— Antes de você me abandonar aqui, vamos a um show na sexta-feira à noite daquela banda que você ama.
Luna diz toda animada, os olhos brilhando como se já estivesse lá.
Eu quase rio da maneira dramática dela.
— Você está falando da Nightbloom?
levanto a sobrancelha, mas um sorriso escapa.
— Eu amo essa banda de rock. Claro que vou com você.
Luna bate palmas, literalmente.
— Então está marcado: sexta-feira à noite. Nós duas, o show da Nightbloom, e você vai gritar tanto que vai perder a voz!
ela fala, empolgada demais para alguém que ainda nem tomou café.
Eu balanço a cabeça, mas sinto meu peito aquecer. Fazia tempo que eu não via Luna tão animada… e fazia tempo que eu mesma não me permitia sentir isso.
— Vai ser perfeito
digo numa voz mais baixa, sincera.
— Antes de eu ir embora… vai ser bom ter uma última noite só nossa.
— Então vamos nos preparar!
Luna anuncia, já levantando do sofá como se tivesse levado um choque de energia.
Ela mexe no celular e, em segundos, a sala inteira é preenchida por uma melodia sombria, envolvente, daquelas que arrepiam a pele antes mesmo da letra começar.
— Essa é uma das minhas preferidas
ela diz, aumentando um pouco o volume.
— Fala sobre um amor proibido entre uma criatura das trevas e outra da luz. Bem a sua cara.
Eu rio baixinho.
— A minha cara por quê?
pergunto, mesmo sabendo a resposta.
Luna me encara com aquele olhar de amiga que conhece todos os meus segredos até os que eu finjo que não tenho.
— Porque você sempre foi atraída pelo que é misterioso, Ravena. E também porque eu sei que você ama essas histórias de escuridão se misturando com luz… mesmo que você nunca admita ela provoca.
A voz grave do vocalista entra, arrastada, quase hipnótica, como se estivesse sussurrando um segredo proibido:
“Sou a sombra que toca a luz
sem nunca poder tê-la.
Sou a noite que te chama,
e você volta… mesmo sabendo que dói.”
A bateria cresce, profunda, vibrando no chão e em mim.
Sinto um arrepio subir pela minha espinha.
Algumas letras não são apenas letras.
São mensagens. Ou espelhos.
"Sou a sombra…"
Acho que sempre caminhei entre luz e trevas, mesmo sem perceber.
"Sem nunca poder tê-la…"
Perdi meus pais. Perdi coisas que nem sei nomear. Talvez eu esteja sempre procurando algo que não posso alcançar.
Você volta… mesmo sabendo que dói.
"Eu também volto."
Para lembranças, para lugares, para sentimentos que machucam mas que me puxam de volta assim mesmo.
Talvez seja por isso que Vale das Sombras não me assusta. Talvez seja por isso que eu sinto que… algo lá me espera.
Abro os olhos devagar. Luna ainda está dançando pela sala, completamente entregue ao momento.
— Ravena… o que você tem?
Luna pergunta, baixando o volume da música até que reste apenas um sussurro sombrio no fundo da sala.
Ela se senta ao meu lado, deixando o peso do corpo afundar no sofá, como se estivesse tentando me ancorar de volta ao mundo real.
Eu percebo que fiquei tempo demais calada.
— Nada… só viajei por um segundo
murmuro, mas minha voz não convence nem a mim mesma.
Luna ergue uma sobrancelha. Ela me conhece bem demais para engolir respostas simples.
— Viajar pra onde?
provoca, mas sua expressão tem mais preocupação do que brincadeira.
Suspiro, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Não sei… essa música mexe comigo de um jeito estranho. Como se… sei lá… estivesse falando comigo.
Luna abre um sorriso leve, mas seus olhos continuam atentos.
— Música faz isso. Mas você ficou branca igual papel, amiga. Parecia que estava vendo um fantasma.
Dou um sorriso torto.
— Não vi nada… só senti. Um arrepio, sabe? Como se… alguma coisa estivesse me esperando naquela cidade.
Luna franze o cenho.
— Esperando? Tipo… destino? Ou tipo “coisas estranhas que me deixam desconfortável”? pergunta, meio séria, meio brincando.
— Eu não sei
respondo, apertando as mãos.
— Só sei que, por um instante, a letra parecia mais real do que deveria.
Ela me observa por alguns segundos. Depois, coloca a mão quente sobre a minha.
— Então é só sua mente dando voltas. Você perdeu muita coisa, Ravena… qualquer mudança grande mexe mesmo. Mas eu prometo ela sorri
— que você não vai para Vale das Sombras sozinha. Eu vou te ajudar em tudo antes da viagem. E ainda vamos no show da Nightbloom pra lavar essa alma carregada.
Eu rio, e a tensão no meu peito afrouxa um pouco.
— Você tem razão. Talvez eu só esteja… nervosa.
— Claro que está ela ri.
— Você vai morar com uma família rica. Num lugar chamado Vale das Sombras. E ainda por cima vai lidar com crianças. Isso é suficiente pra deixar qualquer um apavorado.
Dou uma leve cotovelada nela.
— i****a.
— Sua i****a favorita
ela responde.
E pela primeira vez naquele dia… eu realmente me sinto mais leve.