K A Y L A
Quando abri os olhos, senti a cabeça rodar e a luz me incomodar profundamente. Minha cabeça latejava forte, deixando bem evidente que eu havia levado muita p*****a.
Ainda com os olhos cerrados, virei a cabeça para o lado, encontrando Tony com os olhos fixos em mim.
— Desculpa, eu tentei baixar a luz, mas não consegui. — ele disse — Você sente dor?
Movi levemente a cabeça concordando e senti outra fisgada que me fez fechar de vez os olhos.
— Vou aumentar a dosagem do remédio. — o ouvi falar e, segundos depois, senti um pequeno alívio
— Tony, me desculpa. — balbuciei
— Sh, não foi sua culpa. — senti sua mão tocar a minha, então abri os olhos, encontrando os seus em mim — T'Challa só queria ajudar, embora não tenha ajudado.
— Eu não queria. Não queria mesmo.
— Eu sei. — ele beijou minha mão — Eu vou dar um jeito nisso.
— Não temos tempo, Tony. Precisamos invadir a base da Hidra ainda esta semana.
— Tem certeza?
— Tenho. — confirmo ainda segurando sua mão
— Sexta-Feira, chame Banner aqui para uma avaliação segura. Faça uma avaliação do melhor plano de ataque e reúna a equipe na sala de reuniões daqui à vinte minutos.
— Sim, chefe. — o programa respondeu
— Onde está Steve? — pergunto preocupada
— Você se lembra? — pergunto
— Poucas coisas. — engulo a saliva
— Ele está bem. Não se recuperou tão rápido quanto você, mas está ótimo. Pronto pra outra.
— Oh, não. Outra não. — sorri fraco — Onde está Ross?
— Ele é velho, tá um pouco arrebentado. — Tony dá de ombros — Mas vai ficar bem. Tá do outro lado do Complexo.
— Sabe que ir para a Áustria com ele aqui vai ser complicado.
— Calma, eu vou dar um jeito.
— Não quero complicar nada pra você.
— Deixa que eu resolvo, mulher. — ele diz impaciente e eu acabo sorrindo
— Só você mesmo.
Um silêncio se fez e ficamos nos olhando, ainda de mãos dadas. Só o que vinha em minha mente era sua voz calma dizendo que me amava. Aquilo serviria de mantra para mim até que eu morra. Nada importa para mim. O meu amor me ama.
— Com licença. — Bruce diz entrando — Me chamaram. — se aproxima e Tony solta minha mão, deixando-o ficar por perto
— Ela voltou. — diz
— Como se sente, Kayla?
— Melhor agora, que Tony aumentou a dosagem do remédio. Minha cabeça estava doendo muito.
— O soro que injetaram em você fez efeito muito rápido. Mais rápido que Bucky, até. Você não tem mais marcas profundas. Apenas um corte que atravessa os lábios.
— Ah, claro. Posso até ser uma assassina, mas o que importa é minha aparência. — faço graça
— Sexta-Feira me passou seus dados. Você já pode ter alta. — ele diz e eu me sento, ainda com a agulha no braço
— Estou toda suja. — olho para minha roupa completamente tomada de sangue
— Vá tomar um banho. — Tony diz enquanto um enfermeiro tira o remédio do meu braço
— Ok. — desço da cama
— Eu te acompanho. — Tony diz — Bruce, nos encontre na sala de reuniões.
Tony e eu vamos caminhando pelo Complexo e posso notar os olhares assustados de alguns funcionários. Tento ignorá-los.
— Eu mandei preparar um quarto para você ao lado do meu.
Sua frase me pega de surpresa.
— Sério?
— É. — ele diz me guiando pelo local — Fiz algumas ligações e montei seu guarda-roupas de acordo com o jeito como você sempre se vestiu. Não sei se você prefere couro preto e essas coisas de vilões, mas se você quiser eu mando trocar. — fez graça
— Fez tudo isso? Quanto tempo eu dormi?
— Umas quatro horas. — ele dá de ombros
Quando finalmente chagamos na ala correta do Complexo, no fim do corredor onde o quarto de Tony se encontrava, estava a porta do quarto que seria meu, agora. Quando ele abriu a porta, entramos e eu pude notar que tudo era num jogo de azul e branco que deixava tudo lindo. Não era um lugar imenso, era mediano. Tinha uma cama de casal, dois criados-mudo na cabeceira, uma poltrona num tom azul acinzentado e uma TV plana na parede. As prateleiras da parede tinham pouquíssimas coisas femininas.
— Depois você ajeita tudo aqui, tá? Só toma um banho e vai pra sala de reuniões.
— Tudo bem, eu me viro por aqui.
— Certo. Vou deixar você sozinha. — ele foi se afastando
— Tony? — ele se vira e me olha — Eu também amo você.
