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1687 Words
Anthony Eu poderia dizer que Rebeca Goldner era uma v***a de primeira classe. Mas isso seria lhe dar crédito demais. Ela não merecia sequer estar no pódio da mediocridade humana. Eu sabia que havia feridas antigas ali. Mágoas profundas, alimentadas desde a infância. Mas nada — absolutamente nada — justificava a crueldade com que ela tratava a própria irmã. Ellen era a pessoa mais doce e tranquila que eu já conheci. Às vezes, minha preocupação com ela beirava a insanidade. Eu pensava nela o tempo todo. Onde estava. Com quem estava. Se estava segura. Tudo começou cedo demais. Desde o dia em que a vi sorrir por algo ridiculamente simples — uma enorme bolha de sabão que ela conseguiu fazer no jardim — eu passei a observá-la com atenção. Ellen sempre foi delicada, luminosa. Quando criança, era uma tagarela incansável. Falava sobre coisas aleatórias, fatos estranhos que aprendia nos livros, teorias sem sentido. Isso irritava Rebeca. A mim, não. Eu adorava. Havia algo hipnotizante em vê-la lendo. Ellen não apenas lia — ela vivia cada palavra. Seu rosto reagia às frases, às emoções escondidas no papel. Era como assistir a alguém atravessar mundos inteiros sem sair do lugar. Ela me salvou. Depois que meus pais morreram, tudo em mim se tornou escuro. Mesmo com o apoio de Dominic, eu estava sozinho, sobrecarregado por responsabilidades que nunca pedi. Perdi minha mãe… e, junto com ela, perdi qualquer traço de leveza que ainda existia em mim. Tornei-me alguém frio. Amargo. Um homem que não temia a morte e que pouco se importava com as consequências. A única coisa que me impediu de afundar completamente foi Ellen. Ela me fazia esquecer quem eu era quando estava longe dela. Apagava, mesmo que por instantes, a parte sombria da minha vida. Ao seu lado, tudo parecia mais simples. Mais calmo. Mais humano. Por isso, vê-la naquela boate me deixou fora de mim. Ellen não pertencia àquele ambiente. Aquele lugar estava cheio de mãos erradas, corpos estranhos se aproximando demais do seu corpo pequeno, frágil. Aquilo me causou uma raiva surda. Um impulso quase incontrolável. Eu sabia que a culpa era de Eva, sua amiga inconsequente. No começo, achei que Eva pudesse ser uma distração útil, algo que afastasse Ellen de mim. Com o tempo, percebi o erro. Quando Meredith me ligou, senti que tudo estava saindo do controle. Eu não podia segui-la vinte e quatro horas por dia. Mas tinha meus meios. Pessoas que observavam. Que me informavam. Ellen estava sempre segura. Sempre ao meu alcance. A governanta não me deu detalhes do que havia acontecido. E, naquele momento, eu não precisava deles. Meu único objetivo era encontrá-la. Eu sabia que aparecer duas vezes “por acaso” despertaria suspeitas. Ellen era inteligente. Essa era uma das coisas que mais me atraíam nela. Quando finalmente a vi dobrar a esquina e caminhar em minha direção, senti algo próximo à satisfação. Era evidente que não dormira bem. Eu a conhecia demais para não perceber. Não entendia como alguém conseguia odiar uma criatura como ela. Não importava o quanto eu estivesse atolado na sujeira deixada pela minha família, Ellen sempre me puxava de volta. Ela me salvava de mim mesmo. Levá-la para a minha casa era mais do que necessário. Era inevitável. Ali, eu saberia onde ela estava. Como estava. Estaria sob o meu teto. Sob o meu cuidado. Ellen não era como as outras adolescentes. Ela precisava de alguém que entendesse isso. Quando atravessamos o elevador e entramos na minha sala de estar, senti algo raro: alívio. Odiava o fato de que Rebeca a tivesse machucado e expulso de casa. Mas aquela situação me dava algo que eu desejava há anos — Ellen comigo. Vivendo sob o mesmo teto. — Anthy, você não precisa fazer isso… — ela começou, insegura. — A Rebeca não vai ficar… — Ela não vai ficar feliz — interrompi. — Mas não é por você estar aqui. É porque eu finalmente vou dizer tudo o que penso sobre ela. E o que pretendo fazer a seguir. Sempre soube do ódio que Rebeca nutria pela irmã. Sabia das coisas que fazia quando Ellen era criança, principalmente quando eu estava fora, na faculdade. Isso sempre me encheu de fúria. Naquela época, eu ainda não sentia essa… necessidade. Eu a amava como prima. Como companhia. Como luz nos meus dias mais escuros. Ellen nunca precisou perguntar o que estava errado. Ela simplesmente sabia. — Ela é sua prima… — Ellen disse, aproximando-se de mim. — Não quero que vocês briguem por minha causa. Era isso que a tornava diferente. Mesmo ferida, humilhada, expulsa, ela não conseguia desejar o m*l a ninguém. Nem mesmo a alguém tão venenoso quanto Rebeca. Quando sua pele roçou a minha, um choque percorreu meu corpo. Eu sabia o quanto era perigoso. Com um único gesto, eu poderia quebrá-la. Dominá-la. Mas não era isso que eu queria. Eu queria moldá-la. Protegê-la. Torná-la forte. E, talvez… fazê-la