Aflito e inquieto por não poder fazer mais nada, Paco começa a refletir e pensa em um possível lugar em que ela possa estar e rapidamente liga para Eduardo.
-Eduardo, acho que sei onde Mica pode estar.
Chegando no local Eduardo não nota nenhuma movimentação estranha e entra na casa. Ao passar pela sala, um homem o agarra e tenta sacar sua arma, mas Eduardo consegue se livrar dele primeiro. Sobe as escadas e procura em todos os andares de cima, mas não encontra ninguém. Desce e procura no térreo, também sem sucesso. Mas havia um lugar em que ele não havia ido ainda, a garagem. Chegando lá encontra Mica acorrentada e com vários ferimentos pelo corpo, estava tão fraca a ponto de quase desmaiar.
-Mica, o que fizeram com você!? Achei que tinha te perdido, você tá bem? Vamos sair daqui.
-Na-não posso...você...tem...que sair daqui... agora. É uma armadilha.
-De jeito nenhum, eu não vou deixar você aqui! - diz Eduardo enquanto tira as correntes de Mica.
-Vai logo...eu não tenho nada a perder. Só estavam esperando você chegar...pra nos encurralar e nos matar.
-Mas eu tenho, não posso perder você. Vem, levanta e fica atrás de mim.
Mica m*l consegue se mexer, mas se levanta e segue Eduardo.
Quando estão saindo do cômodo são surpreendidos por um brutamontes, que agarra Eduardo pelo pescoço e mira um revólver em sua cabeça. Rapidamente, este dá-lhe um soco no estômago, que faz com que o homem o solte imediatamente. Depois o finaliza com um soco na cabeça.
Em seguida aparece outro brutamontes, dessa vez bem maior que o outro, que logo imobiliza Eduardo. Sem pensar duas vezes, Mica pega a arma do outro homem e o acerta, fazendo com que o armário humano caia duro no chão.
-Vamos, temos que continuar.
-Não, não dá. Já te disse pra me deixar aqui. Fala pro meu pai que você os tentou impedir, mas me mataram assim mesmo.
-Não vou te deixar aqui, jamais. Perdi todas as pessoas que eu me importava e você não vai ser mais uma delas. Eu sei que você consegue, por favor, não deixa isso acontecer de novo.
Mica pensa em sua mãe e que daria qualquer coisa para tê-la de volta, pensa no quanto foi horrível ter que perder a pessoa que mais amava, e então levanta e segue o caminho.
Prestes a sair da casa, ouvem um tiro e Mica cai no chão. Eduardo olha pro lado e se desespera.
-Ah não, Mica. O que foi que eu fiz? Meu Deus.
-Eu, eu vou morrer, né? Não queria que fosse desse jeito...e nem aqui.
-Ei, olha pra mim, você não vai morrer, vou te tirar daqui, ok?
O homem que fez o disparo finalmente aparece, era o mesmo que Eduardo viu há dias atrás.
-Não esperava que ninguém viesse atrás dela, muito menos que matasse meus homens. Você cometeu um erro grave jovem, e agora vai pagar por ele. Eu não queria fazer o trabalho sujo, mas...
Antes que pudesse terminar a frase, o homem cai no chão com a testa ensanguentada e quando os dois olham para frente vêem Paco com a arma ainda apontada para o falecido.
-Não podia cometer o mesmo erro duas vezes e deixar você acabar com minha vida de novo.
-Pa..ai.
-Rapaz, leve ela para o hospital imediatamente.
-Sim, senhor.
Eduardo segura Mica nos braços e a tira dali, levando-a direto para o hospital. Se ela fosse realmente morrer, não seria naquele lugar horrível junto com cadáveres de brutamontes inimigos e onde passou dias à míngua, mas pelo menos estaria com Eduardo.
Após algumas boas horas de espera, Paco e Eduardo puderam ver Mica, mas ela ainda não estava acordada.
-Se não fosse por você ela não estaria viva, rapaz, fez um ótimo trabalho. Tenho certeza que ela faria o mesmo por você. - diz Paco.
-E ela fez, senhor, também não estaria aqui se não fosse por ela, é muito corajosa.
Paco não responde, apenas abaixa a cabeça.