— Eu sei disso. — ele diz e sai, fechando a porta
Caminhei até uma das portas do quarto e entrei no pequeno espaço onde minhas novas roupas e sapatos estavam devidamente organizadas. Era incrível o que Tony podia conseguir com apenas um telefonema.
Entrei na outra porta e tirei minhas roupas, jogando-as no lixo. Me joguei debaixo do jato frio que saía do chuveiro e aproveitei cada segundo. Deixei que cada gotícula lavasse minha alma e fizesse o complexo de culpa descer pelo ralo abaixo.
De volta ao closet, vesti um jeans claro, uma regata preta e calcei as botinas pretas com cadarço. Penteei os cabelos e saí do quarto, indo rumo à sala de reuniões.
A sala de reuniões estava cheia de Vingadores tensos. Achei que, como toda missão, seria fácil caminhar de cabeça erguida, mas não foi. Assim que cruzei as portas do local e recebi olhares atentos, meus olhos ganharam um ímã com o chão que não os permitia se erguer.
Enquanto todos se acomodavam ao redor da mesa, eu me joguei no divã do canto, observando o holograma que estava no meio da mesa representando a base que iremos atacar. Respirei fundo e passei a mirar minhas unhas, que agora não tinha mais resíduos da carne do Rogers.
— Desculpem o atraso. — Steve entrou na sala e ouvir sua voz me transmitiu alívio
— Tudo bem. Eu consegui decodificar as informações que foram conseguidas e Sexta-Feira nos mostra dois planos de ataque. — a voz de Tony saiu carregada de cansaço
O cansaço na voz de Tony me fez pensar que é culpa minha e, pensar que é tudo culpa minha, fez minha mente divagar para uma época pouco distante.
Meu Mestre era um homem baixinho, magro e narigudo, de óculos redondos e sempre usava um jaleco branco com a estrela vermelha da Hidra no braço esquerdo, assim como a antiga estrela de Bucky. Eu não sabia qual era seu nome verdadeiro, pois eu apenas o chamava de Mestre.
"
— Muito bem, minha querida! — sua voz não mostrava sentimentos, mas um sorriso estranhamente retorcido estava em seu rosto — Você é nosso maior patrimônio.
— Mas... — eu pareci confusa, após nocautear e m***r um agente em treinamento — Eu não sou um lote de terra.
Senti sua mão áspera entrar em atrito com minha bochecha, assim que ele me deu um t**a forte no rosto. Eu virei o rosto para o outro lado e encolhi os ombros, enquanto olhava para o chão.
— Sabe que odeio quando me questiona. — sua voz ainda soava calma, mas o sorriso esquisito havia saído de seu rosto
— Perdão, Mestre.
— Venha! Vou te levar para uns reparos.
"
A base em que eu ficava, era grande e parecia uma caverna rochosa. Haviam partes escuras e o chão era cinza, como se um caminhão de concreto tivesse passado. Mas era um concreto liso, que me deixava cair, dependendo do que tivesse no chão.
Me lembro do dia em que o Mestre tomou meu corpo para si em um daqueles corredores cinzentos e escuros. Ele ordenou que eu não gritasse ou fizesse algum protesto. Eu passei o resto daquela semana trancada na minha jaula, após empurrá-lo quando repetiu o ato pela segunda vez. Sem comida, apenas água para manter meu corpo vivo. Eles ainda precisavam de mim, embora viviam dizendo que não.
"
— Você não vale mais que um pedaço de carne em minhas mãos, minha querida Preciosa.
"
Lembro-me de sua voz pacata enquanto passava a caneca de alumínio pelas grades da cela, causando um barulho ensurdecedor e derramando parte da água no chão.
"
— Ninguém nunca vai amar você, sua burra. Você não tem ninguém. Não há um lugar para você no mundo. — jogou o restante da água em meu rosto
"
— Kayla!
A voz de Tony fez com que eu pulasse no divã e o encarasse de maneira assustada. Odeio ficar divagando.
Notei que todos os presentes na sala me olhavam de um jeito estranho e eu encolhi os ombros notando a fina camada de suor que começava a se formar em meu rosto.
