavam a prateleira, alinhados por cor e intensidade.
Tinha acabado de borrifar o mais provocante — notas orientais, um fundo adocicado — quando a campainha soou. Meu coração acelerou de antecipação e corri para abrir a porta.
— Posso entrar? — Perguntou, já avançando, sem realmente esperar resposta.
Seu olhar percorreu o ambiente e, inevitavelmente, encontrou o meu. Aproximou-se até que a distância entre nós se tornasse irrelevante. Inclinou levemente a cabeça, aspirando a curva do meu pescoço.
— Esse perfume… — murmurou, baixo, como se quisesse guardar aquilo só para si. —É novo.
— Talvez — respondi, mantendo o tom neutro, apesar do arrepio imediato na pele.
Ele sorriu de lado. Não mostrou todos os dentes, mas o suficiente para deixar claro que estava satisfeito.
— Está perigosa, Thalyane. Mais do que antes.
— E você continua confiante demais para achar que sabe lidar com qualquer perigo — rebati.
— Não é confiança… — deu mais um passo, e o calor do corpo dele se fez presente. — É certeza.
— Você está diferente… e ainda não decidi se gosto mais assim… ou se prefiro te provocar até você voltar a ser a Thalyane que morde o lábio para não ceder.
— Talvez eu seja as duas — respondi, cruzando os braços, sem recuar.
Ele riu baixo, satisfeito, como se aquela fosse exatamente a resposta que esperava.
— Nesse caso, vou ter que descobrir qual delas é mais perigosa para mim.
Alessandro não perdeu tempo.
Assim que se acomodou na poltrona, como se fosse o dono do meu apartamento, pegou o celular e digitou algo rápido.
O jeito dele de sempre planejar, criar cenários e fazer com que as pessoas acabem agindo como ele quer… mas dessa vez, eu não deixaria ser tão fácil.
— O que está armando? — Perguntei, erguendo uma sobrancelha, sentindo os dedos se contraírem levemente no braço da cadeira.
— Surpresa — respondeu, tom baixo, carregado de intenção. — Quero te levar a um lugar hoje.
— E por que eu iria? — Cruzei as pernas devagar, percebendo que ele acompanhava cada movimento. — Não gosto de convites sem detalhes.
Ele sorriu. Aquele sorriso que escondia desafio e provocação ao mesmo tempo.
— Porque eu pedi… e porque você quer.
— Errado — retruquei, inclinando o corpo para frente. — Eu só vou se eu quiser, e não porque você acha que sabe o que passa na minha cabeça.
— Thaly… — disse, pronunciando meu apelido com aquela entonação que sempre me desarma. — Não sei se você está tentando me deixar louco ou se realmente não percebe o que faz comigo.
— Talvez seja as duas coisas — respondi, mantendo o olhar firme. — Mas não se engane, Alessandro. Eu não sou peça do seu jogo. Se quiser jogar, que seja com as minhas regras também.
Ele inclinou a cabeça, avaliando cada palavra como se fosse uma pista em um tabuleiro que ele já conhece.
— Então vou ter que me adaptar.
— Vai, sim — disse, levantando-me, sentindo o coração acelerar. — E, por enquanto, ainda não decidi se vou aceitar esse seu convite misterioso.
Um leve tremor percorreu minha espinha. Eu sabia que ele não ia desistir.
Cada minuto com Alessandro era um teste, e conhecendo-o, o próximo movimento dele jamais seria previsível. Ele se levantou também, mantendo a distância mínima, aquela que permitia notar o calor dele sem que houvesse contato.
— Então… que comece o jogo — murmurou, quase para si mesmo, com um sorriso que era ao mesmo tempo promessa e desafio.
Alessandro se levantou e caminhou até a porta com aquela confiança arrogante que sempre me deixava em alerta.
Antes de sair, parou, olhou diretamente nos meus olhos e disse, com a voz grave e controlada:
— Thaly… vou esperar pelo seu sim. Não me faça esperar mais do que posso suportar. Quando decidir, estarei aqui. Mas saiba: cada segundo de hesitação só aumenta a intensidade do que te espera.
Mesmo depois que a porta se fechou, o ar parecia ainda vibrar com a presença dele. Fiquei parada, coração acelerado, absorvendo a tensão que ele deixou para trás.
Essa relação era estranha… parece que estamos sempre girando em círculos.
Um dia é tudo, no outro, nada.
E, mesmo sabendo que vai me quebrar, não consigo parar de querer.
É loucura, mas é viciante demais.
No fim da tarde, depois de horas ponderando sobre a proposta dele, respirei fundo e enviei uma mensagem curta: Ok. Eu vou.
Sem detalhes. Sem emojis. Sem perguntar para onde iríamos. Eu sabia que aquilo o deixaria inquieto. E, sinceramente, era exatamente o que eu queria.