6

1918 Words
Eu sabia que não podia assustá-la indo direto ao ponto. Ellen não era como as outras. Havia nela uma delicadeza que não combinava com o meu instinto bruto, com a forma selvagem como eu lidava com o mundo. Precisava de cautela. Precisava pensar cada passo. O primeiro já havia sido dado, e qualquer erro agora poderia destruir tudo. Ela acreditava que eu era um homem bom. E talvez, perto dela, eu realmente fosse. O problema é que essa versão minha não existia fora do alcance do seu olhar. Meu lado perverso permanecia oculto — não apenas para não assustá-la, mas porque ele simplesmente se calava quando Ellen estava por perto. Como se ela fosse capaz de silenciar a parte mais escura de mim. Estar ao seu lado era um prazer absoluto. Observá-la, acompanhar cada gesto, cada expressão distraída, cada pequena reação… tudo isso me alimentava. Ao mesmo tempo, era uma tortura. Eu precisava conter impulsos, engolir desejos, fingir normalidade quando tudo em mim queria avançar. Por enquanto, eu a deixaria seguir com sua rotina. Suas escolhas. Seu mundo aparentemente livre. Eu poderia acabar com essa farsa de amor fraterno a qualquer momento, poderia tomar o que desejava — mas isso seria um erro irreversível. Ellen precisava me querer. Precisava escolher estar comigo. Forçá-la me transformaria em algo que nem eu estava disposto a aceitar: um monstro. Tê-la tão perto me dava vantagem. Eu poderia fortalecê-la, moldá-la, ajudá-la a se tornar alguém mais confiante, mais determinada… alguém que, no fim, pertenceria apenas a mim. Admito: essa ideia me empolgava. A Universidade da Califórnia era respeitada, admirada. Ainda assim, não passava de um lugar cheio de idiotas à espera de qualquer oportunidade para se aproximar da minha Bela. Eu conhecia bem esse tipo. Já fui um deles. Um jovem inconsequente, pulando de mulher em mulher, mesmo sem gostar das festas e da superficialidade daquele mundo. Dominic sempre dizia que eu precisava construir uma imagem impecável desde cedo. Ele estava certo. Quanto mais a IMPÉRIO crescia, mais minha vida era vasculhada. Todos queriam saber como um homem tão jovem havia chegado tão longe. E, graças às pessoas certas, eu sempre consegui mostrar apenas o que interessava — mantendo o resto enterrado na escuridão. Meu desejo por Ellen podia parecer obsessão. Talvez fosse. Mas desde a morte dos meus pais, o controle deixou de ser escolha e passou a ser necessidade. Eu precisava saber de tudo. Antecipar tudo. Prevenir qualquer ameaça. Quando ela entrou na universidade, isso se intensificou. Eu precisava saber onde estava, com quem falava, o que fazia. Conhecia seu lado romântico, sua vulnerabilidade. Bastava um i****a insistente para tentar tomar o que era meu. Felizmente, a própria timidez e o isolamento que ela criara funcionavam como barreiras naturais. Havia algum tempo que eu não falava com a pessoa que me mantinha informado sobre Ellen. Desde o início, eu sabia que não podia arriscar. Não podia permitir que alguém desconhecido se aproximasse demais. A tranquilidade dela ajudava, claro — mas sem minha interferência, as coisas poderiam sair do controle. O episódio da boate foi o estopim. Eva jamais deveria tê-la levado a um lugar daqueles por puro capricho. Aquilo me irritou mais do que eu estava disposto a admitir. Quando o carro parou em frente ao prédio onde Eva morava, pedi ao motorista que a trouxesse assim que ela saísse. Eu conhecia bem a rotina da ruiva. Não demorou. Pelo vidro, vi quando ela parou de repente, o corpo tenso, como se tivesse levado um choque. Ela sabia quem eu era. Sabia o motivo daquela visita. Fugir não adiantaria. Quando Eva entrou no carro e sentou-se à minha frente, estava pálida, visivelmente assustada. Seus olhos