— Você está bem? — ouvi a voz de Natasha e baixei o olhar, buscando forças para me erguer ali
— Qual plano você prefere? — Tony perguntou
— O plano que incluir m******e e minhas unhas penetrando os olhos do Mestre de lá e não o corpo de um amigo. — me levantei do divã, formando uma pose carrancuda e apoiei a mão no ombro de Steve
— Estou bem, não se preocupe. — ele levantou a mão e tocou a minha
— Kayla, me desculpe por isso. Eu... — T'Challa começou a falar, mas eu interrompi
— Devemos cercar e penetrar a base. Tomá-la de dentro para fora. — o ignorei
— Uma estratégia digna de uma grande espiã. — Natasha comenta
— Eu sei. — olho para ela e ela sorri fraco. Devolvo com um meio sorriso
— Então está decidido. Atacaremos amanhã. Arrumem suas malas. — Tony dá a ordem
— Lembrem-se das lições que dei nos nossos poucos treinamentos. — digo antes que o grupo se disperse — Sejam rápidos, mas não famintos. Não ataquem para m***r logo de primeira, eles estarão esperando por isso. Três golpes e uma finalização. Jogo rápido, simples e vencedor.
— Quem vai atacar por dentro? — Sam pergunta
— Natasha, Bucky, Hill e eu.
— Como vocês entrarão lá? — Rhodes pergunta
— Vocês têm algo importante que os fará entrar.
— O quê? — Tony me olha
— Eu. — digo convicta — Vamos nos dividir em equipes. A minha equipe consiste em Nat, Bucky e Hill para um ataque interno. Mas, preciso de Wanda nos fundos, para se livrar dos guardas.
— Posso fazer isso. — Wanda concorda
— É, mas ela vai precisar de ajuda, pois quando virem Thor atacando pela frente, vão tentar fugir à qualquer custo. — Bucky se levanta e passa a delegar comigo
Olho para Bruce e ele me olha de volta. Seu olhar me transmite preocupação e advertência, mas logo se desmancha em apoio.
— Se tentarem fugir, o Hulk dará conta deles. — Banner diz e eu agradeço com o olhar
— Steve, Thor e o Gostosão de Wakanda abatem os da frente, enquanto Tony, Visão e Falc invadem pelo terraço. Sexta-Feira ficará encarregada de guiar os outros pelo labirinto que a base é.
— Vou programá-la para isso. — Tony diz
— O que você pensa que eu sou? — a voz do programa enche o ambiente
— Sei lá, às vezes te imagino meio morena, sabe? — Tony responde normal — Com cachos negros, corpo esbelto.
— Está descrevendo a senhorita Williams. — o programa responde e escondo o sorriso que tenta escapar de meus lábios
— É, talvez. — ele dá de ombros
— E depois que abatermos todos e pegarmos tudo o que você roubou? — Thor pergunta
— Aí, iremos a****r a base. — digo simples
— Como assim? — Rhodes pergunta
— Boom. — Tony faz um efeito sonoro
— Explosão? — Visão questiona
— Exatamente. — sorrio sombria
+ + +
Quando a noite chegou, eu me revirei como se um espírito das lamentações estivesse se apossando do meu corpo. Nem mesmo a cama extremamente macia era capaz de me prender e me fazer dormir.
Uma vez que a manhã havia chegado, eu fiquei observando o gramado do Complexo pela parede de vidro. Não sei direito quanto tempo fiquei ali, mas me despertei quando o notebook aberto em cima da cama apitou.
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# Dona : Preciosa? Você está bem? Sr. Verde houve alguma perda de memória? Ai, meu Deus! Me respondem logo, senão eu apareço nesse Complexo agora
# Preciosa : Calma, meu amor. Eu estou bem
# Sr. Verde : Já conversei com Wanda e Visão. Preciosa, acho que consegui a cura para você
# Preciosa : ah, que ótimo! Preciso ir agora.
# Dona : espera, Preciosa! Eu posso cancelar as buscas por aqui, então?
# Preciosa : creio que sim. Novamente, não sei nem como agradecê-la por isso
# Dona : apenas faça-o feliz
# Preciosa : tchau
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Vesti meu jeans do dia anterior, um canguru cinza e fiz um coque m*l feito no cabelo. Calcei as botinas e caminhei sem rumo pelo Complexo pensando nas palavras ditas pela minha salvadora.
Faça-o feliz.
Ela está pensando o que? Que Tony me aceitaria de volta, depois que soubesse toda a m***a que já fiz? As crianças que matei, as aldeias que destruí. Após a invasão de hoje, Tony ficará sabendo de toda a minha verdadeira história. Mesmo que após isso ele me aceite, Ross mandaria mais um esquadrão para me prender, pois com a Hidra fora do caminho, a prisão Balsa é meu destino.
— Kayla! — ouvi a voz de Tony ecoar no corredor vazio em que eu estava
— Oi. — disse baixo e me virei para ele
— Eu tenho uma coisa pra você. Vem ver. — ele disse pegando em minha mão e me guiando pelo lugar
— Oh... — disse surpresa — Tá.
Sem muita opção, eu apenas fui seguindo ele, até que chegamos em sua oficina. Tudo estava uma boa zona e suas olheiras me diziam que ele havia passado a noite ali.
