Testamento

1441 Words
Boston, Massachusetts A neve caía silenciosamente do lado de fora. Tudo parecia calmo demais. Como se o mundo não soubesse que algo estava prestes a acabar. Emily caminhava pelo corredor do hospital com passos lentos, segurando o copo de café que já havia esfriado em suas mãos. Ela não lembrava quando tinha pegado aquilo. Não lembrava de muita coisa desde a noite anterior. Desde que os médicos disseram que não havia mais nada a fazer. Desde que disseram que era apenas uma questão de tempo. Seu coração apertava a cada passo que dava em direção ao quarto. Ela não estava pronta. Ela nunca estaria pronta. Quando empurrou a porta, encontrou Adrian parado ao lado da janela. Imóvel. As mãos nos bolsos. O olhar fixo na cidade coberta de branco. Ele não se virou quando ela entrou. Mas ela sabia que ele havia percebido. Adrian sempre percebia tudo. — Você deveria descansar. — ela disse suavemente. Ele soltou uma respiração lenta. — Eu não estou cansado. Era mentira. Ela conseguia ver no modo como seus ombros estavam rígidos. No modo como sua mandíbula permanecia travada. Ele estava cansado. Cansado de sentir. Cansado de estar ali. Cansado de tudo que aquele lugar o fazia lembrar. Ela não respondeu. Porque não era o momento de discutir. William estava deitado na cama. Fraco. Silencioso. Pequeno demais para o homem que sempre pareceu maior que o mundo. Emily se aproximou, pegando suavemente sua mão. Fria. Mas ainda ali. Ainda presente. — Eu estou aqui. — ela sussurrou. Os olhos dele se abriram lentamente. Cansados. Mas conscientes. Ele sorriu ao vê-la. — Eu sabia que você estaria. As lágrimas queimaram seus olhos, mas ela não deixou cair. Ela não podia. Não na frente dele. Nunca na frente dele. — Sempre. William moveu o olhar lentamente. Até encontrar Adrian. — Venha aqui. Adrian hesitou. Apenas por um segundo. Mas Emily viu. Ela sempre via. Ele se aproximou, ficando ao lado da cama. William levantou a mão com esforço. Adrian segurou. E, naquele momento… Ele não parecia um CEO. Não parecia um homem frio e intocável. Parecia apenas um neto. Um garoto prestes a perder a última pessoa que realmente o conhecia. — Não carregue tanto ódio. — William disse, sua voz fraca. Adrian não respondeu. Mas seus dedos apertaram levemente os do avô. — O ódio é uma prisão pior do que qualquer lugar. Os olhos de Adrian se fecharam brevemente. Como se aquelas palavras o atingissem. Mas quando abriu novamente, as paredes estavam lá. Firmes. Protegendo-o. — Eu estou bem. William sorriu com tristeza. — Não. Você não está. O silêncio caiu entre eles. Pesado. Inevitável. William então virou a cabeça lentamente. Procurando Emily. Ela se aproximou imediatamente. — Você precisa continuar sendo forte. — ele disse a ela. Ela assentiu, incapaz de falar. — Este lugar precisa de você. Seu coração apertou. — Eu nunca vou abandoná-lo. Os olhos dele brilharam suavemente. — Eu sei. Sua mão apertou a dela fracamente. Depois apertou a de Adrian. Unindo os dois. Mesmo que eles não quisessem. Mesmo que eles resistissem. — Vocês dois… precisam aprender a enxergar um ao outro. Adrian ficou imóvel. Emily prendeu a respiração. Mas nenhum dos dois respondeu. Porque nenhum dos dois sabia como. A respiração de William ficou mais lenta. Mais fraca. Mais distante. Emily sentiu o pânico crescer. — Sr. Blackwood… Ele olhou para ela uma última vez. Depois para Adrian. E sorriu. Um sorriso calmo. Em paz. Então… Ele se foi. O som contínuo do monitor preencheu o quarto. Frio. Vazio. Definitivo. Emily sentiu sua mão ser tomada pelo vazio. Seu corpo tremeu. Mas ela não chorou. Não ainda. Adrian soltou lentamente a mão do avô. Ele não disse nada. Não fez nenhum som. Apenas ficou ali. Olhando. Como se esperasse que ele voltasse. Mas ele não voltou. Nunca voltaria. Adrian virou-se abruptamente e caminhou até a porta. Emily o seguiu com o olhar. — Adrian… Ele parou. Mas não se virou. — Eu sinto muito. Silêncio. Então ele disse, sua voz fria novamente: — Eu não. E saiu. Deixando-a sozinha. Com o vazio. Com a dor. Com o fim de tudo que ela conhecia. Ela não sabia… Que aquele não era o verdadeiro fim. Era apenas o começo. Porque em poucos dias… Ela descobriria que o último desejo de William Blackwood… Mudaria suas vidas para sempre. O escritório ainda cheirava