CAPITULO 04 - OBSERVADA

1660 Words
Thalyane Virelli O final de semana passou rápido. Aproveitei para dar uma geral no meu doce lar, organizar meu closet e me dei ao luxo de devorar chocolate como se não houvesse amanhã. Afinal, a semana tinha sido insana. Falei com minha mãe, que sempre estava preocupada, sem mencionar nada sobre Alessandro. Imaginava dona Rosa correndo para a delegacia para prestar um B.O. — ri só de pensar. Mas, por mais que tentasse ocupar a cabeça com mil coisas, a frase dele ecoava incessante: “O próximo passo não depende mais de você.” Um sussurro impossível de ignorar, grudado na minha mente, lembrando que, mesmo longe, ele ocupava meus pensamentos. Na segunda-feira, logo depois das aulas, recebi uma mensagem estranha de uma colega: falava sobre um “encontro especial”, aberto apenas para alguns convidados, em um espaço cultural no centro da cidade. O endereço era o mesmo do cartão que Alessandro havia me entregue dias atrás. Coincidência? Eu não acreditava em coincidências. Não depois do que ele falou. Quando cheguei, o lugar estava quase vazio. Um salão elegante, porém, intimista, iluminado apenas por abajures discretos. As cadeiras formavam um semicírculo no centro, e sobre uma delas repousava um dossiê preso por um clipe metálico. Ao me aproximar, notei algo que fez meu coração disparar: estava com meu nome. Hesitei antes de sentar. E, ao tocar o dossiê, meu corpo gelou. Eram informações sobre mim. Trabalhos acadêmicos, trechos das minhas redações, horários em que estive na biblioteca, até detalhes absurdamente pessoais: a forma como giro a caneta quando penso, o perfume que costumo usar com frequência. Pequenos gestos que jamais pensei que alguém pudesse reparar. Antes que eu pudesse reagir, ele entrou. Sem microfone, sem formalidade. Apenas a presença. — Boa noite. — A voz de Alessandro cortou o ar. Seu olhar passou pelos poucos presentes, mas logo se fixou em mim. — Hoje vamos falar sobre padrões comportamentais. Enquanto falava, caminhava devagar, como se cada passo fosse planejado. — Observar alguém não é apenas vê-la. É entender o que ela não diz. — Fez uma pausa, e sem desviar dos meus olhos, acrescentou: — E, às vezes, é descobrir que aquela pessoa foi… escolhida. Meu sangue gelou. Era como se as palavras fossem ditas só para mim, e todos os outros ali fossem apenas figurantes de uma cena que não compreendia. Quando terminou e todos começaram a sair, ele se aproximou. — Viu, Thalyane? Não importa quantos “nãos” você diga. Já estamos muito além dessa fase. — Pegou o dossiê da minha mão e o fechou com calma. — Eu conheço você. Mais do que você imagina. — Isso é invasão de privacidade — murmurei, tentando controlar a mistura de raiva e… outra coisa que queimava por dentro. Ele sorriu, mas sem humor. — Não. Isso é interesse. E interesse… é uma dívida que sempre cobro. Então, ele colocou uma pequena chave prateada em minhas mãos. — Amanhã. 22h. Você sabe qual porta ela abre. Sem olhar para trás, afastou-se. E foi então que percebi, com um frio no estômago, que realmente sabia a qual lugar aquela chave pertencia. Odiei a mim mesma por sentir meu coração disparar diante dessa certeza. Pelo menos, pensei, não era mais um cartão. Finalmente, ele havia inovado. ✨✨✨ Passei o dia seguinte inteiro carregando o peso daquela chave no bolso. Pequena, fria… mas estranhamente mais pesada do que deveria. Como na semana anterior, tentei me convencer a cada minuto de que não iria. Que jogaria fora e não cairia na armadilha. E, ainda assim, quando o relógio marcou 21h45, eu já estava a poucos quarteirões do endereço que conhecia de cor. O prédio estava quieto, iluminado apenas por uma luz amarelada na entrada. A porta de madeira escura parecia me esperar, paciente, como se soubesse que, no fim, eu viria. Respirei fundo e coloquei a chave na fechadura. O clique ecoou no corredor silencioso como um aviso tardio. Empurrei a porta. O espaço era amplo, as mesmas paredes de madeira escura e a lareira acesa da primeira noite. Mas agora havia algo diferente: cortinas pesadas fechavam todas as janelas, a iluminação era baixa, e no centro da sala havia uma mesa posta… com apenas uma cadeira. Ele estava ali. Camisa preta, mangas dobradas até os cotovelos, olhar fixo em mim como se cada segundo já tivesse sido planejado. — Você veio. — Não soava como surpresa. Era certeza. — Talvez eu só tenha vindo para dizer que não vou jogar o seu jogo — respondi, mas minha voz não soou tão firme quanto eu queria. Ele se aproximou devagar, parando a poucos passos de mim. — Thalyane… — disse meu nome como se pudesse prová-lo na boca. — …o jogo começou no dia em que você me olhou pela primeira vez. Agora, tudo o que fazemos é seguir as regras. Meu