No fim do show, ainda sinto a vibração da última música presa no peito.
— Bem… obrigada, Luna. Eu amei o show e… amei passar esse tempo com você
digo, abraçando-a forte.
Ela me aperta de volta como se quisesse me manter ali.
— Mas eu preciso ir
sussurro, sentindo o peso da palavra ir.
— Sim, eu sei… mas antes vem cá!
Ela me puxa até uma mesa improvisada no canto.
Pega dois copos de drink um roxo e um vermelho e me entrega o roxo, sorrindo com um brilho emocionado nos olhos.
— À nossa amizade… e à sua nova vida na Cidade de Vale das Sombras.
Sorrio de canto e ergo meu copo.
— À nova vida. E ao mistério que vem com ela.
Os copos se chocam, e o som parece ecoar mais do que deveria.
— Bem, vamos pra casa antes que o Diego chegue
digo.
Nós duas saímos da casa de show, caminhando lado a lado pelas ruas iluminadas por postes fracos. A noite está quente, mas uma brisa fria levanta os pelos dos meus braços.
Quando chegamos à minha casa, entro rapidamente, pego minha mala e paro na porta por um momento… olhando para o lugar onde eu cresci, onde vivi feliz antes de perder tudo. Uma pontada de dor aguda aperta meu peito.
É nesse silêncio que ouvimos uma buzina curta.
Luna suspira.
— Bem… sua carona chegou.
Ela me guia até o carro do Diego, ainda segurando meu braço como se fosse me perder de vista a qualquer segundo.
Seus olhos se arregalam quando vê o motorista saindo do carro.
— Nossa, Ravena… você poderia ter me avisado que conhecia um homem tão bonito assim!
— Luna!
repreendo, revirando os olhos.
— Esse é o Diego… o filho do delegado da cidade. A gente estudou junto.
Diego se aproxima com aquele sorriso gentil de sempre. Ele pega minha mala sem dizer nada, coloca no porta-malas com cuidado e fecha.
— Pronta?
ele pergunta, me olhando nos olhos.
Eu abro a boca para dizer “sim”, mas travo.
De repente, algo me vem à mente.
— Espera… eu esqueci uma coisa.
Volto dois passos, quase tropeçando no próprio nervosismo.
— Diego, espera aqui um pouco. Eu preciso pegar uma coisa.
— Vai lá
ele diz, encostando no carro.
Eu deixo Luna e Diego conversando na calçada enquanto entro de novo na casa.
O ar dentro está mais frio do que deveria.
Meus passos ecoam pelo corredor vazio.
Vou direto ao meu quarto. Abro a gaveta da escrivaninha.
E encontro a foto eu, minha mãe e meu pai, sorrindo como se nada no mundo pudesse nos separar.
Eu abraço o porta-retrato contra o peito com tanta força que chega a doer. É como se meus pais pudessem me segurar por mais um segundo através daquela moldura fria. Depois respiro fundo, enxugo uma lágrima teimosa antes que caia, e caminho até a porta.
Quando saio para a calçada, pronta para ir… paro.
Luna está beijando o Diego.
Um beijo daqueles que dizem muita coisa em pouco tempo.
Eu arqueio a sobrancelha.
— Muito bem… eu saio por um minuto e vocês já querem virar o carro
digo, cruzando os braços, provocando.
Luna se afasta rápido, o rosto corado.
— Eu… não resisti
ela confessa, rindo nervosa.
Diego passa a mão pelos cabelos, tentando disfarçar o sorriso satisfeito.
Eu balanço a cabeça, rindo.
— Acho que você não vai sentir a minha falta, Luna
provoco.
Ela solta um suspiro dramático e se joga no meu pescoço.
— Claro que vou! Um beijo não apaga uma amizade inteira, sua boba.
Eu abraço ela de volta, apertando forte. Por um instante, o mundo parece pequeno e seguro de novo.
Mas quando me afasto, percebo que esse momento é de despedida de verdade.
Diego se aproxima, gentil.
— Pronta agora?
Eu seguro a foto dos meus pais com mais cuidado, como se fosse um amuleto.
— Pronta
respondo… mesmo sem ter certeza.
Luna enxuga uma lágrima rápida, tentando disfarçar.
— Vai lá, Ravena… e manda mensagem quando chegar. E se a cidade for mesmo sombria como dizem… me conta tudo.
— Eu conto prometo.
— Até o que você não deveria saber.
Ela ri, mas seus olhos mostram que está preocupada.
Diego abre a porta do carro para mim, educado como sempre.
Eu entro.
Fecho a porta.