O fim

1483 Words
📖 PODER SEM DONO Capítulo 1 — O Fim A noite havia coberto o reino. No topo da montanha mais alta daquela região, erguia-se o castelo de Kaelen. Era impossível confundi-lo com qualquer outro lugar. As torres ultrapassavam as nuvens, as muralhas pareciam ter sido construídas para resistir ao próprio tempo e centenas de janelas iluminavam-se na escuridão. Grandes jardins cercavam a construção, enquanto fontes antigas corriam silenciosamente entre estátuas de criaturas que já não existiam. Aquele era o castelo do Ser Supremo. O ser mais poderoso daquele mundo. Reis o respeitavam. Demônios o temiam. Elfos conheciam seu nome desde os tempos antigos. Nenhuma criatura ousava desafiar sua autoridade. E, durante algum tempo, aquele lugar também havia sido o lar de Veyra. Mas naquela noite, alguma coisa havia mudado. Veyra estava no grande salão. Parada diante de Kaelen. Ela não entendia por que ele havia pedido que ela fosse até ali. Kaelen permanecia diante do enorme trono de pedra n***a. Seu rosto estava sereno. Calmo. Frio. Veyra conhecia aquela expressão. Era a expressão que ele usava quando precisava tomar uma decisão que ninguém poderia fazê-lo mudar. — Você queria falar comigo? — perguntou ela. — Sim. Veyra esperou. — Aconteceu alguma coisa? — Aconteceu. Ela deu um pequeno passo para perto. — O quê? Kaelen ficou alguns segundos em silêncio. Então disse: — Nosso relacionamento termina hoje. Veyra simplesmente ficou olhando para ele. Como se não tivesse entendido. — O quê? — Você ouviu. — Não. A resposta saiu imediatamente. — Não ouvi. Kaelen não mudou de expressão. — Veyra. — Não. Ela balançou a cabeça. — Você deve estar brincando. — Não estou. O sorriso que havia surgido no rosto dela desapareceu. — Então... você está terminando comigo? — Sim. A palavra foi curta. Definitiva. Veyra ficou imóvel. — Por quê? Kaelen não respondeu. — Eu fiz alguma coisa? — Não. — Então eu errei em alguma coisa? — Não. — Você está cansado de mim? — Não. Veyra sentiu os olhos começarem a arder. — Então por quê? Kaelen respirou lentamente. — Porque isso precisa terminar. — Isso não é uma resposta. — É a única que vou dar. Ela ficou alguns segundos em silêncio. Então seus olhos percorreram o enorme salão. As paredes. As colunas. As escadarias. Tudo naquele lugar lembrava os anos que havia passado ao lado dele. — Depois de tudo? Kaelen permaneceu calado. — Depois de tudo que nós vivemos? — Sim. — Você simplesmente decidiu que acabou? — Sim. Veyra soltou uma pequena risada nervosa. — Você é c***l. Kaelen não respondeu. — Eu fiquei ao seu lado. A voz dela começou a tremer. — Quando todos tinham medo de você, eu fiquei. — Eu sei. — Quando ninguém entendia quem você era, eu fiquei. — Eu sei. — Quando você me ensinou a controlar meu poder... Ela respirou fundo. — Eu confiei em você. Kaelen fechou os olhos por um instante. — Eu sei. — Então por que está fazendo isso? Ele abriu os olhos. — Porque não quero mais continuar. Aquelas palavras foram ainda mais dolorosas. Veyra ficou em silêncio. — Você não me ama mais? Kaelen demorou alguns segundos. — Isso não importa. — Para mim importa! Ela finalmente elevou a voz. O som ecoou pelo enorme salão. — Para mim importa, Kaelen! Ele permaneceu imóvel. Veyra respirou fundo, tentando controlar as lágrimas. — Olhe para mim e diga que não me ama. Kaelen a encarou. Silêncio. Ele não disse. Veyra percebeu. — Você ainda me ama. Kaelen desviou o olhar. — Isso não muda a minha decisão. — Então você me ama e mesmo assim vai me mandar embora? — Sim. Veyra ficou sem palavras. Foi então que Kaelen caminhou até uma das mesas próximas e colocou uma pequena bolsa sobre ela. Veyra olhou para o objeto. — O que é isso? — Algumas roupas. Ela lentamente olhou para ele. — Roupas? — E algumas moedas. — Para quê? Kaelen respondeu sem emoção: — Você vai deixar o castelo esta noite. Veyra sentiu o coração apertar. — Você está me expulsando? — Sim. Ela ficou completamente imóvel. — Você está me colocando para fora? — Sim. — Da sua casa? — Do meu castelo. Veyra olhou ao redor. Aquele lugar tinha sido sua casa durante tanto tempo. Ela havia caminhado por aqueles corredores. Dormido naquelas câmaras. Sentado nos jardins. Rido. Chorado. Vivido. E agora Kaelen estava simplesmente dizendo que ela precisava sair. — Para onde eu vou? — Para onde quiser. — Eu não tenho casa. — Encontrará