Deus, que homem arrogante. E eu? Provavelmente ainda mais perturbada que ele. Só pode. Olhei para a mesa. — E o que é isso? — Um teste. — Ele puxou a cadeira, indicando que eu me sentasse. — Quero ver até onde você consegue manter o controle. Hesitei, mas sentei. Ele se moveu até atrás de mim, e a proximidade fez meu corpo reagir antes que eu pudesse impedir. — Sabe por que eu a escolhi? — Perguntou, a voz grave, quase um sussurro. — Porque você não é previsível. E porque, mesmo quando foge, deixa rastros. Meu coração batia rápido, mas mantive os olhos fixos à frente. — E se eu me levantar e for embora agora? Ele se inclinou, a boca próxima ao meu ouvido. — Então vai passar o resto da noite imaginando o que aconteceria se tivesse ficado. Naquele instante, percebi algo que teimei em não admitir: ao atravessar aquela porta, eu já não seria mais a dona da minha saída. Resisti, tentei me manter firme… e, ainda assim, aqui estava eu de novo. O silêncio daquela sala era tão denso que parecia pesar sobre minha pele. Fiquei sentada apenas o tempo necessário para sentir o peso da expectativa dele. Então apoiei as mãos nos braços da cadeira, me levantei devagar e o encarei. — Acho que vou embora — disse, firme, sem pressa. — Não costumo jogar em tabuleiros onde não sou eu quem dita as regras. O olhar dele endureceu por um instante, e ficou claro que ele não estava acostumado a ouvir aquilo. — Interessante… — murmurou, movendo-se de lado, como quem recua sem realmente ceder. — Você acha que está saindo por escolha. Sorri de canto. — Não. Eu tenho certeza. Senti o peso dos olhos dele sobre mim, analisando cada gesto, como se pudesse me catalogar. Depois, respirou fundo e deixou o tom mudar. — Está me subestimando, Thalyane. A maioria aproveita a oportunidade de estar comigo. Você… se afasta. — Ele fez uma pausa, longa o suficiente para me prender por um segundo. — É isso me deixa mais interessado. Soltei um bufar de deboche e comecei a andar em direção à porta. — Então talvez seja melhor se acostumar à decepção. Minha mão tocou a maçaneta quando a voz dele me alcançou, baixa, mas carregada de algo que soava mais como promessa do que ameaça: —Você pode sair… mas isso não encerra nada. Não respondi. Apenas abri a porta e saí, levando comigo o calor da sala e a certeza de que, se algum dia voltasse, não seria como peça de um jogo, mas como alguém pronta para criar as próprias regras. A noite trazia uma brisa fresca, mas eu caminhava devagar, como se precisasse de cada passo para reorganizar os pensamentos. Ele era, sem dúvida, um homem que poderia ter qualquer mulher. Na própria universidade, havia tantas mais altas, mais exuberantes, mais dispostas a girar em torno dele como satélites ao redor de um sol. E, no entanto, foi a mim que ele escolheu. O que havia em mim que chamou tanto a sua atenção? Não era submissão, isso eu sabia. Pelo contrário. Talvez fosse justamente o fato de não ceder. Mas então… por que, mesmo resistindo, uma parte de mim sentia esse impulso quase perigoso de voltar? Pensei no primeiro olhar, no ônibus. Na forma como ele parecia não apenas ver, mas enxergar minha alma. E desde aquele dia, eu estava mais consciente de mim mesma. Era como se ele tivesse acendido um espelho interno, um reflexo que eu não tinha pedido para ver… mas que agora não conseguia ignorar. E então veio a pergunta que eu não queria formular: Será que o que me atraía nele era o controle que exercia sobre os outros… ou o que ele despertava dentro de mim, algo que nem eu mesma controlava totalmente? Ao me deitar naquela noite, encarando o teto escuro, entendi que a verdadeira razão pela qual ele me escolheu talvez fosse a mesma pela qual eu ainda pensava nele: Nós dois gostávamos de vencer. E, até agora, não estava claro quem estava ganhando. ✨✨✨✨ Três dias depois do meu último “encontro” com Alessandro, eu estava na cafeteria próxima à universidade, revisando minhas anotações, quando senti aquela presença antes mesmo de levantar os olhos. E senti que dessa vez, havia algo diferente no ar. Com passos lentos ele se aproximou. Não se sentou à minha frente, nem tomou a liberdade de pedir por mim. Apenas deixou um envelope sobre a mesa e disse, com a voz firme de sempre: — Hoje, as regras são suas. Sem esperar qualquer reação, virou-se e saiu. Revirei os olhos e abri o envelope. Dentro, um bilhete curto: “Endereço no verso. 21h. Quero ver o que você faz com o poder. ” Li e reli aquelas palavras. Ele, sem dúvidas, era estranho e essa obsessão por cartões já estava começando a me irritar. Se fosse apenas um convite velado para suas gracinhas de sempre, eu reconheceria. Mas aquilo… soava como mudança estratégica.
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