me amar. Mesmo depois de descobrir quem eu realmente era. Havia momentos em que eu perdia completamente o controle. Ellen era frágil — não no sentido de ser fraca, mas porque bastava pouco para que suas defesas ruíssem, deixando-a exposta. Vulnerável. Aquilo poderia ser… útil no futuro. E eu sabia disso. Minha paciência diminuía a cada vez que a olhava nos olhos e reconhecia ali algo que não era apenas gratidão ou admiração. Havia desejo. E isso me corroía. — Não se preocupe — falei, mantendo a voz firme. — Eu cuidarei de você. Farei tudo o que for preciso para lhe dar o que merece e não deixarei que ninguém a machuque novamente. Havia coisas que eu não disse. Promessas que nem eu mesmo tinha certeza se conseguiria cumprir. — Ellen, você está exausta. Não dormiu. — Continuei, mais brando. — Ficará no quarto de hóspedes. Use o que precisar. Aqui você está segura. — Anthony, eu não quero incomodá-lo… — insistiu, com aquela delicadeza que sempre me desmontava. Eu não era um homem paciente. Nunca fui. Mas com Ellen tudo era diferente. Meu humor oscilava entre cuidado e desejo, entre proteção e algo muito mais perigoso. Eu só perdia a calma quando alguém a colocava em risco. Quando ela era assim — doce, contida, quase submissa — minha irritação simplesmente não existia. Eu queria Ellen ali. Sob o meu teto. Mas não podia dizer isso. Não podia revelar nada do que se passava dentro de mim. Antes de qualquer coisa, ela precisava crescer. Tornar-se uma mulher forte. A mulher que, um dia, talvez fosse capaz de me amar mesmo depois de enxergar quem eu realmente era. — Já está decidido — disse, afastando-me em direção ao elevador. — Voltarei o mais rápido possível. Durma. Não pense em nada. Eu cuidarei de tudo. Eu sempre fui bom em dar ordens. E Ellen, em aceitá-las. Isso me agradava mais do que eu deveria. O poder silencioso que eu exercia sobre ela me satisfazia de um jeito que eu não fazia questão de questionar. Eu sabia exatamente o que precisava fazer. Ellen não me contaria o que Rebeca dissera. Ela nunca faria isso — nem para não me chatear, nem por não conseguir repetir as crueldades que sofreu. Mas minha paciência havia acabado. Rebeca ultrapassara um limite. Peguei a moto e segui direto para a mansão. Conhecia bem seus hábitos. Ela adorava dormir até tarde. Poderia esperar para me acalmar… mas quando algo envolvia Ellen, eu não queria calma. Eu queria ação. Raiva e determinação eram ferramentas melhores. Ao chegar à propriedade, tudo parecia normal. Funcionários circulavam, cuidando de cada detalhe. Rebeca exigia perfeição dos outros, embora jamais fosse capaz de oferecê-la. Não toquei a campainha. Formalidade era um luxo que ela não merecia mais. — Anthony? — disse ela ao me ver, com um sorriso irritante. — O que faz aqui tão cedo? Caiu da cama? O vestido verde colado ao corpo, o cabelo impecável, os lábios exageradamente vermelhos. Aquilo enganaria muitos. A mim, não. Rebeca era vazia, arrogante, c***l. O tipo de mulher que eu desprezava. — Serei direto — falei, avançando um passo. — Sei o que você fez com Ellen. E posso garantir que vai se arrepender. — Minha casa — corrigiu, o tom endurecendo. — E faço o que quiser nela. Aquela garota é um parasita que sugou tudo o que era bom daqui. Não pensei. Avancei. Empurrei-a contra a parede, a mão firme em seu pescoço, sem delicadeza alguma. Não para machucar — mas para deixar claro quem estava no controle. — Nunca mais fale dela dessa forma — rosnei. — Se fizer isso outra vez, perderá muito mais do que imagina. Inclusive a parte que é dela por direito. Ela me encarou com ódio, mas também com medo. Era isso que eu queria. — Acha que tenho pena de você por causa da sua história? — continuei. — Depois do que fez com Ellen, o Anthony tolerante acabou. Se voltar a magoá-la, eu acabo com você. — Por que a protege tanto? — cuspiu as palavras. — Como se fosse o pai dela. Ri, sem humor. — Porque alguém precisa protegê-la de você. Afastei-me. — Você vai devolver tudo o que pertence a Ellen. Caso contrário, perderá absolutamente tudo. E sabe que eu sempre consigo o que quero. — Você não me engana — provocou. — Sei que é um homem perigoso. Está se aproveitando disso tudo. — Agradecer? — voltei a encará-la. — Quer mesmo me testar? — Vai me bater? — Não. Nunca fiz isso. E não começarei agora. Afastei-me antes que cruzasse uma linha que não poderia apagar. — E quando ela descobrir que você não é o príncipe que imagina ser? — provocou. Peguei o vaso de cristal que decorava a sala e o arremessei contra o chão. Ele explodiu em estilhaços. — Eu posso quebrar você com a mesma facilidade — falei, frio. — Então cuide da sua língua. Deixei-a para trás. Rebeca sabia demais. Sabia do meu segredo. E, se falasse antes da hora, poderia destruir tudo. Por isso, ela precisava ser mantida longe. De Ellen. A qualquer custo.
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