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1704 Words
ALANA CLIVE O meu celular permanece em silêncio. Olho para a tela, esperando que alguma notificação apareça, mas nada. Não há um sinal sequer. O meu estômago revira de ansiedade e é como se um peso se acomodasse no meio do meu peito, me impedindo até de respirar direito. Apoio os cotovelos sobre a mesa e seguro a cabeça com as mãos. Tento me concentrar no relatório que preciso finalizar, mas as palavras não fazem mais sentido aqui na minha cabeça. As letras dançam na tela, estão embaralhadas como se zombasse da minha total incapacidade de focar em algo que faço todos os dias. Parece piada! Inspiro fundo, fecho os olhos e falo comigo mesma mentalmente. "Concentra, Alana. Termina isso e depois você surta em casa." Mas é inútil. Meus dedos ficam estagnados sobre o teclado, porque eu não consigo me concentrar. Estou aqui só de corpo, porque a alma saiu. Foi passear e não quer voltar. Ainda assim, forço meu corpo a funcionar, mas eu me levanto para pegar um cafezinho e depois eu volto. Bebo uns goles, inalo o aroma e começo a sentir uma certa leveza. Café é terapêutico! Pouco depois, eu começo a escrever algumas linhas, reviso outras, mas percebo que cometi erros bobos. Dados trocados, números que não batem, frases desconexas. Tento arrumar, mas logo desisto. É como se meu cérebro estivesse bloqueado. Drogä! Outra vez, eu pego o meu celular e vejo se tem mais alguma mensagem e nada. Literalmente nada. Nenhuma maldita notificação. Olho para o relógio no canto da tela do computador e são quase seis da tarde. Ainda falta revisar o relatório de material de divulgação e finalizar o quadro de acompanhamento mensal da agenda. Coisas que eu faria normalmente em uma hora, tranquila. Mas hoje? Hoje sinto que demoraria o triplo. Ou dez vezes mais. Solto um suspiro pesado. Poderia simplesmente fechar tudo e ir embora. Mas, sinceramente, eu não conseguiria. A única coisa pior do que estar aqui ansiosa, é estar em casa e sozinha, encarando aquele silêncio e esperando essa mensagem que não chega. Decido, então, fazer hora extra. Pelo menos aqui tem gente por perto, movimento, barulho de teclado, impressoras, conversas baixas. Qualquer coisa que me distraia dessa agonia. Digito, apago e refaço. Várias vezes! Tento organizar os dados, mas percebo que deixo algumas pendências. Me esforço para não esquecer nenhum detalhe, mas sei que amanhã terei que revisar tudo de novo. Hoje, não sou nem metade da profissional que costumo ser. Meus olhos se desviam da planilha aberta várias vezes para a tela do celular e faço isso de teimosa. Cada vez que acende, meu coração dá um salto... mas nunca é o que eu espero. São e-mails, promoções, notificações bobas de aplicativos que nem me importo mais e até alerta da operadora. Mas não dele ou dela. Pensando agora, é homem ou mulher? Eu não tenho contato com os amigos do Daniel. Eu conheço alguns, mas nunca dei meu número e nunca dei aberturä de nada. E amigas, ele não tem. O relógio marca 19h48 quando decido que basta. Não consigo mais fingir que estou trabalhando. Desligo o computador, guardo minhas coisas e jogo o celular no suporte do painel do carro assim que entro. Dou a partida, mas minha atenção não está na rua. Meu olhar se divide entre o trânsito e a tela iluminada do celular. Atualizo a tela, puxo a conversa pra cima, releio a última mensagem tantas vezes que já sei cada palavra, cada pontuação, de cor. "Hoje ele não vai te ver. Ele vai dar uma desculpa qualquer de trabalho, mas tem outros planos. Fique atenta!” A cada leitura, uma fisgada no peito. É como se a mensagem tivesse o poder de me sufocar. O carro da frente freia bruscamente, e eu me obrigo a pisar no freio, sentindo o corpo todo ser projetado pra frente. Uma buzina alta invade meus ouvidos, me arrancando de dentro da minha própria mente e eu solto um grito de susto. — Meu Deus! — Exclamo, levando a mão ao peitö, sentindo o meu coração disparado, quase saltando pela boca. Olho em volta, procurando de onde veio a buzina e é um motorista, irritado que me ultrapassa e faz questão de jogar o carro dele um pouco pra cima do meu, num claro sinal de reprovação. Idiotä! Mas eu me sinto uma idiotä. Aperto a tela do celular e o bloqueio de vez. Coloco-o no console do carro, de tela virada pra baixo, como se isso pudesse impedir ele de me afetar mais e respiro fundo. — É só fazer o caminho de casa... — Digo pra mim mesma, segurando o volante com mais força do que deveria. O caminho até minha casa nunca pareceu tão longo e tão automático. Assim que chego, estaciono e pego o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum sinal. Isso só pode ser uma grande piada com a minha cara. Não é possível! Entro em casa, jogo a bolsa no sofá e vou direto à cozinha. Coloco água pra ferver, pego meu chá de camomila e acho que é a melhor coisa a se fazer. A água ferve. Preparo o chá e vou andando até a sala. O chá aquece minhas mãos e é o que me prende aqui. O meu corpo inteiro é tensão, expectativa, medo e nervosismo. E tem a raiva por não ter respostas. Um desconhecido está acabando comigo por mensagens. Pode uma coisa dessas? Depois do chá, eu me levanto e vou para o quarto. Tiro a roupa do trabalho, deixo tudo jogado na poltrona e vou ao banheiro querendo um banho fresco. É tudo que eu preciso agora e fico aqui sem pressa. Saio do banho e visto um short de algodão cinza e uma blusa larga preta. Puxo o cabelo pra um coque bagunçado, seco os pés e vou descalça até a cozinha. Abro a geladeira sem nem saber o que quero, mas pego uns ovos, tomate e queijo. Decido que vou fazer uma omelete rápida. Nada muito elaborado, meu apetite não ajuda. Quebro o primeiro ovo na tigela, e, no instante seguinte, eu ouço a campainha. Eu congelo aqui. Me viro, olhando na direção da porta com o coração disparado. A primeira coisa que penso é: É ele. É o dono das mensagens. Veio até aqui. Meu Deus. Meu Deus. Mas, também penso no Daniel, mas não faz sentido. Me aproximo da porta devagar, com os passos lentos, quase sem respirar. Olho pelo olho mágico. E então, meu peito afunda. — Daniel? — A minha voz sai baixa, surpresa. Trêmula. Ele está ali. Bonito como sempre. Cabelos levemente bagunçados, camisa branca dobrada nos cotovelos, jeans escuro e aquele sorriso meio torto no rosto que é marca registrada de charme dele. Com isso, eu destravo e abro a porta. — Oi. O que você está fazendo aqui... — Eu nem tenho tempo de falar. Ele me puxa pela cintura e me beija num desespero que fico até perdida. Ele mesmo fecha a porta e ele me levanta em seguida e me prensa na parede. O que é isso tudo aqui? Daniel agarra os meus cabelos, invade a minha boca e me aperta firme como se não quisesse me deixar fugir e como se quisesse me marcar. Não minto, eu gosto desses beijos, mas sei aonde eles levam. Eu não quero sair do controle e estragar os meus planos e para completar, a tensão em mim não me deixa ficar aqui muito tempo. — Porrä... eu não consigo parar... — Esse é o alerta. — Daniel... ei, calma... — Ele começa a descer pelo meu pescoço. — Ei, amor... para! — Eu já fico incomodada. — Eu pedi pra parar.... — E agora ele me ouve. — E-eu não sabia que vinha... — Eu dei uma escapada... o sistema vai ficar estagnado por uns 30 minutos e... — Ele parece todo sem graça e posso dizer que até irritado. — Eu achei que podia ver a minha noiva... mas... — E você pode vir... — Eu não estou o expulsando. — Vai ficar se recusando até quando? Estamos noivos... qual o problema? — Ele volta ao assunto crucial. — Já conversamos sobre isso... eu fiz um plano e você entendeu. — Eu lembro disso. — Ou mentiu pra mim? — Essa espera está acabando comigo... não é fácil! Vamos nos casar e que importância tem se tränsarmos antes ou depois? — Eu odeio essa conversa. Dá uma sensação de que eu sou o problema. — Eu não vejo problema nenhum... ou não me ama? Isso dói. E dói numa ardência sem tamanho. Eu dou meia volta e passo as mãos no rosto sem acreditar que ouvi essa pergunta. — Acha que eu aceitei o pedido, por quê? Por nervosismo? Eu não faria isso... — Digo a ele. — É claro que amo, mas eu fiz um plano e quero seguir... só isso. É uma vontade minha... olha... — É melhor eu ir... — Nossa, isso dói mais ainda. — Eu tenho é... que voltar. Ele simplesmente abre a porta, vai embora e me deixa aqui na maior confusão. Eu chego na porta e vejo o carro dele saindo bruscamente e eu fico tentando entender essa reação toda. Eu posso dizer que esse é um grande defeito dele. Quando digo um não, ele foge irritado. Eu já perdi a forme do jantar e guardo tudo que peguei na cozinha. Eu tranco tudo, fecho as luzes e vou para o quarto ver um filme até pegar no sono. Ele não liga, não envia mensagem e não dá sinal. O tempo vai passando e nem tenho mais atenção no filme. Eu fico relembrando o jeito dele comigo e me sinto péssima. Mas, tudo ainda piora. “Eu disse que ele não te merecia e disse que você ia sofrer se for mesmo se casar com ele... aqui está a prova!” A mensagem vem acompanhada de um pequeno vídeo e eu fico num choque sem precedentes ao começa a assistir. Isso não pode ser real. Por favor, isso não... Logo depois, chega um endereço e é em tempo real. Isso está acontecendo hoje. Isso só pode ser um pesadelo.
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