ALANA CLIVE
Quase um mês se passou desde o fim do meu relacionamento. Ou o que era. Nem sei mais. É engraçado como o tempo pode ser c***l e generoso ao mesmo tempo. No começo, cada minuto parecia um golpe, mas agora, eu me sinto viva de novo.
Me sinto leve!
Respirar e viver trabalho foi a minha terapia. Desde que fui escalada para ajudar na organização da festa da editora, me joguei de cabeça. Planejamento, fornecedores, cronograma, decoração, lista de convidados, eu participei de tudo. E não apenas para cumprir meu papel, mas porque manter minha mente ocupada evitou que meu coração sangrasse mais do que devia.
Foi uma forma de esquecer a humilhação e a vergonha. Depois do que ouvi naquele dia, através de um dos amigos de Daniel, eu fiquei imaginando o grupinho dele rindo e fazendo piadas comigo.
Eu tinha que esquecer de vez. E posso dizer que esqueci.
Hoje é o grande dia. A festa. Finalmente e eu já estou pronta.
Comprei um vestido novo, bem elegante e sensual na medida certa. Fiz mechas novas no cabelo, um corte leve que realça o meu rosto e, confesso, eu amei o resultado. As minhas unhas estão impecáveis, estou de sapato novo, maquiagem perfeita e eu me sinto linda. Fazia tempo que eu não me sentia assim: bonita.
Fazia um tempo que eu não gastava comigo assim e que não dedicava um tempo bom.
Valeu cada centavo.
Passo o batom diante do espelho pela última vez. Um tom avermelhado queimado que contrasta lindamente com minha pele. Sorrio para o reflexo e noto a leveza no meu rosto que está levemente mais fino. Eu emagreci três quilos e não foi programado. Com isso, os meus olhos estão mais vivos e a minha cintura está impecável. Eu vou manter esse peso custe o que custar.
Eu sobrevivi aquela tempestade e do jeito certo. Amei o resultado!
Pego minha bolsa, a chave do carro, e respiro fundo para sair. Não esqueci de nada e o crachá de acesso está aqui. Perfeito! Eu desligo tudo, tranco tudo e abro a porta para sair. Mas dou de cara com o último homem que eu esperava, ou queria, ver.
Estava demorando...
— Daniel? — A minha voz sai seca e indiferente.
Ele está encostado no batente da porta, como se tivesse todo o direito de estar ali. Usa jeans escuros, camisa social azul clara com as mangas dobradas até os cotovelos e um olhar suplicante que me irrita. Parece até que ele está aqui há um tempo, esperando eu sair ou esperando a coragem de bater.
— Alana...
— O que você está fazendo aqui? — Cruzo os braços. A noite já começou e eu não quero que ele estrague isso. Esperei essa noite por semanas.
— Eu precisava te ver. Precisava e... — Ele me olha dos pés à cabeça. — Caramba... você está linda. — Eu reviro os olhos. — Caralhö... muito linda e gostosa.
— Tarde demais pra elogios, não acha? — Eu não vou cair em nada do que ele disser.
— Eu errei. Eu sei que errei e me arrependi desde o segundo em que você saiu por aquela porta. — Ele dá um passo em minha direção. E eu recuo. — Me dá uma chance de te explicar... a gente pode consertar tudo. A gente se ama...
— Explicar o quê, Daniel? O que você fez já está mais do que explicado. Eu não quero conversar. Não quero te ver e não quero perder o meu tempo... já perdi demais. — Ele negä. — E eu sei que isso é só porque eu descobri... caso contrário, ainda estaria fazendo.
— Não, não iria... por favor...
Ele aperta os lábios, frustrado. Por um segundo, seu olhar se torna mais duro e ele me olha toda mais uma vez. Ele está se mordendo, eu vejo isso.
— E pra onde você está indo assim, toda produzida? — Dou uma risada seca. — Quem você vai ver? Já está saindo com outro?
— Algum problema se eu sair, me divertir e viver? — Passo por ele, apertando o controle do carro para destravá-lo. — Me esquece e vai viver a sua vida... agora pode ficar com quatro, sete ou dez mulheres que eu não ligo...
— Você vai sair com outro cara? — Ele pergunta, a voz carregada de ciúmes. — Quem é? Que porrä é essa?
— Não é da sua conta. Você perdeu o direito de perguntar qualquer coisa sobre minha vida. — Eu abro a porta do carro. — Adeus, Daniel.
Entro no carro e bato a porta com força e já travo a porta. Ao ligar o motor, vejo pelo retrovisor o olhar atordoado dele e Daniel ainda tenta vir mais perto insistir. Mas, engato a marcha e saio rapidamente. Dou algumas voltas pela cidade, desviando o caminho original e é proposital por dois motivos: eu sei que ele é capaz de tentar me seguir e não vou deixar que ele faça isso e arruíne a minha noite. E o outro motivo, é que eu não quero chegar na festa com a cara de raiva que estou agora.
Eu quero a leveza de minutos atrás...
Quando chego ao local da festa, tudo está absolutamente perfeito. O espaço é amplo, decorado com luzes douradas e suaves, mesas com arranjos florais sofisticados e uma trilha sonora ambiente que mistura jazz com balada e música instrumental moderna. Algo bem animado!
Já há muitas pessoas em todas as direções. Vejo gente elegante, outros claramente famosos da internet, influencers literários que conheço de nome e alguns que já entrevistei antes. Sorrio. É um evento grande, e eu fiz parte disso. Me sinto orgulhosa. Ah, ainda tem uma linda biblioteca para fotos e vídeos.
Tudo aqui está impecável!
