CAPÍTULO 28 - O INÍCIO DA PERDA

1516 Words
Ponto de vista — Alessandro Moretti A tela do meu escritório estava tomada por relatórios, gráficos e projeções financeiras, mas nada daquilo conseguia sustentar minha atenção por mais de alguns segundos. Desde a noite anterior, uma única frase permanecia ecoando na minha cabeça. "Então talvez seja hora de parar de fugir." Uma provocação simples mas eficaz. Recostei-me na cadeira, encarando os números à minha frente sem realmente enxergá-los. Tudo aquilo começou por causa de um problema no cassino, uma situação que deveria ter sido resolvida rapidamente e esquecida logo depois. Mas Thalyane tinha o péssimo hábito de permanecer na minha mente muito mais tempo do que deveria. O celular vibrou sobre a mesa com uma mensagem curta e objetiva dos contatos discretos que mantenho na Clínica Solares. "Doutor Marcos conversou em particular com Thalyane. Proposta para São Paulo." São Paulo. Então Marcos Veylor decidiu se intrometer na vida dela. Levantei-me e caminhei até a janela do escritório, a cidade seguia viva lá embaixo, indiferente aos assuntos que realmente importavam. Se Thalyane saísse daqui, não seria porque alguém decidiu isso por ela. E certamente não porque Marcos concluiu que poderia afastá-la do meu caminho com uma proposta profissional. Conheço homens como ele. Calmos, racionais demais, sempre assumindo a posição confortável de mentor equilibrado, como se compreendessem exatamente o que é melhor para os outros. Mas havia uma coisa que Marcos ainda não entendia: Thalyane não se encaixa em planos organizados por ninguém. Muito menos nos meus. Voltei para a mesa, apoiando as mãos na madeira escura enquanto tentava organizar os próprios pensamentos. Minha intenção sempre foi manter distância suficiente para observar com clareza. Conduzir tudo no meu ritmo, sem pressa, sem perder vantagem. Sempre funcionou. Mas a possibilidade de ela aceitar aquela proposta destruía qualquer sensação de controle. Antes que o bom senso tivesse tempo de interferir, peguei o telefone e liguei. A conversa foi pior do que eu esperava. Quando a ligação terminou, permaneci olhando para a tela apagada por tempo demais. Havia irritação, obviamente. Mas não era só isso. Era uma sensação estranha de instabilidade … algo que raramente experimentei na vida. Como se, pela primeira vez em muito tempo, alguma coisa importante estivesse escapando das minhas mãos. Passei os dedos lentamente pelo rosto e fechei os olhos por um instante. Ela realmente estava considerando ir embora e a simples ideia disso me incomodava mais do que deveria. Depois de pensar muito, tomei uma decisão: eu iria até ela. Quando cheguei, foi impossível não reparar. Mesmo na simplicidade, ela conseguia chamar atenção de um jeito irritantemente natural. Shorts jeans, uma blusa branca solta que desenhava as curvas do corpo e deixava evidente a ausência de sutiã, cabelo bagunçado, rosto limpo, sem maquiagem. Cruzei os braços por um segundo, forçando minha mente a voltar ao motivo da visita. Concentre-se, Alessandro. — Thaly, São Paulo vai te engolir. Eu conheço aquelas pessoas, sei como funcionam. — Dei um passo mais perto, sentindo o perfume doce dela misturar-se ao ar entre nós. — Você acha que terá controle, mas eles vão testar cada limite seu. Ela arqueou uma sobrancelha, o olhar carregado de desafio. — Engraçado… parece que estou ouvindo você falar sobre você mesmo. A provocação atingiu em cheio. Um sorriso surgiu nos meus lábios, lento, contido. Por dentro, porém, meu corpo reagia de outro jeito ... meus dedos queriam se mover, tocá-la, descobrir se ela cederia apenas com a minha presença ali. — Talvez. —Inclinei levemente a cabeça. — Mas a diferença é que comigo você sabe jogar. Com eles… pode perder sem perceber. — Ou ganhar. — Ela rebateu imediatamente, os olhos firmes. — Thaly… — minha voz saiu mais baixa, mais grave. — Não estou pedindo que você abra mão dos seus sonhos. Só estou dizendo que… talvez não seja a hora de ir para lá. Por um instante, vi o brilho nos olhos dela vacilar. Foi rápido, mas estava lá. Ela respirou fundo e se recompôs, voltando àquela postura firme que eu já conhecia bem. — Eu… vou pensar. — Disse por fim. A voz controlada, mas os dedos inquietos denunciavam o conflito. O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu queria tocá-la, puxá-la para perto, beijá-la até que aquela decisão desaparecesse completamente da cabeça dela. Mas sabia que qualquer movimento agora poderia fazê-la erguer ainda mais as defesas. E, pela primeira vez, uma percepção clara se formou na minha mente. Thalyane podia ser a mulher mais impossível que eu já tinha tentado conquistar. E era exatamente isso… que tornava impossível parar de tentar. 