Eu não o via empolgado assim desde o último ajuste em seu traje.
— O que foi, Tony? — perguntei
— Eu fiz um traje pra você. — ele diz me soltando — Sexta-feira.
— Sim, chefe. — aceita o comando
A parede se move e vejo um macacão todo branco num suporte especial. Ele era similar ao da Viúva n***a, mas era acompanhado de luvas longas e completamente liso.
Me aproximo e toco com receio, sentindo o couro do tecido.
— O pano de dentro é super confortável. Além do mais, tem partículas eletrônicas que te aquecem no frio e resfriam no calor. — ele explica — Quando você se movimenta, o pano estica e é bem maleável. Seu cinto de utilidades contém estes pequenos círculos — ele pegou um na mão — que funcionam como rastreadores. A localização do alvo será dita em seu ouvido, por um fone que te mantém ligada com o programa da roupa.
— Você criou uma Sexta-feira pra mim? — eu o olho
— Sh, sh! Deixa eu continuar. — ele diz empolgado — Estes são dardos neuroestimulantes. — ele aponta — Você os lança e a pessoa que ele espetar, cai paralisado por uma dor.
— Como faz isso?
— Fácil. — ele dá de ombros — Ele estimula uma parte do cérebro que causa dores tão fortes capazes de paralisar a pessoa e colocá-la à seu dispor.
— Uau. — foi só o que consegui dizer
— Eu sei, amor. — ele diz com os olhinhos brilhando — Uma dúvida minha, você precisa de armas? Tipo pistola, faca, granada, uma caneta.
— Caneta? — o olhei rindo
— Eu vi você a****r um esquadrão de mãos vazias, então. — deu de ombros bufando
— Gosto de ter uma carta na manga. — dou de ombros
— Vou dar um jeito de por um suporte pra faca. — ele diz parando pensativo — O que acha de uns ferrões?
— Não, isso é coisa da dona Aranha. — disse o apelido de Natasha
— Entendi.
— Você preparou algo para você? — pergunto pois sei que ele ama quando alguém demonstra interesse por seu trabalho
— Estou revendo alguns propulsores. — ele diz — O que você acha de um coldre na bota?
— Como você faria isso? — pergunto tentando imaginar
— Apenas me diga o que acharia.
— Seria bacana sacar uma faca da bota. — dou de ombros
Fico em silêncio enquanto observo seu jeito de calcular e elaborar um compartimento no pé direito da bota do meu traje.
Por um momento, lembrei da primeira vez que nos vimos numa festa beneficente.
"
O alvo já estava localizado. O todo poderoso Tony Stark estava bem bonito e elegante, enquanto passeava pelo local tirando fotos e sorrindo para investidores.
— O que uma mulher tão bonita faz num lugar como esse? — ouço sua voz e já noto sua investida
— As crianças são o nosso futuro. Devemos dar assistência à elas. — eu disse sem olhá-lo
— Bonita e inteligente. — ele comenta
"
— Que foi? — ele pergunta quando nota meu olhar insistente
— Gosto de ver como você fica empolgado com um projeto novo. — dou de ombros sem perceber que estou sorrindo
— Eu gosto de como você reage aos meus projetos. — ele diz e sorri
— Gosto de como você reage quando nota que reajo aos seus projetos.
— Gosto de como você reage quando nota que eu noto sua reação sobre meus projetos.
— Me perdi. — digo fazendo uma careta e ouço sua risada
— Você sempre se perde quando faço isso.
— E você adora quando me perco.
— Você fica engraçada quando se perde. — ele diz bem próximo à mim
— Gosto da sua risada quando nota que me perco. — digo baixo, como uma confissão
— Gosto quando me faz rir. — ele se inclina na mesa que nos separa, ficando ainda mais próximo. Consigo sentir sua respiração
Fico sem ter o que dizer, então apenas sorrio e me viro, afim de sair dali.
Mas sinto alguém me puxar e sou levada gentilmente até o sofá, onde Tony se põe por cima de mim, entre minhas pernas.
— Não foge de mim, Kayla. — ele sussurra
— Você não pode ficar comigo. Eu não mereço você. — digo no mesmo tom
Sinto seus lábios tocarem os meus de forma leve e, ainda surpresa, vejo-o fechar os olhos antes de mim. Quando me dou conta do que está havendo, eu apenas fecho os olhos e correspondo ao seu beijo cuidadoso.
Sua mão adentra meu casaco e sinto seus dedos frios na minha pele, em contato com meu seio sem sutiã. Passo as unhas por suas costas ainda cobertas pela camisa e, naquele instante, permito que ele me toque, me sinta, me faça dele de novo. Afinal de contas, jamais irei pertencer à outra pessoa além de Tony Stark.