3- Alice

1162 Words
Alice Narrando Segunda-feira. O dia em que o mundo começa a girar de novo e ninguém tem tempo pra respirar. Diferente de muita gente, eu não odiava segundas. Na verdade, gostava da sensação de recomeço, de planejamento, de botar ordem no caos. Acordei cedo, tomei um banho rápido e vesti um dos meus ternos favoritos preto, elegante, impecável. Hoje não era um dia qualquer. Eu tinha um projeto grande pra finalizar, um daqueles contratos milionários que só caíam nas mãos dos melhores. E eu era a melhor. Cheguei no escritório antes das oito. Assim que empurrei a porta de vidro, minha secretária, Luísa, já veio na minha direção, segurando uma pasta cheia de documentos. — Bom dia, Alice. Aqui estão os papéis do contrato da construtora, eles precisam da sua assinatura até às dez. — Ela falou enquanto andava ao meu lado, me acompanhando até minha sala. — E sua agenda hoje tá cheia. Às nove tem reunião com a equipe de design, às onze com os investidores do projeto da Barra, e depois do almoço você tem aquela inspeção na obra do Leblon. Assenti, pegando os papéis. — Certo. E os relatórios de orçamento? — Na sua mesa, junto com as plantas atualizadas que o Felipe mandou ontem à noite. Ótimo. Organização era essencial, e eu não admitia falhas. Sentei na minha cadeira de couro, coloquei os óculos de leitura e comecei a revisar os contratos. Enquanto lia, minha mente ainda insistia em puxar flashes da noite passada. O cheiro amadeirado do Lobo, o toque firme, o jeito como ele me olhava, como se soubesse de todos os meus segredos… Balancei a cabeça, afastando os pensamentos. Agora não. No escritório, eu era Alice Martins, a arquiteta mais respeitada da cidade. A mulher que assina projetos que valem milhões, que dita tendências, que constrói arranha-céus. Minha outra face? Essa ficava guardada. Pelo menos até a noite cair. A reunião com a equipe de design foi produtiva. Ajustamos os últimos detalhes do projeto, discutimos materiais, acabamentos e a estética final. Eu gostava de estar no controle, de garantir que cada detalhe saísse exatamente como eu imaginava. A segunda reunião, com os investidores, foi mais desgastante. Homens engravatados que achavam que podiam me ensinar a fazer meu trabalho. Eu os escutava com paciência, sorria nos momentos certos, mas no fundo, sabia que no final do dia eles confiariam em mim. Porque no mercado de luxo, ninguém entendia de arquitetura como eu. Quando terminei a última reunião da manhã, soltei um suspiro discreto e me levantei, esticando o corpo. Eu precisava de uma pausa antes de seguir para a inspeção na obra. — Luísa, vem almoçar comigo — falei, pegando minha bolsa. Minha secretária arregalou os olhos, surpresa. — Eu? Tem certeza? — Sim, você trabalha duro o dia inteiro, acho que merece uma folga de mim por uma hora — brinquei, dando um pequeno sorriso. Ela riu, pegando suas coisas. — Sendo assim, eu aceito. Fomos para um restaurante sofisticado perto do escritório. Eu gostava do ambiente ali: discreto, elegante, com um serviço impecável. Pedi um vinho branco e começamos a conversar sobre o trabalho e a vida pessoal dela. Mas a tranquilidade não durou muito. Enquanto eu analisava o menu, senti um movimento próximo à minha mesa. Olhei para cima e lá estava ele. Diego. Meu ex-namorado. O homem que um dia pensei que poderia ser meu parceiro, mas que se mostrou um canalha como tantos outros. — Alice, que surpresa — ele disse, com aquele tom falso de sempre. Revirei os olhos. — Diego. Achei que você tinha sumido do mapa. Ele riu, fingindo charme, e puxou uma cadeira para sentar, sem nem pedir permissão. — A gente precisa conversar. — A gente não precisa nada — rebati, cruzando os braços. Luísa olhou para mim, sem jeito. — Eu posso… — Não, você fica — cortei. Diego me encarou, como se ainda achasse que tinha alguma influência sobre mim. — Você não respondeu minhas mensagens. — Porque eu não quis. Ele soltou um riso sarcástico. — Continua orgulhosa. Mas eu sei que sente minha falta. Soltei uma risada baixa, sem humor. — Falta? Do quê? Das suas mentiras? Das suas traições? Por favor, Diego, me poupe. O olhar dele endureceu, mas eu não recuei. — Você tá com alguém? — ele perguntou de repente, me estudando. — Isso não é da sua conta. Ele ficou em silêncio por um momento, depois se inclinou para mais perto. — Só toma cuidado, Alice. Nem todo mundo é o que parece ser. Meu sangue gelou por um segundo, mas eu não deixei transparecer. — Engraçado você dizer isso. Porque se tem alguém aqui que enganou bem, foi você. Ele ficou mais um instante ali, como se quisesse me provocar, mas então se levantou. — Cedo ou tarde, a gente se esbarra de novo. — Espero que não — rebati, pegando minha taça de vinho e tomando um gole. Ele foi embora, e Luísa soltou um suspiro. — Meu Deus, que climão… Fiz um gesto para que ela relaxasse. — Ignore. Ele não merece nosso tempo. Mas por dentro, uma pontada de alerta ficou, o que Diego quis dizer com aquilo? Fingi que o encontro com Diego não tinha me afetado, mas a verdade era que aquela última frase dele ecoava na minha mente. "Nem todo mundo é o que parece ser." O que ele queria dizer com aquilo? Ele sabia de alguma coisa? Respirei fundo, não ia deixar que ele estragasse meu dia. Voltei minha atenção para Luísa, que ainda me olhava um pouco nervosa. — Então, onde estávamos? — perguntei, tentando retomar a conversa. Ela sorriu sem jeito. — Você tava me contando sobre o projeto novo. Assenti, pegando minha taça novamente. — Ah, sim. Vai ser um dos maiores que já fiz. O tipo de construção que entra pra história. Terminamos o almoço e voltei ao escritório, focando no trabalho. Mas mesmo imersa em contratos, plantas e orçamentos, meu pensamento insistia em se perder. Não era só Diego que rondava minha mente. Lobo. A lembrança dele ainda queimava na minha pele. O jeito que ele me pegou, a forma como seu olhar escuro parecia me atravessar, como se soubesse exatamente o que eu queria antes mesmo de eu dizer. Ele era diferente de qualquer homem que eu já tinha conhecido. Ele não tentava me controlar, não jogava com falsas promessas. Ele era o que era: perigoso, intenso, e incrivelmente viciante. Mas também era um risco. Eu construí uma vida impecável, um nome respeitado, uma reputação intocável. E agora eu estava brincando com fogo. Meu celular vibrou na mesa. Mensagem de número desconhecido: — Cedo ou tarde, a gente se esbarra de novo. Diego. Revirei os olhos e apaguei a mensagem. Ele podia tentar o que quisesse, mas eu não era mais a mulher que ele achava que podia manipular. Só que, no fundo, algo me dizia que essa história ainda não tinha terminado.
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