Ponto de vista: Alessandro Moretti
A porta se fechou.
E, junto com o som seco da madeira, algo estranho tomou o ambiente. Um vazio incômodo. Uma confusão silenciosa que eu não estava acostumado a sentir.
Thalyane não tinha apenas bagunçado meus planos. Ela tinha desmontado a lógica inteira do jogo sem nem perceber o que estava fazendo. Nenhuma mulher antes me obrigou a mudar estratégias tão rápido, recalcular palavras, medir distância ou pensar duas vezes antes de agir.
Com ela, tudo escapava do controle no instante em que eu acreditava ter vantagem.
Passei a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos, mas a inquietação continuava ali, queimando sob a pele. Aquilo era novo, desconfortável e ofensivo.
Meu padrão sempre foi claro.
Desejo, conquista… descarte.
Era simples assim.
Nenhuma mulher tinha permanecido tempo suficiente para alterar minha rotina, muito menos minha cabeça. Mas Thalyane conseguira isso em poucas semanas. Dezoito anos, emocionalmente caótica, impulsiva… e ainda assim capaz de me deixar preso em cada reação dela como se eu estivesse sempre esperando o próximo movimento.
O pior era perceber que ela talvez nem estivesse jogando.
Soltei o ar devagar, mantendo os olhos na porta fechada.
Cada escolha dela parecia me desafiar sem esforço. E eu odiava a sensação de não conseguir prever até onde aquilo iria.
Precisava agir antes que ela escapasse completamente do meu alcance.
Ou antes que alguém ocupasse um espaço que, na minha mente, já tinha dono.
Mas essa era a primeira vez em muito tempo que avançar parecia tão perigoso quanto recuar.
Continuei parado por alguns segundos, encarando o vazio deixado por ela.
Foda-se as regras.
Eu precisava fazê-la sentir.
Precisava que Thalyane experimentasse o peso de entrar no meu mundo sem reservas. Sem fuga. Sem distância segura para onde correr quando percebesse tarde demais o que eu era capaz de despertar nela.
No fundo, eu já sabia.
Se Thalyane Virelli se permitisse atravessar essa linha… ela não iria embora.
Ninguém vai embora depois de provar algo que faz o resto da vida parecer pequeno.
Passei os dedos pelo maxilar, sentindo a irritação ferver sob a pele.
Ela virou meu raciocínio do avesso. Transformou previsibilidade em impulso. E a pior parte? Eu queria mais.
Queria vê-la perder o controle só para descobrir até onde eu também perderia o meu.
Mesmo que a p***a do país inteiro pegasse fogo, eu ainda teria Thalyane hoje.
Não era mais sobre desejo.
Nem sobre conquista.
Virou questão de honra.
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Ponto de vista: Thalyane Virelli
Eu m*l tinha dado cinco passos pelo corredor quando ouvi os passos rápidos vindo atrás de mim.
Nem precisei olhar.
Alessandro simplesmente não suportava perder a última palavra.
— Thalyane! — a voz dele atravessou o corredor carregada de urgência.
Um sorriso escapou antes que eu pudesse esconder.
Era exatamente a reação que eu queria arrancar dele.
— Você não vai embora assim.
Continuei andando como se não tivesse ouvido, mantendo o passo firme, embora meu coração estivesse acelerado demais. A mistura de adrenalina e expectativa subia pela pele feito febre.
Então senti o braço dele envolver minha cintura.
Num movimento rápido, Alessandro me tirou do chão.
— Alessandro! — protestei, batendo de leve no ombro dele, tentando parecer mais irritada do que realmente estava. — Me coloca no chão.
— Não — murmurou perto do meu ouvido. — Hoje você não vai fugir.
Ele me carregou de volta pelo corredor sem se importar com os olhares curiosos dos vizinhos. O corpo inteiro dele estava tensionado, como se segurasse alguma coisa no limite de explodir.
Assim que a porta do apartamento se fechou, ele finalmente me colocou no chão. Só que não se afastou.
Meu corpo ficou preso entre Alessandro e a madeira da porta, sem espaço para respirar direito e, quando percebi, nossos lábios já tinham se encontrado outra vez.
Não parecia um beijo. Parecia uma disputa.
