Laura narrando
Depois que o Gustavo saiu, a casa ficou em silêncio.
Um silêncio pesado, daqueles que doem dentro da gente.
Sentei na beira da cama e chorei — chorei tudo o que tava preso, tudo o que eu tinha engolido o dia inteiro.
O medo, a vergonha, a raiva, o nojo.
Era como se o mundo tivesse virado de cabeça pra baixo, e eu não soubesse mais onde me segurar.
A luz do quarto tava apagada, só a claridade fraca da rua entrava pela janela.
Foi aí que escutei — tec, tec, tec — umas pedrinhas batendo no vidro.
Me assustei na hora, o coração disparou.
Limpei as lágrimas rápido e olhei pra fora, devagarinho, com medo.
Quando vi quem era, o ar me faltou por um segundo.
Vasco.
De boné, blusa preta, aquele olhar sério de sempre.
Só o brilho do isqueiro dele acendendo o cigarro iluminava o rosto.
— Abre… vou subir pela janela… — ele disse, a voz baixa, firme, mas com uma urgência que eu nunca tinha ouvido antes.
Meu coração bateu tão forte que parecia que ia sair do peito.
Eu devia dizer não, mandar ele embora, mas… eu não consegui.
Minhas mãos tremiam quando destravei a janela.
Em segundos, ele já tava ali, subindo com a agilidade de quem conhece cada canto do morro.
Quando entrou, o quarto ficou pequeno pra tanta presença.
O cheiro dele — cigarro misturado com perfume amadeirado — tomou o ar.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele me puxou.
Um abraço firme, intenso, como se ele quisesse me proteger do mundo inteiro.
Senti o corpo dele quente, o peito subindo e descendo rápido, e por um instante, pareceu que todo o medo que eu sentia foi embora.
Me senti segura ali, nos braços dele.
Fiquei quieta, sem reação, e então ele se afastou só um pouco, as mãos ainda na minha cintura.
Os olhos dele encontraram os meus, e tinha tanta coisa ali — raiva, preocupação, desejo, tudo junto.
E foi de repente.
O beijo.
No começo eu nem soube o que fazer.
Foi o meu primeiro beijo… e veio com tudo.
O toque dos lábios dele era firme, mas terno, como se tivesse medo de me machucar.
Senti um arrepio subir por todo o corpo, uma mistura de nervosismo e vontade.
O tempo parou — só existia o som do coração batendo, o calor, e ele.
Quando ele se afastou, fiquei sem fôlego, sem saber o que dizer.
Vasco passou a mão de leve no meu rosto, o olhar pesado, intenso.
— Eu não devia ter vindo… mas não consigo ficar longe de tu. — ele murmurou, quase num sussurro.
Eu fiquei só olhando, sem conseguir responder, o coração ainda descompassado.
Ele respirou fundo, me deu um último olhar e foi pra janela de novo, como se o mundo lá fora chamasse ele de volta.
Fiquei parada ali, tocando os lábios, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Porque, pela primeira vez, em meio a tanta dor, meu coração bateu diferente.
E o nome que ecoava na minha cabeça era um só:
Vasco.
Ele ficou ali, parado, me olhando daquele jeito que desmontava tudo dentro de mim.
Nem parecia o Vasco que todo mundo morre de medo.
Parecia… alguém que tava tentando me entender.
Eu sentei devagar na cama, ainda tremendo por dentro.
Ele deu um passo pra frente, hesitante, como se não quisesse invadir meu espaço, mas ao mesmo tempo não conseguisse ir embora.
Meu corpo tava cansado, a cabeça latejando, e sem perceber eu me deitei de lado, de costas pra janela.
Não sei se esperando alguma coisa… ou se só queria fugir da dor e do peso do dia.
Ele ficou me olhando por alguns segundos.
Eu sentia.
A respiração dele.
A presença dele.
E então, pra minha surpresa, ele deitou também, atrás de mim.
Sem encostar muito, como se tivesse medo de me assustar.
A cama afundou um pouco, e eu senti o calor do corpo dele aproximando.
A mão dele veio devagar, tão leve que parecia um vento.
E começou a fazer carinho na minha cabeça, nos fios do meu cabelo.
Um carinho lento, cuidadoso… real.
— Dorme, Laura… eu tô aqui. — ele murmurou, quase como um sussurro que minha alma precisava ouvir.
Eu queria responder, perguntar por que ele tava fazendo aquilo, por que parecia que se importava tanto…
Mas o cansaço venceu.
E o toque dele, firme e suave ao mesmo tempo, fez meu corpo finalmente relaxar.
Eu dormi ali.
Nos braços do perigo.
Nos braços de Vasco.
Quando acordei, a claridade suave já entrava pela janela.
Pisquei algumas vezes, meio perdida.
A cama ao meu lado tava quente, o lençol amassado.
A janela… meia aberta, como se tivesse sido usada há pouco tempo.
Meu coração acelerou.
Passei a mão no travesseiro ao lado e senti o calor ainda ali.
Ele tinha saído há minutos.
Tinha estado ali comigo a noite toda.
Velando meu sono.
Me protegendo.
Eu sentei na cama, abraçando os próprios joelhos, e a primeira coisa que pensei foi:
Por que o chefe da Rocinha passou a noite inteira cuidando de mim?
E a segunda foi ainda mais perigosa:
Por que eu queria que ele voltasse?