Osman
Chego apressado ao prédio da Alkan, tenho uma reunião em quinze minutos, preciso ir até os elevadores comuns, pois justo hoje meu elevador privativo está passando por manutenção.
Quando estou chegando, observo as portas de um elevador fechando, mas consigo colocar a mão no vão e as portas se abrem novamente. Bom que não está cheio, só tem uma moça dentro que me cumprimenta com um bom dia, apenas resmungo de volta, quero passar despercebido, sem dar chance de algum funcionário me reconhecer e puxar conversa. Não estou de bom humor.
Tudo parece tranquilo, até que com um solavanco o elevador para e as luzes se apagam, que p***a, mas antes mesmo de fazer qualquer comentário a moça que está aqui começa a surtar, percebo que ela está quase caindo, por um impulso a seguro pelos braços delicados.
— Cuidado, moça, tenha calma — falo, já tirando meu celular do bolso, mas parece que a assustei — vou ligar para alguém e avisar. Droga! Está sem sinal — constato e o coloco novamente no bolso.
Olho para baixo, porque sou mais alto que ela. Quando seus olhos me encaram, são de um tom de azul, extremamente lindos, parecem violeta, um rosto delicado, boca em formato de coração, um perfume gostoso, seria cereja? Não consigo identificar.
— Moça, você está bem? — Pergunto por que ela está parecendo que vai ter uma síncope.
— Sim… quer dizer não, não estou bem — começa a falar sem parar — Tenho uma entrevista de emprego, me preparei com muita antecedência, estava no horário, e agora acontece isso. Uma coisa que a senhora que me ligou falou, é que aqui não se toleram atrasos. Preciso tanto desse emprego, é a chance do meu pai se aposentar, de poder alugar uma casa e não viver mais nas dependências do colégio. — Fico olhando pasmo para ela, parece que fala sem se dar conta. — E agora, vou chegar atrasada, saí com duas horas de antecedência de casa, para no fim, ficar presa no elevador com um galã de novela turca.
Espera, o quê? Galã de novela turca? Fico tentado a gargalhar, o que seria muito incomum, poucas coisas e pessoas me fazem gargalhar.
— Moça — falo e ela parece se assustar novamente, que intrigante. — É só avisar que você teve um problema com o elevador, aposto que conseguirá fazer sua entrevista.
Sei muito bem das regras de não tolerar atrasos, eu mesmo as fiz, mas tenho bom senso e espero isso dos meus funcionários, não foi culpa dela, realmente ela estava adiantada, o elevador que a atrasou.
— O senhor não entende esse aqui é um escritório turco — grita, me fazendo dar um passo para trás. Deve ser louca — O mais conceituado em diversos países. Seria um sonho conseguir trabalhar aqui, muito dos meus problemas seriam resolvidos com o salário de secretária executiva que eles pagam — justo, pagamos bem aos nossos funcionários — Fora a experiência maravilhosa — essa última parte, fala com olhar sonhador.
Fico olhando atentamente para ela, falou aquilo com tanta paixão, será que me reconheceu? Ela não parece estar dissimulando.
Ao contrário do que ela pensa, eu entendo, sim, esse escritório só é tão conceituado, porque eu e minha família trabalhamos duro para que ele seja.
Fico a observando atentamente intrigado e um pouco deslumbrado, pela beleza. Certo, muito deslumbrado com a beleza, ela parece uma joia preciosa.
No meu mundo, muitas pessoas são fingidas. Sempre querem tirar algum proveito quando estou por perto. Mas agora vendo ela quieta quase encolhida no canto, me faz acreditar ainda mais que está sendo sincera.
Gostei mais do que deveria em ver aquela paixão em seus olhos. Será que ela é assim em todos os campos da sua vida? Até na i********e? Melhor não ir por esse caminho, já estou algum tempo sem t*****r e isso está me afetando mais do que devia.
— Tem alguém aí — a voz sai pelos alto-falantes.
— Sim! Estamos aqui! — A doida grita, como se ele fosse escutar. Vou até o painel que está próximo a ela, que arregala os olhos. Aperto o botão e me comunico como uma pessoa normal faz.
— Tem, sim, estamos eu e uma moça presos aqui — respondo e ela fica corada, e fica mais linda ainda. p***a, Osman, para de cobiçar a moça, ela pode se tornar sua funcionária, penso frustrado.
— Certo! Senhor, já estamos trabalhando para resolver o problema, logo estarão livres — o homem fala. Estou puto, imaginando que todos estão me aguardando para a reunião. Detesto atrasos, inclusive os meus.
— Tem que apertar para ele te escutar — explico, vai que em algum momento, isso acontece e ela está sozinha.
— Obrigada! — Agradece, mas sinto um tom de ironia, arqueio uma sobrancelha para ela, afirmando que entendi o recado. Ela volta para o canto me ignorando novamente e faço o mesmo com ela.
Quando menos espero, o elevador volta a funcionar, ela desce no andar do RH murmurando um tchau, não falo nada e sigo para meu andar.
