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1057 Words
Acordei com a cabeça latejando, como se tivesse passado a noite inteira bebendo — o que não fazia sentido algum. Não havia tocado em álcool. Talvez a dor fosse apenas consequência de ter revivido, repetidas vezes, tudo o que acontecera na noite anterior. A imagem de Anthony surgindo no escuro, quase berrando o meu nome, insistia em não sair da minha mente. Ele parecia diferente. Não apenas bravo — estranho. Como se, por um breve instante, eu tivesse visto um lado dele que ainda não conhecia… ou que nunca tinha sido permitido enxergar. Nunca tive envolvimento com nenhum garoto. Sempre fui calada, tímida demais para flertes ou investidas. Ainda assim, não era a primeira vez que tinha sonhos inapropriados com meu primo mais velho. Mas, naquela noite, havia sido diferente. Anthony não aparecia como o homem carinhoso e protetor de sempre. Ele era sombrio. Intenso. Dominado por uma fúria que deveria ter me aterrorizado. O problema era que não aterrorizou. Aquilo me excitou. A constatação me fez fechar os olhos com força, tomada por culpa e confusão. Loucura. Só podia ser isso. Desde a morte do meu pai, eu vinha alimentando paranoias sem sentido. Medos difusos, pensamentos intrusivos, noites m*l dormidas. Tudo isso estava começando a afetar até os meus sonhos. Anthony não era um homem c***l. Nunca seria. Apesar da atitude estranha da noite anterior, ele ainda era a pessoa em quem eu mais confiava. Levantei-me da cama com a sensação de que a noite não tinha sido suficiente para dissipar o cansaço. O dia seria longo. Assim que colocasse os pés na universidade, enfrentaria aulas, prazos e um trabalho importante a ser entregue. Eu odiava deixar tudo para a última hora. Tomei um banho demorado, deixando a água quente relaxar meus músculos e acalmar a mente. Ainda era cedo, o que significava que Becca provavelmente ainda dormia — um pequeno alívio. Eu não podia dizer que odiava minha irmã. Ela era tudo o que eu tinha, além de Anthony. Talvez sua implicância comigo viesse do ressentimento em relação ao nosso pai, que se separou da mãe dela para se casar com a minha. Papai e eu sempre fomos próximos. Depois que minha mãe morreu de câncer, ele se afastou um pouco, mas continuamos unidos. Unha e carne. Becca nunca lidou bem com isso. Desci as escadas brancas, adornadas por corrimões dourados que davam à entrada da mansão um ar quase palaciano. Nosso pai, Dominic Goldner, sempre gostou de ostentar luxo e poder. Quando minha mãe era viva, a casa vivia cheia — festas grandiosas, convidados elegantes, elogios à imponência do lugar. Ele dizia que eu havia herdado a beleza e a delicadeza dela, mas não seu gosto pelo glamour excessivo. Apesar da fortuna da família, nunca gostei de esbanjar dinheiro. Odiava chamar atenção. Sempre que precisava ser o centro dos olhares — o que, felizmente, acontecia poucas vezes — eu me sentia exposta, vulnerável, como se estivesse nua diante de todos. — Não vai tomar café? — perguntou Meredith, surgindo na cozinha. Ela trabalhava ali desde que eu nascera. Quando minha mãe morreu, foi Meredith quem me criou. Cuidou de mim com um amor que nunca foi obrigação. Seus cabelos grisalhos e olhos castanhos me observavam com reprovação maternal. — Já está magra demais. Não quero que passe m*l na faculdade. Sorri, aproximando-me para beijar sua testa. — Tomo algo na cantina, Mere. Você sabe que não posso me atrasar. Ela cruzou os braços, desconfiada. — Sei que está fugindo da Rebeca, mas não pode sair de casa sem comer. Quer que um vento te leve como uma pluma? Ri, sabendo que havia verdade no sarcasmo. — Não vai acontecer. Saí antes que ela insistisse mais. Evitar Becca era infantil, eu sabia. Mas também me poupava de começar o dia arrasada. Desde nova diziam que eu poderia ser qualquer coisa, graças à minha memória fotográfica. Aos quinze, descobri minha verdadeira paixão: literatura. Não era um curso tão prestigiado quanto medicina ou direito, mas os livros sempre foram meu refúgio. Quando eu lia, o mundo mudava. Eu vivia outras vidas. Sentia outras dores. Cheguei à universidade quase sem tempo, comprei um café e um pedaço generoso de bolo. Meredith imaginava que minha magreza vinha da falta de alimentação, mas a verdade é que eu adorava comer — especialmente doces. Como sempre, sentei na frente da sala. Fazer amigos nunca foi fácil. Eva era meu oposto em tudo: extrovertida, destemida, sempre chamando atenção. Às vezes, eu a invejava. Eu havia começado a escrever um romance. O problema era a falta de experiência prática. Conhecia a teoria, mas não a vivência. E isso me travava. Após as aulas, fui direto para a biblioteca. As horas passaram voando. Quando percebi, já estava atrasada. Prometera a Meredith que chegaria às seis. Ela completaria sessenta e sete anos, e eu queria preparar um jantar simples para nós duas. Ela merecia. Quando o táxi me deixou na frente da mansão, hesitei antes de entrar. Tudo estava escuro. Silencioso. Estranho. Respirei fundo e entrei. O vazio da casa me incomodou. Nem mesmo na cozinha havia sinais de vida. Ao chegar ao hall, vi Becca. Meu coração afundou. — Achou que fugiria de mim para sempre? — provocou, com aquele ar superior. Becca era linda. Poderia ser modelo. Cabelos escuros perfeitamente arrumados, corpo esguio, roupas caras, joias reluzentes. Ela tinha a segurança que eu nunca possuí. — O que você quer? — perguntei, exausta. Ela bloqueou meu caminho, os olhos claros escurecidos pela raiva. — Está cansada? — ironizou, empurrando-me contra a parede. Bati a cabeça. Antes que eu reagisse, suas unhas cravaram-se em meu rosto. — Eu estou cansada, Ellen. Cansada de você. De dividir tudo. Até o meu pai. — Becca… — tentei falar. — Chega! Seu olhar era assustador. c***l. — Você é um parasita. Sugou tudo. Até ele. — Papai morreu de um infarto… — sussurrei, chorando. — Quero que saia desta casa hoje — ordenou. — Vou pagar sua faculdade. Depois disso, desapareça. Fiquei imóvel. — Não preciso da sua esmola — respondi, entre soluços. — Não sou como você. Não preciso de luxo para viver. Subi as escadas correndo, em prantos. Eu havia perdido tudo. Meus pais. Minha casa. Assim que entrei no quarto, liguei para Eva. Eu precisava sair dali. Nem que fosse só por uma noite.
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