denunciavam o medo que tentava esconder. Ela tinha uma dívida comigo. E pagava do único jeito que podia: obedecendo. UM ANO ANTES Eu sabia que, assim que o dia amanhecesse, terminaria com uma dor de cabeça capaz de me enlouquecer. Administrar tantas frentes ao mesmo tempo era exaustivo, mas não havia ninguém que pudesse ocupar o meu lugar. Nem mesmo com a ajuda do meu braço direito, manter dois negócios paralelos funcionando exigia mais do que disciplina — exigia controle absoluto. E, como se isso não bastasse, ainda havia Ellen. Ela estava prestes a entrar na universidade, um ambiente onde jovens perdiam o bom senso, cometiam erros estúpidos e só percebiam as consequências tarde demais. Eu sabia que Ellen não era como os outros, mas isso não significava que o mundo ao redor fosse inofensivo. Bastava uma influência errada. Uma amizade equivocada. Um impulso. Por isso, decidi cuidar dela. À distância, se necessário. E a garota ruiva que agora me servia seria a peça ideal para isso. Eva Thompson tinha dezoito anos. Sonhava em cursar literatura — assim como Ellen. Eram diferentes em quase tudo, mas eu sabia que, justamente por isso, poderiam se tornar amigas. Eva tinha algo que Ellen não tinha: ousadia. E precisava de algo que Ellen não precisava: dinheiro. — Mais alguma coisa, senhor? — perguntou ela, segurando um pequeno bloco de anotações. — Sim. Quero que se sente — respondi, recostando-me na cadeira. Ela era bonita. Havia uma inocência em seu olhar, bem diferente da de Ellen, mas ainda assim presente. Os cabelos ruivos refletiam a luz, as sardas davam um charme quase ingênuo ao rosto. Mesmo vestida de forma simples — jeans gasto e camisa xadrez —, era fácil perceber suas curvas. Se minha obsessão não tivesse nome, rosto e sobrenome, talvez eu a notasse de outra forma. Mas não era o caso. Eva hesitou. A boca entreaberta denunciava o conflito interno, o cálculo rápido entre medo e curiosidade. Eu sabia exatamente quem ela era. Jacob havia feito um excelente trabalho. Garotas como Eva chegavam a Los Angeles acreditando que encontrariam um paraíso de oportunidades. Algumas encontravam. Outras… afundavam. Ela odiava trabalhar ali. Odiava o chefe. Odiava a vida que levava. E, apesar de amar literatura, sabia que servir mesas não a levaria longe tão cedo. Havia atalhos. Sempre havia. — O quê? — perguntou, corando. — Eu ainda estou no horário… — Sente-se, Eva. Seu chefe não vai se incomodar — disse, lançando um olhar rápido ao homem barrigudo que nos observava de longe. Ele me devia favores suficientes para não interferir. — Temos muito o que conversar. — Não vejo o que alguém como você poderia querer comigo — respondeu, depois de se sentar. — Sou só uma garçonete. Essa frase era quase um clichê. E exatamente por isso funcionava tão bem. — Preciso de uma garota simples, inteligente e desesperada o suficiente para aceitar um acordo — falei, analisando-a novamente. — Sei do seu desejo de entrar na faculdade. Você é esforçada, tem boa aparência e passa confiança. É exatamente disso que preciso. Ela se levantou abruptamente. — Quem você pensa que é para falar comigo desse jeito? — rebateu, irritada. — Sei muito bem o que homens como você querem. Suspirei, impaciente. — Sente-se ou terei que ser menos educado — disse, frio. — Acha mesmo que eu viria até uma lanchonete imunda para brincar com você? — inclinei-me levemente. — Você é bonita, sim. Mas se esse fosse o meu interesse, eu não estaria aqui. Ela engoliu em seco. — Você será apenas uma ferramenta — continuei, sem rodeios. — Uma peça útil para que eu consiga o que quero. Posso lhe dar tudo o que deseja: faculdade, apartamento, carro. Uma vida melhor. Em troca, você só precisa me contar o que quero saber. — Eu… eu não