uma. — Eu não tenho dinheiro suficiente. — Há moedas naquela bolsa. — Eu não conheço ninguém. Kaelen ficou em silêncio. Veyra aproximou-se dele. — Você realmente vai fazer isso? — Sim. — Você vai abrir aquelas portas e me mandar embora? — Sim. Ela começou a chorar. — Kaelen... Ele não se aproximou. Talvez porque soubesse que, se o fizesse, poderia mudar de ideia. — Eu não quero ir. — Eu sei. — Então não me mande. — Preciso mandar. — Não precisa! A energia dentro de Veyra começou a reagir. As janelas vibraram. As chamas das tochas cresceram. Pequenas rachaduras apareceram no chão de pedra. Kaelen imediatamente olhou para ela. — Controle-se. Veyra apertou os punhos. — Eu estou tentando! — Respire. — Você está me expulsando e quer que eu fique calma?! O poder aumentou. As paredes estremeceram. Kaelen caminhou até ela. — Veyra. — Não! — Olhe para mim. Ela olhou. — Você n******e deixar sua dor controlar seu poder. As lágrimas continuavam descendo pelo rosto dela. — Eu não sei como fazer isso sem você. Kaelen respondeu: — Então aprenda. Veyra ficou em silêncio. Ele havia sido seu apoio. Seu equilíbrio. Durante tanto tempo, uma parte de sua força havia permanecido dentro dele, mantida sob controle para impedir que aquela energia a consumisse. Agora tudo estava voltando. E ela teria que aprender sozinha. Kaelen estendeu a mão. Uma luz surgiu entre os dois. A energia que ele havia mantido dentro de si começou a retornar para Veyra. Ela levou a mão ao peito. — Não... — É sua. — Eu não quero! — Você precisa. O poder entrou nela. Veyra caiu de joelhos. O chão tremeu. As janelas estremeceram. O ar ficou pesado. Kaelen permaneceu diante dela. — Levante-se. Veyra respirou com dificuldade. — Por favor... — Levante-se. Ela ergueu o rosto. — Você realmente quer que eu vá? Kaelen ficou em silêncio. — Quero ouvir da sua boca. Ele finalmente respondeu: — Sim. Aquela única palavra destruiu o último pedaço de esperança que ela ainda segurava. Veyra levantou-se lentamente. Pegou a pequena bolsa sobre a mesa. Olhou para Kaelen uma última vez. — Eu te amei de verdade. Kaelen não respondeu. — Espero que um dia você se arrependa. Ela virou-se. Começou a caminhar pelo salão. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Quando chegou às enormes portas, elas se abriram. O vento frio entrou no castelo. Veyra parou por alguns segundos. Talvez esperando que Kaelen a chamasse. Que dissesse seu nome. Que mandasse fechar as portas. Que voltasse atrás. Nada aconteceu. Ela atravessou. As portas se fecharam atrás dela. Veyra havia sido colocada para fora. Sozinha. Sem casa. Sem família nobre. Sem p******o. Sem Kaelen. Ela desceu os primeiros degraus do castelo com os olhos cheios de lágrimas. Atrás dela, as enormes portas permaneceram fechadas. Veyra olhou para trás. O castelo parecia ainda maior agora. E ela parecia pequena diante dele. — Adeus, Kaelen. Então começou a descer a estrada. Enquanto isso, no interior do castelo, Kaelen permanecia sozinho no grande salão. Ele continuava imóvel. Mas, quando as portas se fecharam completamente... seus olhos perderam aquela frieza. Por apenas alguns segundos. Ele fechou os punhos. Porque havia acabado de mandar embora a única pessoa que havia conseguido permanecer ao lado dele sem temê-lo. E mesmo sendo o Ser Supremo... Kaelen sabia que havia acabado de perder Veyra. Lá fora, Veyra caminhava sem saber para onde ir. O vento batia contra seu rosto. As lágrimas ainda não haviam parado. Mas havia algo diferente dentro dela. O poder. Todo o poder que Kaelen havia segurado durante anos. Agora estava novamente dentro dela. Livre. Indomável. Sem ninguém para contê-lo. Veyra parou no meio da estrada. Olhou para as próprias mãos. Uma pequena onda de energia surgiu ao redor de seus dedos. Ela respirou fundo. — Então agora eu estou sozinha... A energia aumentou. As árvores próximas estremeceram. Veyra fechou os olhos. — Tudo bem. Ela enxugou as lágrimas. E continuou caminhando. Sem saber que, naquela mesma noite, criaturas antigas espalhadas pelos diferentes reinos haviam sentido o despertar daquela força. Uma força que não pertencia a nenhuma família. Nenhuma coroa. Nenhum rei. Nenhum senhor. Veyra era uma súcubo plebeia. Mas agora carregava dentro de si um poder que ninguém mais controlava. Ela havia se tornado um poder sem dono.
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