🖤🖤🖤🖤🖤🖤 Ponto de vista: Thalyane Virelli Eu sentia o peso do olhar dele me atravessando, como se estivesse avaliando se devia me puxar para si ou me afastar de uma vez por todas. Eu recuo um passo. Alessandro avança junto. Firme. Seguro. Como se minhas hesitações fossem exatamente o incentivo que ele precisava. — Thaly… — chamou. Meu apelido saiu de forma doce, mas havia uma hesitação no seu tom. Seria medo de me perder? Ou é apenas coisa da minha cabeça? — Não faz isso, Ale… — minha voz saiu baixa, mas decidida. — Não tenta me prender como se eu fosse realmente importante. Eu sei que, no fim, não passo de mais uma conquista. Ele deu outro passo, reduzindo o espaço entre nós até que a respiração quente dele tocasse minha pele, acelerando meu coração sem pedir permissão. — Importante ou não, Thaly… — murmurou, a voz densa, carregada de promessa e perigo — você está aqui, diante de mim. E isso já é mais do que eu consigo ignorar. Ele não se afastou. O calor do corpo dele parecia me cercar por completo, tornando difícil pensar com clareza. Eu ia responder, mas não tive tempo. A mão firme deslizou até minha nuca, e então Alessandro puxou meus lábios para os dele. O beijo veio intenso, quase desesperado como se toda a tensão acumulada entre nós finalmente tivesse encontrado uma saída. Meus dedos se fecharam na gola da camisa dele, trazendo-o ainda mais para perto enquanto eu me erguia na ponta dos pés, sentindo o corpo quente e sólido pressionado contra o meu. Havia raiva, desejo e frustração. Tudo misturado de um jeito perigoso demais para qualquer um de nós fingir indiferença. Quando o beijo começou a desacelerar, Alessandro não se afastou completamente. A testa dele permaneceu encostada na minha, a respiração ainda pesada entre nós. E foi nesse instante que percebi algo raro atravessar a expressão dele. Confusão. Meu coração i****a disparou outra vez. Porque, pela primeira vez desde que conheci Alessandro Moretti, eu tinha certeza de uma coisa: Ele também estava perdido. Bem-vindo ao clube dos confusos, pensei, tentando conter o sorriso que ameaçava surgir. — Não quero que vá embora, Thaly… — murmurou Fechei os olhos por um instante, absorvendo o peso daquela frase e o efeito que ele ainda tinha sobre mim. Afastei-me com cuidado, preservando o espaço entre nossos corpos. Se eu falasse naquele momento, minha voz denunciaria o emaranhado de receio, atração e vertigem que se agitava dentro de mim. Por enquanto, bastava reconhecer o que meu corpo já tinha escolhido… mesmo que minha mente seguisse outro caminho. Ergui o olhar para ele sem vacilar. A sala inteira parecia ter se organizado como um tabuleiro invisível, nós dois posicionados como peças prestes a colidir. O ar estava carregado não apenas de confronto, mas de uma excitação contida que me instigava a avançar mais um passo. — Isso foi bom, Alessandro… — comecei, a voz firme, quase provocadora. — Esse joguinho com você foi… interessante. Ele ergueu levemente uma sobrancelha. Os olhos verdes cintilaram entre curiosidade e desconfiança. — Mas — continuei cruzando os braços e sustentando o olhar — você não é o bastante para me manter aqui. Não houve explosão, nem reação imediata… apenas a rigidez súbita do corpo dele. O controle sendo recolhido às pressas para impedir que qualquer emoção escapasse. — Por isso — finalizei, sentindo a decisão se solidificar dentro de mim — eu resolvi. Vou para São Paulo. Ele permaneceu imóvel por um instante. Não disse nada. Mas era fácil perceber o turbilhão por trás daquela quietude: frustração, incredulidade… e aquela raiva contida que ele sempre mantinha sob rédeas curtas. — E mais — acrescentei, pegando minha bolsa no canto da sala — vou falar com o Marcos pessoalmente para acertar tudo. Caminhei até a porta. Cada passo carregava o peso de uma escolha recém-assumida. Antes de sair, olhei por cima do ombro. — Quando sair, feche a porta. Adeus, Alessandro. E saí. Nada ali foi impulso. Cada palavra, cada gesto havia sido pensado. Eu sabia que ele sentiria a vontade de me puxar de volta para o território que acreditava dominar. Mas, daquela vez, o jogo não era dele. Eu tinha definido minhas próprias regras. A porta se fechou atrás de mim. O eco do meu adeus ficou suspenso no ar não como uma despedida definitiva, mas como um aviso. Porque, por mais que Alessandro fosse um mestre em conduzir jogos… eu também sabia jogar. E se fosse para cair… que ele caísse comigo.
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