estou entendendo — murmurou. — Você vai entrar na Universidade da Califórnia — expliquei, calmamente. — Tudo pago por mim. Vai se aproximar de uma pessoa específica. Fará amizade. E me contará absolutamente tudo: o que ela diz, o que faz, com quem anda. Cada detalhe. O choque em seu rosto me divertiu. — Você é um psicopata? — perguntou, assustada. — Por que eu? — Talvez pareça loucura — respondi. — Mas faço isso por amor. Quanto a você… escolho meus aliados pela necessidade. Você odeia esse lugar, odeia sua vida medíocre. Vai aceitar porque não aguenta mais viver assim. — Quem é você? — sussurrou. — Anthony Johnson — disse, observando sua reação. — Já ouviu esse nome, não ouviu? Ela assentiu, pálida. — Então sabe que não estou brincando. E saiba mais uma coisa: se algo acontecer com a minha Ellen… — inclinei-me um pouco mais. — …a responsabilidade será sua. E você não viverá o suficiente para se arrepender. Silêncio. Eu já tinha o que queria. DIAS ATUAIS — Bom dia, Eva — cumprimentei com um meio sorriso que não alcançava os olhos. — Faz tempo que não nos vemos. — O que você quer, Anthony? — perguntou com cautela. Havia rigidez na voz, mas também medo. Eu já tinha visto aquela reação inúmeras vezes. As pessoas sempre achavam que poderiam me desafiar. Que o tempo apagaria dívidas. Ou que eu não cobraria o que era meu. — Você sabe exatamente por que estou aqui — respondi, sem dar um passo sequer. Continuei observando cada movimento seu. Eva deixara de ser uma solução havia algum tempo. Agora, era apenas mais um problema. — E sabe muito bem o que fez. Ou, melhor dizendo, o que deixou de fazer. — Eu só achei que seria bom para ela sair um pouco… Ellen vive tão— — O seu trabalho não é decidir o que é bom para ela — interrompi, a voz firme, baixa. — É me informar. É mantê-la longe de problemas. E, acima de tudo, manter idiotas longe dela. Senti a raiva subir, quente, impaciente. Ultimamente, parecia que todos testavam meus limites ao mesmo tempo. Empurravam-me para um lugar que eu sempre evitei. Mas eu não era um homem paciente quando as coisas saíam do controle. — Lembra-se da sua dívida? — perguntei. — Eu me importo com a Ellen — insistiu, tentando sustentar uma moral que não lhe pertencia. — Ela merece ser feliz. Sorri. Não por achar graça, mas porque aquilo era patético. Aproximei-me de repente, encurtando o espaço entre nós. Eva recuou por instinto. Segurei seu r**o de cavalo e a trouxe para mais perto, apenas o suficiente para que entendesse que não estava em posição de negociar. Não era força bruta. Era aviso. — Preste atenção — falei baixo, controlado, encarando seus olhos já marejados. — Não me importa o que você sente. Não me importa se acha que está sendo uma boa amiga. O seu papel é outro. E se você falhar de novo… — deixei a frase em suspenso, propositalmente — …as consequências não serão agradáveis. Ela engoliu em seco. O silêncio fez o trabalho que palavras não fariam. — Entendeu? — perguntei. — S-sim, senhor — respondeu, a voz trêmula. — Se voltar a levá-la para lugares como aquele — continuei, agora frio —, não será você quem sofrerá primeiro. Pessoas próximas costumam pagar o preço quando alguém decide brincar comigo. Soltei seu cabelo e dei um passo atrás, como se nada tivesse acontecido. — Vá. A essa hora, ela já deve estar na universidade — disse, retomando um tom quase educado. — Tenha um bom dia, Eva. Observei enquanto ela saía do carro, apressada, sem olhar para trás. — Para o escritório — ordenei ao motorista assim que a porta se fechou. Encostei a cabeça no banco, respirando fundo. O dia seria longo. Exaustivo. E tudo o que eu queria era que terminasse logo, para poder voltar para casa. Para ela
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD