Capítulo 15

1238 Words
Ela disse desanimada, triste: — Eu acho que não vou participar, tá muito em cima. Com a minha rotina normal, eu já fico tipo 17, 18 horas fora de casa, meu corpo pede cama, oito horas de sono, um banho quentinho, comida fresquinha. Acho que realmente cheguei no meu limite, não pelo trabalho simplesmente, mas pelas pessoas. Sinto que tá abalando a minha paz interior, as cobranças, a desvalorização. Eu sei que sou boa e dedicada, posso exercer em outro lugar, por mais que ganhe menos! Eu ando estressada demais, e eu não sou assim, não gosto de magoar as pessoas, largar elas na mão, e o Túlio não me deixa dormir por causa do fuso horário, mas como brigamos, vou desligar o celular e ter uma noite tranquila. Aí você me acha muito faladeira, Gab? Esse é um defeito meu! Nem tá entendendo nada, né? Deve me achar uma maluca de pedra. Ele estava tomando uma cerveja e falou rindo: — Não, que isso, te acho divertida e sincera. Eu, na verdade, entendi sim, sei como é. Estive por anos em um trabalho que me sugava, eu nunca me achava bom o suficiente porque as pessoas foram me convencendo disso. Sou muito da paz e de metas, gosto de fazer as coisas que me dão vontade, tento acreditar em mim, no meu julgamento, por isso achei legal dançar com você e tô decepcionado de ver você dizendo que quer desistir. Acho que devemos tentar, por mim, eu fiquei tão animado, faz tempo que não acho algo assim, fora o trabalho voluntário, aquele lance de viver o sonho, fazer algo bom de verdade. Pô, eu admiro seu trabalho, na clínica e na academia, você é aquele tipo de pessoa que se sobressai em qualquer lugar, dá o seu melhor em tudo que faz, é de verdade. Vejo isso em você e gosto muito! Tô cansado de conviver com pessoas que vivem de aparência, montando um personagem. Engraçado que você é sempre simpática, auto astral, mas eu já te sinto quando tem algo errado, como hoje. E Mah, tá tudo bem, você não precisa ficar forte sempre. Desculpa, eu tô falando demais, é a convivência com você, tagarela. Vem aqui. Ela estava querendo chorar, ele a abraçou, pegou a mochila dela e disse que ia levar. Ela começou a falar, contendo as lágrimas: — Eu sou sempre a pessoa forte que sustenta os outros, me acostumei. Você acabou de me conhecer e pode me julgar por isso, mas eu preciso de uma opinião, de alguém de fora e me parece sincero, então... Ele falou sério: — Beleza, manda aí. Ela disse, indo sentar em uma pracinha: — Eu sei o que as pessoas falam entre si e ninguém tem coragem de me dizer. Sobre o meu relacionamento à distância. Você me acha tola por isso? Por acreditar que ele é real? Às vezes sinto que vivo em uma realidade alternativa. Ele falou exultante: — Ah, eu entendo, saquei, é f**a mesmo. Sei lá, Mah, sua verdade deveria ser a mais importante para você. Mas desculpa, vou ser sincero, eu sou um cara muito coração, me envolvo rápido, entro de cabeça mesmo, é isso, eu vivo no máximo, sou assim com tudo. Eu, eu Gab, não teria um relacionamento à distância dessa forma, porque eu gosto de namorar, ter atenção, carinho, fazer amor. Não sou hipócrita, ah, eu não quero dar uma todo dia. p***a, eu quero sim, se for com a mulher que eu amo, tô apaixonado, eu quero mais ainda. Das duas, uma: eu não iria entrar em um relacionamento assim ou eu iria fazer de tudo para estar com a pessoa. Há quanto tempo você não vê seu noivo? Ela falou, enxugando as lágrimas: — Anos. Você acha que ele me trai? Eu nunca o trai, eu levo a sério nosso relacionamento e, como você disse, é a minha realidade, eu vivo com verdade e tento não ficar insegura com a distância. Eu estava vivendo um sonho, mas hoje já não sei. Tenho medo de chegar lá e não ser o que parece, entende? Éramos amigos, mas as pessoas mudam com os anos. Eu sempre venho mudando também. Ele disse sério: — Mah, se não te faz bem, larga mão. Você é tipo uma supermulher, não precisa passar por isso. Tá vivendo o sonho? Tá feliz? O que te traz paz hoje? Ela respondeu desanimada: — Você pega pesado, né, Gab? Preciso de um tempo para pensar. Tudo bem se eu te der um retorno daqui uns dias sobre a audição? Ele disse que ela não tinha muito tempo, mas que tudo bem, chamou-a para continuar caminhando, foi levando a bolsa dela, comprou outra cerveja e perguntou qual foi o último porre que ela tomou. Rindo, ela falou constrangida: — Você não quer saber, foi f**a, uma vergonha! E você? Ele respondeu: — Posso contar um dos piores, não vai me julgar por isso, né? Ela respondeu que talvez. Ele falou que era uma história e um gole de cerveja. Ela aceitou, pegou a lata e tomou. Ele começou a falar: — Quando eu fiz vinte, ganhei uma viagem para a praia, sem adultos responsáveis. Ficamos no AP do meu melhor amigo, o Vih, foi mó galera. A minha mãe que arrumou minha mochila e colocou umas dez camisinhas, sério, e meias várias, porque eu não podia engravidar ninguém e nem pegar friagem. Fomos de van, bebendo todas, cantando músicas idiotas que eram modinha. O Vih era o mais careta, mas às vezes ficava muito louco e virava o Magaiver da turma, o próprio Django. Quando faltava meia hora para chegar na praia, paramos em um posto de gasolina. Eu, todo bobo alegre, fui comer, peguei quatro pães de queijo, um café e fui sentar sozinho, eles foram no banheiro primeiro. Bem de boa comi lá, aí quando saí olhei para os lados e não vi a van, estava sem celular, só com a carteira. Encostei perto de uns caras que estavam conversando lá na borracharia, falei que tinha perdido a galera e que eu dava vinte p**a para quem me levasse até a cidade. O maluco falou com uma loirona do lado: "O cara tá indo para lá, você é daqui, tá de passeio?". Eu na hora pensei, vou mentir, falei que morava lá, perto da padaria da esquina, inventei na hora. Rapidão o cara pegou os vintão, me apresentou a loira como irmã dele, peguei carona. Quando chegou na cidade, desci na padaria, peguei o número da menina, fui pedindo informação para as pessoas e cheguei no prédio antes deles. Fiquei de boa, comprei mais bebida no quiosque. Quando eles chegaram, tirei onda, aí o Vih falou que fizeram de propósito para me zoar, que só deram a volta com a van e eu sumi. Pô, Mah, pode beber mais um gole aí. Ela tomou rindo, ele tomou também e falou com graça: — Eu ia soltar uma piadinha bem babaca agora... ahhhh, Mah, vou te contar, hein. Ela perguntou curiosa: — O que foi? Tá com nojo de dividir a lata? Ele disse mais sério: — Não, que isso, eu só tô te beijando por tabela, ia dizer isso. Força do hábito! Ela pegou, tomou um gole e falou com provocação: — Força do hábito? Me beijar por tabela? Ele disse rindo: — Não, né, cantar mulher bonita. Posso terminar a história ou não?
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