Sempre detestei reuniões.
Elas começam com discursos longos, seguem por discussões desnecessárias e terminam com ordens que poderiam ter sido dadas em menos de um minuto.
Naquela manhã, não foi diferente.
Atravessei os corredores da Casa do Alfa antes mesmo de o sol nascer completamente. A luz dourada da madrugada atravessava as enormes janelas de vidro, desenhando faixas luminosas sobre o piso de pedra escura. O lugar já estava desperto, como um organismo perfeitamente sincronizado.
Guerreiros encerravam a troca da guarda com movimentos precisos. Empregados caminhavam apressados levando bandejas para o salão principal, enquanto o aroma de café recém-passado se misturava ao cheiro familiar de madeira, ferro e lobos. Do lado de fora, jovens treinavam no pátio, e o som das espadas de madeira se chocando ecoava pelo ar frio da manhã.
Tudo estava exatamente onde deveria.
Era assim que eu gostava.
Ordem.
Disciplina.
Rotina.
Caos era um luxo reservado para quem não tinha responsabilidades.
— Axl.
Voltei o rosto ao ouvir meu nome.
Gideon, capitão da guarda, caminhava na minha direção. As olheiras profundas sob seus olhos denunciavam que a noite havia sido longa.
Inclinei a cabeça em cumprimento.
— O Alfa está esperando.
Observei sua expressão cansada por um instante.
— Algum problema?
Ele soltou um suspiro que pareceu carregar o peso de vários dias sem descanso.
— A filha dele.
Fechei os olhos por um segundo.
— De novo?
— De novo.
Continuei andando ao lado dele, enquanto meus passos ecoavam pelo corredor silencioso.
Todos na alcateia conheciam Cali Ashcroft.
Não porque fosse arrogante.
Nem porque abusasse da posição de filha do Alfa.
Na verdade, acontecia justamente o contrário.
Ela era conhecida porque simplesmente... desaparecia.
Sempre.
Toda semana algum guerreiro voltava frustrado depois de perder seu rastro.
Já tentaram aumentar o número de seguranças.
Alteraram rotas.
Trocaram motoristas.
Mudaram veículos.
Chegaram a usar helicópteros.
Nada funcionava.
Certa vez colocaram seis guerreiros para acompanhá-la durante um evento diplomático.
Ela desapareceu antes mesmo do discurso terminar.
Horas depois, foi encontrada em outra cidade participando de um festival gastronômico, ensinando um grupo de idosos a jogar sinuca enquanto ria como se não tivesse provocado um estado de alerta em toda a alcateia.
Até hoje ninguém conseguiu explicar como ela escapou.
Empurrei a pesada porta de madeira do escritório.
O ambiente exalava autoridade.
Estantes repletas de livros antigos ocupavam uma parede inteira, enquanto mapas, documentos e fotografias cobriam a grande mesa de carvalho no centro da sala. A luz suave da manhã entrava pelas janelas amplas, iluminando a figura imponente do Alfa Darian.
Ele permanecia de costas, observando a paisagem além dos jardins.
Mesmo imóvel, sua presença dominava o ambiente.
O cheiro característico de um Alfa preenchia cada canto da sala, impondo respeito de maneira quase instintiva.
Inclinei a cabeça.
— Alfa.
Ele não desperdiçou tempo com formalidades.
— Axl, quantas missões você falhou?
— Nenhuma.
— Quantas pessoas perdeu sob sua proteção?
— Nenhuma.
— Quantas vezes desobedeceu uma ordem?
— Nunca.
Ele finalmente se virou.
Os olhos atentos me analisaram durante alguns segundos antes de um discreto movimento de aprovação surgir em seu rosto.
— Ótimo.
Reconheci aquele olhar imediatamente.
Sempre que o Alfa começava elogiando alguém, significava apenas uma coisa.
Problemas.
E dos grandes.
— Tenho uma missão para você.
Mantive a postura.
— Estou ouvindo.
Ele caminhou até a mesa e empurrou um envelope na minha direção.
Abri.
A primeira fotografia mostrava uma jovem sobre uma moto esportiva.
Na segunda, ela pulava um muro com uma facilidade impressionante.
Na terceira, entrava pela janela de um prédio em plena luz do dia.
Na quarta, usava um boné e óculos escuros numa tentativa quase cômica de se disfarçar.
Na última...
Ela estava em cima de um contêiner, olhando diretamente para a câmera enquanto fazia um gesto nada educado para um dos seguranças.
Meus lábios quase se curvaram.
Corajosa.
Ou completamente inconsequente.
Talvez ambas as coisas.
— Ela parece... criativa.
O Alfa fechou os olhos por um instante e apertou a ponte do nariz.
Um gesto de quem repetia aquela conversa mais vezes do que gostaria.
— Ela é um desastre.
Continuei observando as fotografias.
Cada imagem revelava uma nova forma de desafiar qualquer tentativa de controle.
— Já ouvi algumas histórias.
Ele soltou uma breve risada sem humor.
— Acredite. Todas são verdadeiras.
Folheei mais algumas páginas.
— Corridas clandestinas.
— Sim.
— Bares humanos.
— Sim.
— Lutas ilegais?
O Alfa respirou fundo.