-Senhor, desculpe a pergunta, mas como sabia exatamente onde ela estava?
Paco hesita, mas responde.
-Há alguns anos, Icarus, aquele homem de hoje, queria se tornar meu sócio. Eu aceitei e tudo correu bem durante um tempo, mas o que eu não sabia era que durante esse tempo ele estava roubando meu dinheiro pra abrir o próprio negócio sujo. Quando me dei conta, estava quase sem um centavo e no fundo do poço. Pensei comigo que não podia deixar aquilo assim, então fui até a casa dele com meus homens e queimamos tudo, mas ele não estava lá, só a avó e dois dos irmãos dele. Foi algo que ficou marcado pra nós dois, mas apesar de tudo seguimos nossos caminhos.
Houve um momento de silêncio entre ambos, às vezes de reflexão, que mais tarde foi interrompido por Paco.
-Pois muito que bem, se me permite, rapaz, preciso ir.
-Até breve, senh...Paco.
Assim que Paco sai do quarto, Eduardo se aproxima de Mica e segura sua mão. A cada minuto que passava tinha mais certeza do que sentia por ela, mas não sabia se era recíproco e temia que nunca pudesse descobrir.
Todos os dias Eduardo ia ao hospital na esperança de encontrá-la acordada, até que um dia ele consegue.
-Ei, você veio!
-É claro. - responde Eduardo com um sorriso. -E trouxe uma surpresa!
Eduardo mostra o livro que lia para Mica à noite.
-Meu livro!! - Mica exclama contente. -Pode ler pra mim?
-Será um prazer. - dito isso, Eduardo se move para pegar uma cadeira, mas é impedido por Mica.
-Espera, senta aqui comigo - diz ao chegar para o lado, deixando um espaço para ele.
Obviamente Eduardo aceita, movido pelo amor que sentia por ela e também pelo carinho e admiração, mesmo sabendo que não deveria fazer isso. Adorava cuidar daquela garota, não fazia disso mais o seu trabalho e sim seu objetivo de vida, era de coração.
Assim que se senta na cama, Mica o abraça, não pensa duas vezes e retribui o gesto. Ficam assim enquanto Eduardo lê com entusiasmo o livro que ela tanto gosta, até que o interrompe.
-Você é diferente dos outros.... dos outros seguranças do papai. Você se importa. - faz uma pausa e continua -Por quê?
Eduardo sabe o que tem que dizer, está quase saindo de sua boca, mas o medo das consequências é maior. Tem medo da rejeição por parte de Mica e da morte por parte do pai dela, que confiou sua filha a ele para fazer somente o que ele mandou. Afinal de contas ele não tem nada a perder, então vai em frente e diz a verdade.
-Porque eu te amo. Te amei desde a primeira vez que te vi, mas não tive coragem de dizer.
Mica olha séria para Eduardo, que por um momento pensa que nunca deveria ter dito aquilo, e faz o que ele pensa que jamais aconteceria: ela o beija. Eduardo fica atônito e demora um pouco para a ficha cair e beijá-la também, foi o primeiro beijo de Mica e o melhor da vida de Eduardo.
Quando terminam, Mica começa a falar:
-Pra mim você era só mais um dos homens do meu pai, que só faria o que ele mandasse e não ligaria se eu estava bem ou morrendo, mas eu notei que havia algo diferente em você. Se importa e cuida de mim como se eu fosse alguma coisa.
-Mas você é, é a pessoa por quem me apaixonei, a garota mais doce e gentil que já conheci, que enfrenta homens enormes e armados pra me salvar. Quero cuidar de você pelo resto da minha vida.
-Ni... ninguém nunca disse isso pra mim, nunca se importou dessa maneira.
Mica o abraça mais forte e começa a chorar. Eduardo não deixa de notar e enxuga suas lágrimas.
-Ei, pequena, tá tudo bem, tô aqui com você. E sempre estarei.
-T-te amo. Promete que fica comigo pra sempre?
-Claro, claro que sim. É o que eu mais quero.
Os dois ficam abraçados, até que Mica dorme e Eduardo se retira lentamente.
-Até amanhã, meu amor. - sussurra ele depois de dar um beijo na testa da garota.
