Thalyane Virelli
Passei horas tentando convencer a mim mesma a ignorar aquele cartão. A razão gritava que seria loucura.
A curiosidade, porém, crescia em cada vez mais, ocupando cada fresta da minha mente.
No fundo, eu já sabia a resposta.
Eu iria.
A noite caiu sobre a cidade como um manto pesado, denso, quase sufocante. O ar abafado tornava tudo ainda mais estranho, como se cada detalhe estivesse fora do lugar.
A cada quilômetro que o carro avançava, aquela voz insistente do bom senso voltava a me cutucar.
O que eu estou fazendo?
Encontrar um desconhecido, sozinha, e ainda por cima à noite… como se isso não fosse, por si só, uma péssima escolha.
Eu só podia estar ficando louca mesmo.
O endereço me levou a um prédio discreto, fachada antiga, portas escuras sem nenhuma placa. Não era um café, nem restaurante. Era algo mais… privado, ainda sim continha uma elegância de quem tem dinheiro.
Respirei fundo antes de tocar a campainha.
A porta se abriu quase de imediato, revelando um corredor estreito iluminado por luzes quentes, embalado por música instrumental suave.
Ele estava no final do corredor.
Terno preto, camisa aberta no colarinho, como se tivesse acabado de sair de uma reunião importante ou, quem sabe, de um lugar onde mandava mais do que pedia.
— Você veio. — Disse.
Não havia surpresa na voz. Apenas certeza.
— Achei que… — comecei, mas as palavras morreram antes de ganhar forma.
— Não pense. — Ele deu um passo para o lado, abrindo passagem. — Apenas entre.
Prendi a respiração diante da naturalidade arrogante com que ele dizia aquilo.
Atrás dele, o ambiente era amplo, paredes de madeira escura, uma lareira acesa lançando sombras dançantes pelo chão. O cheiro de vinho e madeira queimando preenchia o ar.
Ele me estendeu uma taça.
— Vai ajudar você a relaxar.
Aceitei.
O vinho deslizou quente pela garganta, e meus olhos vagaram pelo espaço: estantes cheias de livros, de longe vi que alguns eram sobre psicologia, filosofia… e alguns títulos antigos, que eu não reconheci.
— Gosto de entender como as pessoas funcionam — disse ele, notando que meus olhos percorriam cada centímetro do espaço. — E você, Thalyane, guarda algo que não mostra para o mundo. Algo só seu.
Apertei os dedos em torno da taça.
— E por que acha isso?
Ele se aproximou, passo após passo, até que quase não houvesse distância entre nós.
— Porque eu sei ler… mais do que palavras.
Meu coração acelerou. A lareira crepitava, e eu não sabia se o calor vinha do fogo ou de mim.
— Talvez você não queira saber tudo sobre mim — murmurei, tentando me proteger.
O canto da boca dele se ergueu.
— Ah, eu quero. — A voz dele era baixa, firme, quase uma promessa. — Mas a questão é: você está pronta para ser lida?
Foi então que, sem desviar os olhos dos meus, ele estendeu a mão como quem sela um pacto.
— Alessandro Moretti. — O nome soou com peso, como se eu já devesse conhecê-lo.
— E agora, você sabe exatamente com quem está lidando.
Quando seus dedos tocaram minha pele, um arrepio percorreu meu corpo inteiro, e precisei reunir todas as forças para não me sentir pequena diante dele.
Então ele recuou, como se o afastamento também fizesse parte do seu modo nada convencional de abordar uma mulher, e apontou para uma poltrona.
— Sente-se. Quero ver como você reage quando alguém está no controle.
Semicerrei os olhos, e as palavras ficaram ecoando na minha mente como um desafio lançado diretamente ao meu orgulho. Parte de mim queria se levantar naquele mesmo instante, atravessar a sala, abrir a porta e ir embora.
Nada daquilo fazia sentido. Era impulsivo, arriscado demais.
Eu poderia simplesmente voltar para casa e fingir que aquele encontro nunca tinha acontecido.
Mas havia a outra parte. A parte curiosa estava instigada, queria descobrir até onde aquele homem realmente iria e, principalmente, até onde eu estaria disposta a ir junto com ele.
A poltrona era macia, envolvente, quase perigosa.
Assim que me sentei, percebi que estava mais exposta do que gostaria.
O encosto baixo deixava meu pescoço vulnerável, e a posição me obrigava a manter os joelhos juntos, a taça equilibrada nas mãos como se fosse um escudo frágil.
Ele não se sentou. Preferiu permanecer de pé, caminhando lentamente ao meu redor, como quem avalia antes de decidir onde tocar.
— Sabe o que mais me atrai nas pessoas que estudam psicologia? — Perguntou, num tom quase casual. — Elas acreditam que controlam as próprias reações.
Mantive os olhos fixos na borda da taça, concentrada demais em parecer tranquila.
— E não controlam? — Respondi, surpreendendo até a mim mesma com a firmeza da voz.
— Só até alguém encontrar a chave certa.
Ele parou atrás de mim. Não o via, mas sentia sua presença com nitidez demais. O som da respiração era quase imperceptível e ainda assim suficiente para acelerar a minha.
