Adeus sonho

1192 Words
O St. Margaret’s Home for Children parecia o mesmo. E completamente diferente. Emily parou diante do portão de ferro, seus dedos apertando a alça da bolsa com força enquanto observava o prédio que havia sido seu mundo inteiro. As mesmas paredes claras. As mesmas janelas. A mesma porta que William Blackwood sempre manteve aberta. Seu peito apertou. Ela não sabia quanto tempo ficou ali parada, apenas olhando. Memorizando. Como se tivesse medo de esquecer. Como se tivesse medo de perder aquilo antes mesmo de ir embora. Porque, de certa forma, ela já havia perdido. Ela empurrou o portão e entrou. O som familiar sob seus pés fez algo dentro dela quebrar um pouco mais. Assim que abriu a porta, foi recebida pelo som de risadas. Crianças correndo pelo corredor. Vozes. Vida. Seu lar. — Emily! Uma menina pequena correu até ela, envolvendo sua cintura em um abraço apertado. Emily forçou um sorriso. — Oi, Sophie. A menina levantou o rosto, sorrindo com inocência. — Você vai ficar para sempre, não vai? A pergunta foi uma faca. Emily não conseguiu responder imediatamente. Seu olhar percorreu o corredor. As outras crianças. O lugar onde ela cresceu. O lugar onde ela aprendeu a sobreviver. O lugar onde ela aprendeu a amar. Ela se ajoelhou, segurando o rosto da menina com carinho. — Eu sempre vou estar aqui. Mesmo que não estivesse. Mesmo que não pudesse. Mesmo que seu coração nunca saísse dali. A menina sorriu, satisfeita com a resposta. Inocente demais para entender o que estava acontecendo. Inocente demais para saber o que Emily havia sacrificado por eles. Mais tarde, Emily estava em seu quarto. Seu quarto. Pequeno. Simples. Seguro. A cama estreita. A estante com poucos livros. A janela que mostrava o jardim onde ela havia passado tantas tardes. Ela fechou a porta atrás de si. E trancou. O clique ecoou no silêncio. Ela permaneceu parada por alguns segundos. Respirando. Tentando se manter forte. Tentando não quebrar. Mas não conseguiu. Suas pernas falharam. Ela caiu sentada na cama, suas mãos tremendo enquanto segurava o tecido do vestido. Ela estava se casando. Em uma semana. Mas não era o tipo de casamento que ela havia sonhado. Não era amor. Não era escolha. Não era felicidade. Era obrigação. Era sacrifício. Era uma prisão. As lágrimas vieram sem permissão. Silenciosas no início. Depois imparáveis. Ela levou a mão à boca, tentando abafar o som. Porque mesmo ali… Ela não queria que ninguém ouvisse. Ela nunca tinha permitido a si mesma sonhar muito. Nunca esperou um conto de fadas. Mas, em algum lugar dentro dela… Ela sempre acreditou que um dia se casaria com alguém que a amasse. Alguém que olhasse para ela como se ela fosse importante. Como se ela fosse escolhida. Não obrigada. Não tolerada. Escolhida. Mas Adrian Blackwood não a escolheu. Ele a aceitou como uma obrigação. Como um preço. Como um fardo. Ela se deitou na cama, abraçando o próprio corpo enquanto as lágrimas continuavam caindo. Ela estava perdendo sua liberdade. Seu futuro. Seu sonho. Tudo por aquele lugar. Tudo por aquelas crianças. Tudo por um homem que a desprezava. Ela fechou os olhos, tentando imaginar como seria sua nova vida. Uma casa que não era um lar. Um marido que não era um marido. Um casamento sem amor. O vazio respondeu. Mas, mesmo assim… Ela sabia que faria tudo de novo. Porque aquele lugar havia salvado sua vida. Agora… Era a vez dela salvá-lo. Mesmo que isso custasse seu coração. Nova York Quatro dias antes do casamento O vestido era lindo. Emily o odiava. Ela