Alguns dias depois Mica recebe alta e Eduardo vai buscá-la.
-Falei com o médico e ele disse que você já está bem o suficiente pra ir pra casa. Pode se trocar.
Eduardo entrega as roupas de Mica, que rapidamente as coloca. Depois assinam alguns papéis e vão embora.
-Ei, não precisa segurar meu ombro como se fosse meu pai - diz Mica rindo, antes de segurar a mão de Eduardo. -Assim é melhor, não acha?
Eduardo olha para Mica e sorri. Não diz nada, apenas pensa na sorte que tem em encontrar uma pessoa incrível como aquela garota, ali ele sabia que sua vida iria mudar.
Os meses foram passando tranquilamente e os dois foram se conhecendo melhor cada minuto que passavam juntos. Certo dia, Paco precisou viajar por alguns dias e para a felicidade dos dois decidiu que Eduardo ficaria.
-Não quero que aquilo se repita, então você fica aqui e cuida dela, fui claro?
-Claro, sim senhor.
-Ótimo, devo voltar em um ou dois dias. Vejo vocês em breve.
Paco lança um olhar de reprovação para sua filha e sai.
-O que foi isso? - Eduardo pergunta confuso.
Mica suspira antes de responder.
-Da última vez que ele saiu eu tentei me matar e...ah, deu a maior confusão. Eu te disse que ele me odeia.
-Os pais são assim mesmo, ele só ficou preocupado porque não queria que te acontecesse nada, ele não te odeia. Não fica pensando nisso, vamos nos divertir! Podemos nadar, tá fazendo muito calor.
-Ahnn, não não, eu... melhor não. Quer dizer, pode ir se quiser. Ih, olha lá fora, tá cheio de nuvens, parece que vai chover.
-Nãão, você vem comigo, senhorita. E nem vem com essa, não tem nuvem nenhuma.
-Não, eu... não... gosto. É, eu não gosto. Aquela água cheia de cloro deixa meu cabelo igual a uma palha.
-Não gosta? Quem não gosta de nadar? Vem, vamos lá.
-Eu não posso...
-Ué, por quê não? Tá o maior calor lá fora. E também seu pai disse que poderíamos usar a piscina.
-Não é isso, é que...eu... Ai, promete que não vai rir?
-Mas é claro. Qual é o problema?
-Eu...tenho medo de piscina, mar, lagoa. Enfim, tudo que tenha água e seja fundo, é isso. Ai meu Deus, que vergonha.
-Ei, tá tudo bem. É normal ter medo. Se você quiser podemos ir juntos, pra ver se perde isso, o que acha?
-É, é uma boa ideia, posso tentar.
-Ótimo, vai se arrumar, te espero lá embaixo.
-Ahhh, só você pra me fazer uma coisa dessas.
Quando Mica chega na área da piscina, Eduardo já está aproveitando a água.
-E-eu não vou conseguir, desculpa. Não vai dar.
-Ah, que isso, deixa de bobeira. Tá vendo só? Não é fundo. - Eduardo mostra a água batendo quase na altura de seu ombro. -Pode vir, vou te segurar. Confia em mim.
-T-tá bom... - diz Mica enquanto se senta na beirada da piscina e se prepara para entrar.
Quando entra, Eduardo a segura e ficam um tempo abraçados, parece que estão em um dos mais belos sonhos, flutuando nas nuvens, um sentindo o corpo e o calor do outro. Mica esquece todo o pesadelo que havia passado anteriormente, quando está com Eduardo tudo parece perfeito, havia uma conexão entre eles. Aquilo foi maravilhoso para os dois e ambos queriam que aquele momento jamais acabasse.
-Te amo - diz Mica. É a primeira vez que ela diz aquilo pra alguém e Eduardo não sabe o quanto é especial por Mica ter dito aquilo para ele.
-Eu também te amo...mais do que você imagina.
À noite, Eduardo vai até o quarto de Mica para ver se está tudo certo.
-Tá tudo bem? Precisa de algo?
-Está sim, obrigada. Só gostaria do meu beijo de boa noite.
-Às suas ordens, princesa, boa noite. - diz Eduardo cumprindo o pedido da garota.