— Eu poderia dizer agora exatamente o que você está sentindo — continuou — mas prefiro que me mostre.
O silêncio se adensou. A música ao fundo parecia mais lenta, o crepitar da lareira mais alto, como se o mundo tivesse encolhido até caber naquela sala.
— Como? — Perguntei, mais baixo do que pretendia.
Ele se moveu até ficar à minha frente. O olhar era fixo, atento, como se cada microexpressão minha fosse uma resposta.
— Simples. — Disse. — Quero que me diga o que pensou quando me viu pela primeira vez. Sem filtrar. Sem omitir.
Prendi a respiração. Qualquer palavra poderia revelar demais… ou não o suficiente.
— Pensei… que você parecia perigoso.
— E isso afastou você?
Hesitei. O coração batia forte demais para mentir.
— Não.
O sorriso dele surgiu devagar, satisfeito — e perigosamente sedutor
— Então, Thalyane… você já começou a jogar.
Jogar? Que loucura é essa? Pensei.
Ele se inclinou, apoiando as mãos nos braços da poltrona, prendendo-me ali sem me tocar. Não havia contato direto, mas a proximidade tornava o ar mais denso, difícil de atravessar.
— A questão é… — murmurou — até onde você está disposta a ir para vencer?
Engoli em seco.
A luz dourada da lareira desenhava sombras móveis pelas paredes, como se a própria sala observasse em silêncio. Eu mantinha os olhos nele, tentando antecipar o próximo passo.
— Coloque a taça na mesa — disse, em tom baixo, carregado de autoridade.
Por um segundo, considerei não obedecer. Apenas para ver o que aconteceria.
Mas havia algo na forma como ele falava, era uma certeza de que eu seguiria a ordem. E, sem perceber, meus dedos já se moviam.
Coloquei a taça devagar, sem desviar o olhar.
— Muito bem.
Ele recuou um passo. Não para se afastar, mas para criar expectativa.
— Agora… levante-se.
Levantei. O calor da lareira misturava-se a um frio que corria sob minha pele.
Ele voltou a caminhar ao meu redor, observando-me como um analista diante de um caso raro.
— Você é observadora, controlada. — Parou ao meu lado, tão perto que o perfume dele me envolveu. — Mas existe uma parte sua que quer abrir mão disso.
Franzi o cenho.
— Isso é o que você acha. — Retruquei.
Ele sorriu de canto.
— Não. — Disse com calma absoluta. — Isso é o que eu sei.
Sem pedir permissão, seus dedos tocaram uma mecha do meu cabelo, enrolando-a brevemente antes de soltar. O gesto não foi íntimo o suficiente para ser invasivo — e justamente por isso foi tão eficaz.
— Psicologia é sobre limites — disse. — E eu quero descobrir os seus.
Cruzei os braços.
— E se eu disser que não tenho limites?
Ele se inclinou, a voz próxima demais do meu ouvido.
— Então, Thalyane… isso vai ser ainda mais interessante.
Algo estava sendo construído ali. Algo que eu ainda não compreendia totalmente, mas que já começava a me envolver.
Ele deu um último passo para trás e caminhou até a porta.
— Amanhã. Te espero aqui, no mesmo horário.
Saiu sem esperar resposta.
Fiquei sozinha no calor da sala… e no frio dos meus próprios pensamentos.
✨✨✨
Na manhã seguinte, acordei com a cabeça cheia dele.
Lembranças do olhar, do tom de voz, da sensação incômoda de estar sendo lida a cada instante. Passei o dia tentando ignorar aquilo, mas, quanto mais o tempo avançava, mais eu percebia que aquele encontro tinha mexido comigo.
Quando a noite chegou, o cartão com o endereço ainda estava sobre a mesa. Olhei para o relógio: faltavam quinze minutos.
Respirei fundo e decidi.
Não iria.
Eu não podia me dar ao luxo de me envolver em mais problemas, ainda mais agora que havia começado a morar sozinha, longe da minha antiga cidade.
Guardei o cartão dentro de um livro, fechei-o com força e me recostei no sofá, como se aquele gesto fosse suficiente para provar a mim mesma que ainda tinha poder de escolha.
Horas depois, o celular vibrou.
Número desconhecido.
Hesitei.
Mas atendi. Porque, sim, eu era uma curiosa incurável.
— Então resolveu testar o que acontece quando me diz não? — A voz dele veio calma, controlada.
— Eu não tenho obrigação de ir a lugar nenhum — retruquei, tentando soar firme.
Silêncio. Longo demais.
— Não, Thalyane. Não tem. — Ele respondeu num tom que parecia concordar… e, ainda assim, me fez duvidar de cada palavra. — Mas você deveria saber que escolhas têm consequências.
— Está tentando me ameaçar? — Perguntei, engolindo o desconforto.
— Não. Estou tentando ensinar. — E eu nunca repito uma ligação duas vezes.
A linha ficou muda antes que eu pudesse responder.
Fiquei parada, o telefone ainda preso entre os dedos.
Queria acreditar que tinha vencido ao resistir. Mas ele não parecia estar brincando. E era isso que, de verdade, me inquietava.