a ele. Madeira antiga. Couro. E o leve aroma do uísque que William Blackwood costumava beber nas noites mais frias. Emily sentiu o peito apertar ao cruzar a porta. Nada havia mudado. E, ao mesmo tempo, tudo havia acabado. Ela manteve as mãos entrelaçadas à frente do corpo, tentando ignorar o nervosismo que crescia dentro dela. O advogado estava sentado atrás da mesa. Sério. Formal. Definitivo. Mas não era ele que fazia seu coração bater mais rápido. Era o homem parado ao lado da janela. Adrian. Ele estava impecável, como sempre. Terno escuro. Postura perfeita. Frio. Distante. Intocável. Como se não tivesse enterrado o avô dois dias antes. Como se nada tivesse o atingido. Ele não olhou para ela. Nem uma vez. Como se ela não existisse. Como se ela nunca tivesse existido. — Podemos começar? — perguntou o advogado. Adrian não se virou. — Termine com isso. Sua voz era calma. Mas havia algo sob a superfície. Algo perigoso. Emily sentiu. O advogado abriu o documento. O som do papel pareceu alto demais. Irreversível demais. — Este é o último testamento do Sr. William Blackwood. O silêncio tomou conta do ambiente. — Todo o patrimônio, ativos e controle da Blackwood Enterprises serão transferidos ao único herdeiro, seu neto, Adrian Blackwood. Adrian não reagiu. Claro que não. Aquilo nunca esteve em dúvida. Sempre foi dele. Sempre seria. Mas o advogado continuou. — Sob uma condição obrigatória. Adrian finalmente se virou. Lentamente. Seus olhos encontraram o advogado. Frios. Afiados. — Continue. O advogado engoliu em seco. — Para receber a herança completa, o Sr. Adrian Blackwood deverá se casar com uma das órfãs criadas no St. Margaret’s Home for Children. O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais pesado. Mais perigoso. Emily sentiu o coração acelerar. Isso não fazia sentido. Isso não podia ser real. Adrian não disse nada. Mas algo mudou. Seu corpo ficou rígido. Sua expressão endureceu. — Isso é uma piada? — ele perguntou calmamente. Mas não era calma. Era controle. Controle puro. — Não, senhor. É uma cláusula legal. Adrian deu um pequeno sorriso. Sem humor. Sem calor. Sem vida. — Ele não faria isso. O advogado hesitou. — Ele fez. O olhar de Adrian escureceu. Frio. Devastador. — Quem? Uma única palavra. Uma única exigência. O advogado olhou para Emily. E então disse: — Emily Carter. O mundo parou. Emily sentiu o ar desaparecer. Seu nome ecoou na sala. Pesado. Irrevogável. Ela lentamente levantou os olhos. E encontrou os dele. Nunca havia visto Adrian assim. Não era apenas raiva. Era traição. Era fúria contida. Era algo quebrando dentro dele. Ele a encarava como se ela fosse a causa de tudo. Como se ela tivesse feito aquilo. Como se ela tivesse tirado algo dele. — Não. — ele disse. Uma única palavra. Baixa. Controlada. Perigosa. — Há mais. — continuou o advogado. Adrian não desviou o olhar dela. Nem por um segundo. — Caso o casamento não ocorra, o financiamento do St. Margaret’s será permanentemente encerrado, e a propriedade será vendida. Emily sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Não. Não o orfanato. Não as crianças. Não o único lar que ela já teve. Ela não percebeu quando começou a tremer. Mas Adrian percebeu. Ele sempre percebia. Seus olhos caíram para suas mãos. Depois voltaram para seu rosto. Estudando. Calculando. Frio. Ele caminhou até ela. Cada passo lento. Intencional. Ameaçador. Até parar bem diante dela. Perto demais. Sua presença esmagadora. Ela se recusou a recuar. Se recusou a quebrar. Mesmo que estivesse quebrando por dentro. Ele se inclinou levemente. Sua voz baixa. Apenas para ela. — Foi isso que você quis? As palavras foram uma lâmina. Ela sentiu a dor. Mas sustentou o olhar. — Eu não sabia. Ele a estudou. Como se procurasse uma mentira. Como se quisesse encontrá-la culpada. Mas não encontrou. E isso pareceu irritá-lo ainda mais. Seu maxilar travou. Seus olhos escureceram. — Você sempre esteve aqui. Ela não respondeu. Porque era verdade. Ela sempre esteve. Ele foi embora. Ela ficou. O silêncio entre eles era sufocante. Então ele disse, frio: — Isso não muda nada. Mas ela sabia. Já havia mudado tudo. Porque, naquele momento… O homem que odiava aquele lugar… Estava preso a ele novamente. E desta vez… Preso a ela.
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