— Segundo ela, era apenas uma aposta.
Ergui uma sobrancelha.
— Era?
Ele apenas balançou a cabeça.
— Não pergunte.
Resolvi aceitar o conselho.
Algumas respostas realmente não valiam a dor de cabeça.
O Alfa apoiou ambas as mãos sobre a mesa.
Sua expressão endureceu.
— Quero que você assuma a segurança dela.
Levantei os olhos das fotografias.
Olhei para ele.
Depois para o envelope.
E novamente para ele.
— Está falando sério?
— Muito.
Expirei lentamente.
— Com todo respeito, Alfa...
Acho que escolheu o guerreiro errado.
Ele permaneceu em silêncio, esperando.
— Minha função é proteger pessoas que desejam permanecer vivas.
Baixei o olhar para uma fotografia onde Cali sorria enquanto acelerava uma motocicleta.
— Sua filha parece passar boa parte do tempo tentando provar exatamente o contrário.
Pela primeira vez desde que entrei na sala, Darian riu de verdade.
Foi um riso discreto, cansado, quase resignado.
— Finalmente alguém entendeu o meu problema.
Cruzei os braços.
— Ela aceitará essa decisão?
— Não.
— Vai cooperar?
— Também não.
— Então por que eu?
Ele sustentou meu olhar.
— Porque você não negocia.
Era verdade.
Nunca negociei.
Ordens existiam para ser cumpridas.
Sentimentos nunca fizeram parte do meu trabalho.
— Quanto tempo dura essa missão?
A resposta veio imediatamente.
— Até eu acreditar que ela parou de tentar fugir.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
Então compreendi o tamanho do desafio.
— Então será uma missão permanente.
O Alfa soltou outro suspiro cansado.
— Espero sinceramente que não.
Eu tinha minhas dúvidas.
Já conhecia o perfil de Cali antes mesmo de encontrá-la.
Impulsiva.
Irônica.
Teimosa.
O tipo de pessoa que transformava qualquer regra em um desafio.
E eu...
Era o oposto.
Paciente.
Controlado.
Disciplinado.
Mas até a paciência encontrava seus limites.
— Quando começo?
— Agora.
Franzi a testa.
— Agora?
— Ela ainda está dormindo.
Olhei o relógio.
Oito e quinze.
— Depois da corrida de ontem?
— Ela chegou em casa às quatro da manhã.
Nada surpreendente.
Guardei o envelope sob o braço.
— Mais alguma informação importante?
O Alfa pareceu refletir por um instante.
— Sim.
Esperei.
— Ela vai dizer que toda essa segurança é exagero.
— Não vai funcionar.
— Vai tentar subornar você.
— Não aceito dinheiro.
— Vai mentir.
— Descubro.
— Vai fazer drama.
— Ignoro.
Ele fez uma breve pausa antes de completar:
— Vai flertar.
Encarei o Alfa.
— Ela faz isso?
Um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca.
— Com qualquer homem que ache que possa distraí-lo.
Balancei a cabeça.
— Não será um problema.
Ele sustentou meu olhar por alguns segundos.
— Espero sinceramente que não.
Deixei o escritório poucos minutos depois.
No corredor encontrei dois guerreiros sentados em um banco, ambos com olheiras profundas e aparência de quem não dormia havia dias.
— Vocês parecem mortos.
Um deles respondeu sem sequer levantar a cabeça.
— Fomos responsáveis pela segurança da Cali durante três semanas.
Aquilo explicou tudo.
Preferi não fazer mais perguntas.
Segui para a ala residencial.
Uma governanta indicou o caminho até o quarto da filha do Alfa.
Antes de me afastar, ela sorriu com uma mistura de pena e solidariedade.
— Senhor Axl...
— Sim?
— Boa sorte.
O tom parecia muito mais uma despedida do que um desejo.
Subi as escadas.
O corredor era silencioso, iluminado apenas pela luz suave que atravessava as janelas.
Parei diante da enorme porta dupla.
Bati.
Nenhuma resposta.
Esperei alguns segundos e bati novamente.
Silêncio.
Girei a maçaneta.
Trancada.
Como imaginei.
Retirei um pequeno grampo metálico do bolso.
Cinco segundos bastaram para ouvir o clique da fechadura cedendo.
Empurrei a porta.
O quarto era amplo, elegante e surpreendentemente organizado.
Ou melhor...
Quase.
A cama permanecia desarrumada.
As cortinas dançavam com a brisa que entrava pela janela completamente aberta.
Franzi a testa.
Caminhei até a varanda.
Olhei para baixo.
Uma longa corda improvisada com lençóis brancos balançava suavemente até alcançar o jardim.
Fiquei alguns segundos apenas observando.
Depois consultei o relógio.
Quatro minutos.
A missão havia começado fazia exatamente quatro minutos.
E minha protegida já tinha fugido.
Um sorriso discreto escapou antes que eu pudesse impedir.
Havia muito tempo que uma missão não despertava minha curiosidade.
Apoiei uma das mãos na sacada e encarei a corda desaparecendo entre as árvores.
— Certo, senhorita Ashcroft...
Minha voz saiu baixa, quase divertida.
— Agora isso ficou realmente interessante.