permaneceu parada diante do espelho, incapaz de reconhecer a mulher refletida ali. O tecido branco caía perfeitamente sobre seu corpo, delicado e elegante demais para alguém como ela. A renda cobria seus braços, suave contra sua pele, enquanto a saia fluía até o chão. Parecia algo saído de um sonho. Mas não era. Era uma fantasia. Uma mentira. Ela nunca havia imaginado que usaria um vestido de noiva assim. Quando era mais nova, às vezes se permitia sonhar. Não com luxo. Não com riqueza. Mas com amor. Com alguém que seguraria sua mão com carinho. Com alguém que a olharia como se ela fosse a única pessoa no mundo. Não com alguém que a desprezava. A porta atrás dela se abriu. Ela soube quem era antes mesmo de olhar. Adrian. Sua presença era inconfundível. Pesada. Dominante. Fria. Seu corpo inteiro ficou tenso. Ela lentamente levantou os olhos para o espelho. Ele estava parado atrás dela. Impecável como sempre. Terno escuro. Postura perfeita. Olhos cinza fixos nela. Observando. Analisando. Julgando. O silêncio se arrastou por vários segundos. Longos demais. Dolorosos demais. Seu coração batia rápido. Ela não sabia por quê. Talvez porque, apesar de tudo… Uma pequena parte dela ainda se importava. Ainda esperava. Ainda era fraca o suficiente para desejar algo impossível. — Era isso que você queria? — ele perguntou finalmente. Sua voz era fria. Cortante. Ela franziu levemente o cenho. — O quê? Ele deu um passo à frente. Seus olhos percorreram seu corpo lentamente. Sem calor. Sem admiração. Sem nada. — Se vestir assim. Cada palavra era carregada de desprezo. — Como se isso fosse real. O peito dela apertou. — É apenas o vestido. Ele soltou uma risada baixa. Cruel. — Não se engane, Emily. Ele parou ao lado dela, seu reflexo no espelho ao lado do dela. Eles pareciam um casal. Mas não eram. Nunca seriam. — Isso não é um conto de fadas. Ela sabia. Sempre soube. Mas ouvir dele ainda doía. Ele inclinou levemente a cabeça, estudando seu reflexo. Seus olhos frios. Implacáveis. — Você ainda é a mesma garota daquele orfanato. As palavras foram suaves. Mas brutais. — E este casamento não muda isso. Ela engoliu em seco. Seus dedos apertaram o tecido do vestido. Mas ela não choraria. Não na frente dele. Nunca na frente dele. — Eu nunca pensei que mudaria. Ele a observou por um momento. Como se não esperasse aquela resposta. Mas rapidamente as paredes voltaram. Mais fortes. Mais frias. — Ótimo. Ele deu um passo para trás. Criando distância. Como se a proximidade fosse um erro. Como se ela fosse algo que ele não queria tocar. — Então não comece a ter ilusões agora. O silêncio caiu entre eles. Pesado. Sufocante. Ele se virou, caminhando em direção à porta. Mas antes de sair, ele parou. Sem olhar para ela, disse: — Você parece adequada. Adequada. Não bonita. Não deslumbrante. Adequada. Como um objeto. Como uma obrigação. Como algo que ele precisava tolerar. Então ele saiu. A porta se fechou atrás dele. E Emily ficou sozinha novamente. O silêncio era ensurdecedor. Ela olhou para o próprio reflexo. Para o vestido. Para a mulher que estava prestes a desaparecer. Ela havia imaginado muitas vezes como seria usar um vestido de noiva. Mas nunca imaginou que se sentiria tão vazia. Tão invisível. Tão indesejada. Ela levou a mão ao peito, tentando ignorar a dor que crescia ali. Porque aquela era sua realidade agora. Ela era a esposa de Adrian Blackwood. Mesmo que ele nunca a quisesse. Mesmo que ele nunca a amasse. Mesmo que ele sempre a odiasse.
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