Começo a circular, falando com colegas de trabalho e vou tirando fotos, organizando detalhes com o pessoal da equipe de marketing. Nem parece um trabalho hoje. Eu como uns docinhos, bebo um pouco de champanhe e pouso até para fotos que vão ficar no mural de eventos da editora. O meu chefe passa por todos os lugares, conversa com muita gente e com ele, está alguns diretores da editora.
É gente grande e tem mais outros grandes com eles!
Nossa!
Um tempo depois, eu faço uma pausa rápida para beber mais um pouco de espumante e acabo me posicionando perto da bancada de livros inéditos que ajudamos a organizar. Tem cada livro perfeito e os grandes destaques da noite são: romance de época, os contemporâneos e dark romance.
É uma febre entre nós os mais jovens!
Estou lendo a sinopse de um dos romances quando sinto uma presença ao meu lado. Um perfume amadeirado, forte e sofisticado invade os meus sentidos.
— Gosta de romances mais intensos? — Viro-me e meus olhos se abrem mais do que o normal.
À minha frente, está um homem mais velho. Diria que tem por volta dos seus 37 anos, ou talvez 40. No máximo, eu acho. Cabelos escuros com alguns fios grisalhos nas laterais bem leves, barba bem aparada, olhos castanho-claros que brilham sob a luz, e um sorriso que... Meu Deus! Aquele sorriso poderia destruir fortunas e corações.
— Depende... — Consigo dizer, com um sorriso meio torto. — Se forem bem escritos, gosto sim.
Ele estende uma taça de bebida em minha direção.
— Achei que você gostaria deste. É um espumante italiano. — Ele estende pra mim. — É leve, mas marcante.
Ao pegar a taça, os nossos dedos se tocando de leve e ele sorrir.
— Obrigada...? — Eu não faço ideia de quem ele seja.
— Victor. — Ele sorri. — E você deve ser a Alana. — Meu coração salta uma batida.
— Me conhece? — Eu não lembro desse homem. — Me desculpe, e-eu não quero ser grossa, mas... e-eu não me lembro se...
— Calma! Digamos que eu acompanhei de longe os preparativos da festa. Eu sou um grande amigo do Henrique Walson... — Henrique é um dos grandes diretores, na verdade, é o grande CEO da editora. — E você estava em todas as listas e relatórios de execução. E eu vi o seu nome no crachá... — Nossa! Isso me surpreende. — Discreta, mas eficiente. Estava curioso para te conhecer. Já é bem conhecida...
Ele me olha de um jeito que me faz corar. É automático e eu não consigo controlar. Atrás dele, eu vejo o meu chefe nos olhando e ele sorrir enquanto eleva uma taça de champanhe. Ele tem alguma coisa a ver com isso?
— Bem... agora conhece. — Eu continuo. — É um prazer... Victor.
— O prazer é meu... e eu preciso dizer. — Ele me olha toda. — Você é incrivelmente linda.
Sinto um calor subir pelo corpo. Não é um elogio vazio e dito de qualquer forma. Vem acompanhado de um olhar seguro, de quem não tem pressa e sabe o que está dizendo. O jeito que ele fala, que me olha e por continuar aqui, me deixa até sem graça. Mas, não desconfortável.
— Obrigada, Victor. Você também está... surpreendente. — Ele ri.
— Surpreendente? Essa é nova. Gostei. — Ele toma um gole da sua bebida e eu faço o mesmo.
Conversamos mais um pouco. Descubro que ele é um dos investidores do grupo editorial há anos e participava dos negócios à distância. Mas, ele acabou de se mudar. Ele tem duas empresas, mas não entramos muito no assunto. É culto, charmoso, tem um senso de humor refinado e uma voz grave que arrepia.
Ainda estou encantada com o charme e beleza dele. Nem parece um homem mais velho!
E, ele não tem aliança!
Não sei quanto tempo se passa, mas percebo que estou relaxada. Leve. Rindo. E o mais importante: estou sem pensar em Daniel. Nem por um segundo.
Victor toca levemente o meu cotovelo, me conduzindo para um canto mais reservado do salão. Confesso que, eu hesito por alguns segundos, mas aceito. A nossa conversa está mesmo muito boa. Já aqui num outro local, nós continuamos a conversar, e ele me pergunta sobre meus livros favoritos, minha visão sobre o mercado literário, os meus planos futuros... é uma conversa diferente. E muito boa!
Ele conta que é viúvo há uns anos e desde então, não teve mais nenhum relacionamento. Ele tem um filho, tem vivido para o trabalho e agora, estará mais perto da editora já que se mudou. Ele está abrindo uma Sede de uma das empresas aqui na cidade.
Impressionante!
Em dado momento, ele se inclina um pouco mais próximo.
— Alana...
— Sim?
— Posso ser sincero?
Assinto.
— Você tem uma energia que me intriga. — Ele sorri com gentileza. — Só queria dizer que é um privilégio passar essa noite ao de uma mulher tão linda e elegante como você.
Sinto meu coração bater diferente. Uma mistura de surpresa com choque grande. Eu jamais imaginei que passaria o maior tempo com um homem desconhecido. E que homem! Já disse que ele é lindo? Ele é alto, tem um corpo bem malhado na medida certa e é educado num nível que cativa.
— O privilégio é meu, Victor...
E lá vem mais um sorriso daqueles que me arrepia. Que loucura!
E, pela primeira vez em muito tempo, penso que talvez o universo esteja me mostrando que há vida após o caos. Eu gostei mesmo dele, mas tento não se abrir demais. Afinal, é um homem rico, ocupado e mais velho. Deve ter algo mais que lhe interesse de verdade.
Mas, valeu a pena o momento!