Saio do elevador e cumprimento minha secretária, dona Mirtes. Na verdade, era secretária do meu pai e quando ele se aposentou eu a “herdei”. Sempre brinco falando que ela é a melhor herança que meu pai me deixou na empresa. Está querendo se aposentar, o marido se aposentou recentemente e querem viajar o mundo enquanto têm saúde, só preciso achar alguém à altura dela.
— Bom dia, Osman. O cliente da reunião das nove, pediu para te avisar que teve um problema. Ele vai ligar para marcar outro horário — fico até aliviado, pelo menos não fiz ninguém esperar.
— Obrigado, Mirtes, foi até melhor assim — digo e ela assente.
Entro em minha sala, mas não consigo me concentrar, toda hora lembro-me da menina do elevador, ela parecia tão desesperada por um emprego, será que ela conseguiu realizar a entrevista? p***a, nunca me preocupei com essas coisas, mas enquanto não souber, não conseguirei dar andamento ao meu trabalho.
— Mirtes, ligue para a senhorita Alana do RH, por favor. Hoje uma moça, loira, de olhos azuis, chegou atrasada para uma entrevista de emprego aqui no nosso escritório. O elevador em que estávamos deu um problema, por isso ela se atrasou. Pergunte se ela conseguiu realizar a entrevista.
Estou tendo uma ideia, não sei se é boa, ela é muito jovem pelo que pude ver, mas me pareceu determinada, pode ser que dê certo.
— Mirtes, pode vir na minha sala um momento? — Preciso consultar a pessoa mais interessada nisso.
— Pois não, meu menino? — ela sempre me chama assim quando estamos sozinhos — já liguei para o RH, a Alana dará um retorno assim que souber mais detalhes. — sempre eficiente.
— Certo. Quero fazer uma pergunta importante. Acha que consegue treinar alguém de fora para ocupar o seu lugar? — Ela dá um sorriso enorme.
— Posso treinar qualquer pessoa — fala com a confiança de quem trabalha aqui há trinta anos.
— Essa moça que pedi para você perguntar para senhorita Alana. Percebi que tem bastante potencial, mas vou deixar você avaliá-la. Oferecerei um contrato de três meses de experiência. Não estou prometendo nada, mas, se no final ela conseguir aprender tudo. Você poderá se aposentar mais cedo — o sorriso que ela me dá, consegue iluminar o andar inteiro.
— Farei o meu melhor, mas se ela não for boa o bastante, encontraremos uma que seja. — É categórica, e sempre a admirei pelo seu trabalho impecável, tenho certeza, que ela encontrará a melhor.
O telefone dá mesa dela toca e ela atende pelo meu — sim, Alana, não a entrevistaram? — p***a, como assim não a entrevistaram?
— Mirtes, me dá o telefone, por favor — ela me passa cautelosa — Senhorita Alana, por que você não entrevistou a moça?
— Ela estava atrasada, senhor Alkan e... — Não a deixo terminar de falar.
— Sim, ela teve um imprevisto e não, ela não estava arrumando desculpas — falo enfático, porque sei que foi isso que pensaram. — Fiquei preso com ela no elevador, você deveria ter mais empatia com os candidatos — estou com tanta raiva que nem a deixo responder. — Ela estava adiantada quando o elevador parou, então eu te dou meia hora para encontrá-la e marcar uma entrevista, diretamente comigo ainda hoje. Me mande o currículo dela por e-mail — desligo o telefone sem me despedir. Estou muito decepcionado.
Não sei por que estou tão puto com isso. Acho que é porque vi algo nessa moça e não foi só a beleza e o perfume doce de cereja, foi potencial, paixão, garra.
Acesso meu e-mail e enfim tenho um nome para ligar ao rosto angelical, Paola Martinelli, 24 anos, solteira, sabia que era bem nova. Tem experiência como secretária executiva, mas em pequenas empresas, mas isso não tem a menor importância. Com o treinamento certo, ela pode ser incrível. Meus pensamentos querem correr para outro tipo de ensinamentos, mas coloco de lado. Nem pensar nisso.
Sei que conseguiram contatá-la, Alana informou à Mirtes. Ela chegará dentro de alguns minutos, estou ansioso. Quando já fiquei assim por alguma mulher? Ou por alguma entrevista, ou reunião? Tenho certeza que é pela injustiça que seria cometida se eu não a tivesse procurado.
Mirtes anuncia que ela chegou. Me levanto, e fito o horizonte pela parede envidraçada, me preparando para o impacto de vê-la novamente. Assim que ela entra, sinto o perfume de cereja.
— Com licença senhor Alkan — fala com a voz doce, ouvi-lá falar meu nome, faz um arrepio cruzar o meu corpo.
Me viro e não estava preparado para a visão de seus cabelos dourados soltos. Imagino que o coque não aguentou as emoções.
— Que bom que conseguiram te contatar, senão algumas pessoas seriam demitidas hoje — ela fica parada, com os olhos arregalados, segurando a bolsa como se sua vida dependesse disso.
— Sente-se senhorita Paola, tenho uma proposta para te fazer.