MANUELA
O som do despertador preencheu o quarto, fazendo-me acordar sobressaltada e interrompendo um sonho muito bom, mas que iria esquecer em questões de segundos.
Hoje eu tinha programado para tocar mais cedo do que o habitual para passar em outro lugar antes de ir para o trabalho. Tomei um banho, colocando uma roupa social e me preparado para o dia longo que teria pela frente.
Encontrei Monique, a minha melhor amiga com quem dividia o apartamento, já tomando o seu tão querido e desejado café.
— Você parece nervosa, Manu — Monique me observava enquanto tomava sua bebida quente.
Sentei a sua frente, já disposta a encher a minha caneca.
— Hoje o filho do senhor Olavo irá para a empresa. E você sabe que ele vai ser meu novo chefe.
— E assim como o pai, ele vai gostar muito do seu trabalho.
— Espero — concordei, sorvendo um gole do café e já sentindo o seu efeito sobre mim.
Eu trabalhava para o senhor Olavo Baseggio há três anos, mas eu entrei na empresa bem depois que seu filho mudou de país.
E como em todos os lugares, lá na BG Comunicações também tem a roda da fofoca que eu escuto sempre passando as informações. Eu nunca fui muito de acreditar naquelas – afinal tem uns que inventam e aumentam ainda –, mas era impossível ignorar o que eu ouvia e isso me intimidava um pouco.
Claro que a notícia quentinha da vez era o retorno do único filho do meu chefe, que viria para assumir a empresa enquanto o pai estivesse hospitalizado.
De acordo com o que os boatos diziam, a briga dos dois fora total responsabilidade do filho do senhor Olavo, o tal do Felipe Baseggio, que me fora pintado como o homem e******o e filho ingrato.
Faziam anos que ele não visitava mais o pai. Claro que eu não sabia a verdade por de trás do desentendimento deles – e nem tinha porque, afinal eu não era intrometida –, mas o senhor Olavo era um homem tão generoso e tratava seus funcionários tão bem que eu não conseguia entender como um filho poderia virar as costas desse jeito.
Eu nasci e morei grande parte da minha vida em uma cidade do interior. Minha mãe me abandonou quando eu era uma criança, já que o dinheiro falou mais alto do que a sua filha de quatro anos que chorou muito a sua ausência durante muito tempo.
Apesar de tudo, eu tive um pai muito carinhoso e presente. Eu telefonava para ele constantemente e, em alguns finais de semanas viajava as quatro horas que nos separavam para m***r a saudade.
Despedi-me da minha amiga, saindo do apartamento e apertei a campainha do apartamento vizinho.
— Bom dia, menina. — Seu Abílio era nosso vizinho desde que nos mudamos para esse prédio, há quase três anos. Ele era sozinho, sua esposa faleceu há alguns anos e não tiveram filhos.
Fizemos amizade quase que instantaneamente. Ele era um ótimo amigo e eu gostava muito da sua companhia.
Hoje ele teria que fazer um exame no hospital e eu me ofereci para acompanhá-lo. Ele relutou em um primeiro momento, alegando que não queria que eu me incomodasse, mas não seria trabalho nenhum.
Um senhor de setenta e cinco anos que adorava conversar não merecia passar por esse momento sozinho.
Cumprimentei meu amigo querido com um abraço e juntos nos dirigimos até o elevador.
Seu Abílio tivera um infarto há dois meses e fazia acompanhamento constante com um cardiologista. Hoje seria o dia de exames e eu queria que ele soubesse que não estava sozinho.
Pegamos um táxi e fomos até o hospital – que por coincidência era o mesmo que o senhor Olavo estava internado.
Enquanto eu aguardava na sala de espera pelo término dos exames do senhor Abílio, dirigi-me até a recepção perguntando pelo estado do meu chefe. Eu já o tinha visitado no hospital há dois dias, mas queria uma atualização do seu estado.
Tinha conhecimento que ainda não estávamos no horário de visita, mas eu queria apenas uma informação. Que me foi negada pela recepcionista com cara de tédio por eu não ser da família.
Agradeci de qualquer forma – recebendo um muxoxo da parte dela – e voltei a me sentar na cadeira para aguardar a volta do meu vizinho.
Peguei meu celular para dar uma olhada nas mensagens e vi que eu ainda tinha quase uma hora antes de entrar no trabalho. Claro que eu deixara de sobreaviso que eu poderia atrasar alguns minutos e foram muito compreensivos com isso.
— Como assim eu não posso vê-lo? — Uma voz masculina ecoou pela sala que antes estava silenciosa.
Notei que tinha um homem conversando com a mesma mulher que tentei pedir informações. Ele estava de costas para mim, então só pode notar que ele era muito alto e estava usando calça social e um terno preto.