Raiva. Desejo. Frustração.
Sem delicadeza alguma.
Era como se estivéssemos descarregando semanas inteiras de provocações e recuos naquele instante.
Minhas mãos subiram pelo peito dele, sentindo o calor através da camisa. Empurrei de leve numa resistência completamente falsa. Meus dedos não demonstravam interesse nenhum em mantê-lo longe.
O ar ao redor parecia pesado demais.
Quente demais.
Alessandro deslizou os lábios pelo meu pescoço e respirou fundo contra minha pele, quase num gesto possessivo.
— Ah, Thaly… — a voz saiu rouca. — Você não faz ideia do que seu cheiro faz comigo.
Um arrepio subiu pela minha nuca.
— Faço, sim — respondi com um meio sorriso.
Segurei o rosto dele entre as mãos e puxei sua boca de volta para a minha, iniciando um beijo mais lento dessa vez. Provocador. Queria sentir até onde ele aguentava perder o controle.
— Você mexe comigo de um jeito absurdo — murmurou contra meus lábios.
Eu sabia.
E havia um prazer assustador nisso.
Meus dedos deslizaram pela nuca dele, afundando levemente nos fios escuros antes de puxá-lo o suficiente para obrigar nossos olhares a se encontrarem.
— E você ainda acha que está no comando, não é, Ale?
O sorriso torto apareceu no canto da boca dele. O mesmo sorriso que surgia sempre que eu o desafiava.
— Você adora brincar comigo.
Inclinei a cabeça, aproximando os lábios do ouvido dele.
— Sempre adorei. A diferença é que agora… você está perdendo.
O olhar dele escureceu. Alessandro me ergueu outra vez e me levou até o sofá, sentando comigo sobre o colo dele.
Os braços envolveram minha cintura com uma força quase sufocante e esse gesto me pegou desprevenida.
Alessandro Moretti estava apenas me abraçando.
Ele afastou meu cabelo devagar, os dedos quentes deslizando pela minha nuca enquanto me puxava ainda mais para perto.
— Hoje não vai ter joguinho, Thaly.
Estremeci quando a língua quente percorreu meu pescoço lentamente. Logo depois, os dentes roçaram minha pele numa mordida leve, arrancando um suspiro involuntário da minha garganta.
— Eu sabia… — murmurou satisfeito. — Sabia que você queria isso tanto quanto eu.
Minhas mãos começaram a percorrer os ombros dele, depois o peito, quase numa necessidade irracional de sentir que Alessandro realmente estava ali.
— Hoje você vai ser minha — sussurrou perto do meu ouvido, carregado daquela certeza arrogante que só ele tinha. — Nem que seja só por uma noite… você nunca vai me esquecer.
A pressão dos braços dele, o calor dos nossos corpos e a respiração descompassada entre nós empurravam tudo para um limite difícil de ignorar.
Colamos nossos lábios novamente e, pela primeira vez desde que tudo começou, eu não tentei controlar nada.
Deixei que Alessandro me puxasse para mais perto. Que conduzisse o ritmo. Que descarregasse em cada toque toda a tensão acumulada entre nós.
O mundo do lado de fora simplesmente deixou de existir.
As luzes da cidade, os vizinhos, os ruídos do corredor… tudo ficou distante demais para importar.
Naquele instante, não existiam provocações, disputas disfarçadas ou jogos psicológicos tentando decidir quem venceria no final.
Restava apenas a proximidade.
O calor.
O desejo sufocando qualquer tentativa de racionalidade.
Os dedos dele deslizaram pela minha cintura com firmeza, como se precisassem me manter ali, enquanto sua boca encontrava a minha outra vez, intensa e lenta ao mesmo tempo, arrancando de mim um arrepio que percorreu cada parte do meu corpo.
E havia algo perigosamente diferente nisso.
Alessandro não parecia querer apenas me provocar daquela vez.
Ele queria sentir.
Queria me consumir aos poucos, como alguém tentando decorar cada reação minha antes que o momento acabasse.
Pela primeira vez… não parecia uma guerra.
Parecia queda.
Uma queda bonita, quente e absurdamente perigosa e talvez o mais assustador fosse justamente isso.
Pela primeira vez desde que tudo começou… éramos apenas nós dois.