capítulo 8. o porta retrato

731 Words
No fim do show, ainda sinto a vibração da última música presa no peito. — Bem… obrigada, Luna. Eu amei o show e… amei passar esse tempo com você digo, abraçando-a forte. Ela me aperta de volta como se quisesse me manter ali. — Mas eu preciso ir sussurro, sentindo o peso da palavra ir. — Sim, eu sei… mas antes vem cá! Ela me puxa até uma mesa improvisada no canto. Pega dois copos de drink um roxo e um vermelho e me entrega o roxo, sorrindo com um brilho emocionado nos olhos. — À nossa amizade… e à sua nova vida na Cidade de Vale das Sombras. Sorrio de canto e ergo meu copo. — À nova vida. E ao mistério que vem com ela. Os copos se chocam, e o som parece ecoar mais do que deveria. — Bem, vamos pra casa antes que o Diego chegue digo. Nós duas saímos da casa de show, caminhando lado a lado pelas ruas iluminadas por postes fracos. A noite está quente, mas uma brisa fria levanta os pelos dos meus braços. Quando chegamos à minha casa, entro rapidamente, pego minha mala e paro na porta por um momento… olhando para o lugar onde eu cresci, onde vivi feliz antes de perder tudo. Uma pontada de dor aguda aperta meu peito. É nesse silêncio que ouvimos uma buzina curta. Luna suspira. — Bem… sua carona chegou. Ela me guia até o carro do Diego, ainda segurando meu braço como se fosse me perder de vista a qualquer segundo. Seus olhos se arregalam quando vê o motorista saindo do carro. — Nossa, Ravena… você poderia ter me avisado que conhecia um homem tão bonito assim! — Luna! repreendo, revirando os olhos. — Esse é o Diego… o filho do delegado da cidade. A gente estudou junto. Diego se aproxima com aquele sorriso gentil de sempre. Ele pega minha mala sem dizer nada, coloca no porta-malas com cuidado e fecha. — Pronta? ele pergunta, me olhando nos olhos. Eu abro a boca para dizer “sim”, mas travo. De repente, algo me vem à mente. — Espera… eu esqueci uma coisa. Volto dois passos, quase tropeçando no próprio nervosismo. — Diego, espera aqui um pouco. Eu preciso pegar uma coisa. — Vai lá ele diz, encostando no carro. Eu deixo Luna e Diego conversando na calçada enquanto entro de novo na casa. O ar dentro está mais frio do que deveria. Meus passos ecoam pelo corredor vazio. Vou direto ao meu quarto. Abro a gaveta da escrivaninha. E encontro a foto eu, minha mãe e meu pai, sorrindo como se nada no mundo pudesse nos separar. Eu abraço o porta-retrato contra o peito com tanta força que chega a doer. É como se meus pais pudessem me segurar por mais um segundo através daquela moldura fria. Depois respiro fundo, enxugo uma lágrima teimosa antes que caia, e caminho até a porta. Quando saio para a calçada, pronta para ir… paro. Luna está beijando o Diego. Um beijo daqueles que dizem muita coisa em pouco tempo. Eu arqueio a sobrancelha. — Muito bem… eu saio por um minuto e vocês já querem virar o carro digo, cruzando os braços, provocando. Luna se afasta rápido, o rosto corado. — Eu… não resisti ela confessa, rindo nervosa. Diego passa a mão pelos cabelos, tentando disfarçar o sorriso satisfeito. Eu balanço a cabeça, rindo. — Acho que você não vai sentir a minha falta, Luna provoco. Ela solta um suspiro dramático e se joga no meu pescoço. — Claro que vou! Um beijo não apaga uma amizade inteira, sua boba. Eu abraço ela de volta, apertando forte. Por um instante, o mundo parece pequeno e seguro de novo. Mas quando me afasto, percebo que esse momento é de despedida de verdade. Diego se aproxima, gentil. — Pronta agora? Eu seguro a foto dos meus pais com mais cuidado, como se fosse um amuleto. — Pronta respondo… mesmo sem ter certeza. Luna enxuga uma lágrima rápida, tentando disfarçar. — Vai lá, Ravena… e manda mensagem quando chegar. E se a cidade for mesmo sombria como dizem… me conta tudo. — Eu conto prometo. — Até o que você não deveria saber. Ela ri, mas seus olhos mostram que está preocupada. Diego abre a porta do carro para mim, educado como sempre. Eu entro. Fecho a porta.
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