Desviei a atenção dos dois e voltei meus olhos para uma mensagem que meu pai me mandara há alguns minutos e estava prestes a responder, quando a mesma voz chegou até mim.
— Eu acabei de chegar de viagem e estou preocupado... — Ele pediu, um pouco mais calmo. — Por favor, me deixa entrar e vê-lo?
Eu não ouvi a resposta da recepcionista m*l-humorada porque ela falou baixinho, mas deu para notar pelo movimento das costas do homem subindo e de sua mão ao bagunçar seus cabelos castanhos que o pedido fora negado.
Escutei um agradecimento dele, dirigindo-se para um canto para fazer alguma ligação.
Seu Abílio chegou nesse exato instante com aquele seu sorriso de sempre no rosto. Era impressionante que com ele era uma alegria e otimismo e eu o admirava muito por isso.
Mas eu pude perceber por seu semblante que ele estava cansado, então pedi que aguardasse na sala de espera enquanto eu tentava chamar um taxi na calçada para que ele não ficasse em pé.
Depois de cinco minutos esperando, vi um táxi se aproximar e fiz um sinal com a mão. Pedi ao motorista se ele podia aguardar um pouco que eu logo voltaria.
Voltei para dentro do hospital para buscar seu Abílio, mas ao virar trombei com algo que me fez desestabilizar.
Um poste, talvez?
Isso se poste tivessem braços que enlaçassem as cinturas das pessoas que trombassem neles por acaso.
Levantei meus olhos me deparando com ombros largos e grandes e minhas mão estavam espalmadas sobre o seu peito.
Porque é claro que eu poderia começar o meu dia sendo desastrada logo cedo, né?
— Me desculpa, eu não te vi e...
— Tudo bem — ele respondeu, endireitando meu corpo, afastando-se e ignorando o resto das desculpas que eu estava prestes a pedir.
Só as duas palavras que dissera me fizeram reconhecer que era o mesmo homem que tivera a visita barrada há pouco.
Virei-me em sua direção sem nem saber porque e o vi se aproximar de um táxi.
Do meu táxi.
— Com licença, esse táxi está me esperando. — Falei por sobre seus ombros. O cara era imenso.
— E por que não entrou nele ainda? — sua voz imponente chegou até mim, acompanhado de um olhar frio de seus olhos bem azuis.
— Porque eu tinha que voltar lá para dentro e...
— Então, você pode pegar outro. — Me interrompeu, entrando no táxi e fechando a porta antes que eu pudesse responder devidamente.
Mas que cara chato.
Lindo, porém muito chato. E s*******o também.
Com um suspiro derrotado, acenei para o próximo veículo que se aproximou e estava prestes a fazer o mesmo pedido que fiz ao outro motorista, quando vi seu Abílio saindo pela porta do hospital.
— Achei melhor sair, minha menina, porque você estava demorando e eu precisava esticar essas pernas de velho. — Aproximou-se de mim, sorrindo.
Embarcamos no táxi e voltamos para o nosso prédio, onde eu deixei o meu vizinho e desci novamente pelo mesmo elevador para chamar outro veículo para ir dessa vez até o trabalho.
A BG Comunicações ficava bem na parte central da cidade, o que era sempre sinônimo de muito trânsito, o que não foi diferente hoje.
Acabei chegando no escritório vinte minutos depois do meu horário habitual. Claro que não era muito tempo, mas eu gostava de ser pontual. Não queria que pensassem que pelo fato do meu chefe não estar na empresa eu poderia ter essas regalias.
Eu poderia dizer que – dos três anos que eu trabalhava aqui – eu nunca tinha visto tanto caos que nem nos últimos dias.
Eu comecei a trabalhar na BG Comunicações com vinte anos, entrando como uma estagiária que era uma espécie de assistente da assistente.
Com o passar do tempo, ao ganhar conhecimento e conquistas a confiança do senhor Olavo, tive oportunidades de ser promovida.
Eu amava o meu trabalho e sei que poucas pessoas poderiam dizer isso com tanta certeza como eu. Me formei em publicidade e propaganda e conseguir um bom emprego na área era algo que eu seria completamente grata.
— O senhor Baseggio estava perguntando por você, Manu. Pediu para que vá até a sala dele quando chegasse. — Raíssa, a recepcionista que era sempre muito gentil me passou o recado.
Assenti concordando, embora surpresa, já que pelo que o senhor Gomes – o advogado da empresa – mencionara que ele só viria para a empresa no período da tarde.
Cheguei até a sala, dando batidas na porta e esperei pela autorização para entrar.
Quando o fiz, abri a porta e o meu bom dia morreu na minha garganta antes mesmo de sair.
Era ele. O ladrão de táxi. Felipe Bassegio.
Ele seria o meu novo chefe.