A expressão de Helena era uma mistura de susto e alívio pelo encontro ter acabado, como se ela tivesse acabado de passar por um furacão, decidiu ignorar as últimas palavras de Anne e seguir em frente, por sorte o filho não tinha ouvido muita coisa do encontro, estava entretido demais com um cachorro que estava preso a uma mesa na área externa de um café aguardando pacientemente seu dono terminar a refeição.
Era bom que tudo continuasse assim, eles eram uma família, uma família diferente. Henrique tinha Helena e Helena tinha Henrique, apenas os dois, juntos, e ela queria que continuasse assim.
Por curiosidade decidiu entrar no novo mercado e abastecer o estoque de lanches para as semanas que passaria na casa da mãe. Alguns nãos depois, uma ida normal ao mercado para qualquer mãe, Helena se viu parada em frente a um freezer estreito que continha alguns iogurtes. A marca que Helena comprava normalmente para Henrique não estava disponível então, a única escolha era o que ele iria odiar menos. Perdida por um momento não percebeu quem havia acabado de entrar no mercado, Frederico, com um terno bem cortado, uma assistente e um segurança a tiracolo e sua habitual pose de dono do mundo.
Qualquer um que olhasse para o vidro do freezer naquele momento podia ver o rosto de Helena se tornar lívido gradualmente, ela não estava preparada para encontrar com ele tão cedo. Ela reuniu as compras o mais rápido que pode e puxou o filho pela mão, de cabeça baixa pagou tudo e se retirou do local. Frederico notou a mulher diferente no mercado, mas não a reconheceu. Nove anos era muito tempo, e graças a deus pela tintura de cabelo, de morena a ruiva em alguns minutos.
A volta foi mais rápida. “Por que raios, Afrodite não tinha avisado que ele estava na cidade?” Ela não sabia de tudo sempre? Helena não estava preparada para se encontrar com ele, se encontrar com seu passado, aliás, um passado que o tempo tinha tratado muito bem. Aparentemente ninguém daquela família envelhecia.
“Não Helena, esquece. d***a! ele não vale um centavo, de que adianta ter dinheiro se o cérebro só funciona pra manter o corpo vivo?” O encontro a deixara irritada.
Henrique, ainda criança, não entendia o motivo das súbitas mudanças de humor da mãe, e por isso caminhou em silêncio em direção à casa da avó. Quando mães se estressam o melhor é sair do caminho o quanto antes você puder até que elas se acalmem. Todos os filhos sabem disso.
Os dois chegaram à casa da mãe de Helena na metade do tempo da ida, as tentativas para que o filho não percebesse seu nervosismo durante o caminho, mostrando pequenos animais à beira da estrada, foram fracassadas. Naquele momento ela não conseguiria enganar a si mesma.
“Hora maravilhosa para casar Afrodite! Todas as pessoas que eu não queria encontrar eu encontrei!” Ela continuou xingando sua situação internamente até que o dia terminasse.
A irmã escolheu casar à beira-mar, o lugar favorito das duas na infância. O jantar de ensaio da cerimônia seria realizado duas semanas antes do grande dia. Os meteorologistas previam tempo ameno, então Helena calculou que não aconteceriam grandes problemas no evento. Era um bom lugar para casar.
Afrodite acabou pedindo a ajuda da irmã mais nova para os detalhes finais da decoração, a família bem poderia ter contratado um organizador profissional para a festa, mas tal atitude não combinava com o nível de discrição que os Hutton preferiam, um evento desta importância poderia atrair atenção indesejada para a família, e todos ali estavam melhores longe da atenção da mídia.
Então Helena passou os próximos dias ouvindo e contribuindo com ideias para a decoração do evento. Discussões e pesquisas intermináveis em sites especializados tornaram os dias mais leves e fizeram com que ela tirasse da cabeça o encontro indesejado com Frederico. Henrique passava a maior parte do tempo livre sob a supervisão de Kira, o tempo e a atenção que a mãe de Helena dedicava a ele era uma tentativa de compensar os erros do passado e o tempo que perdera com as filhas.
A decoração do jantar de ensaio e do casamento seria semelhante, salvo os detalhes mais caros como as flores que seriam utilizadas apenas no grande dia.
Ambos os eventos ocorreriam ao entardecer e para se proteger das condições climáticas que o lugar escolhido para a festa poderia apresentar após o pôr do sol, uma tenda seria instalada com a iluminação apropriada para que a comemoração continuasse durante algumas horas da noite. O casamento seria realizado ao ar livre por um juiz de paz amigo da família, o ensaio serviria para que os padrinhos e damas de honra treinassem a ordem dos acontecimentos na cerimônia, e só então convidados se dirigiriam a tenda para comemorar as bodas de Afrodite e Felipe.
Os detalhes finais da cerimônia ao ar livre tinham sido acertados o que incomodava Afrodite eram os detalhes referentes à festa que ocorreria após o bendito “sim”:
— Ok, uma tenda, sobre as mesas, precisamos de uma maior para as pessoas da família e cinco mesas de seis lugares para os convidados. Deve ser o suficiente —Descrevia imaginando — Guardanapos de seda na cor creme, os talheres de prata da vovó e a porcelana com o brasão da família. Sistema de Som, uma pista de dança e a comida.
Conforme ela ia checando a lista marcava os tópicos que já tinham sido resolvidos, a ansiedade a impedia de perceber um detalhe importante que havia ficado para traz. Spoiler alert: Afrodite tem Ph.D. em esquecer coisas.
Os olhos de Afrodite brilhavam e helena admirava isso, não conseguia se imaginar casando e tinha vontade de rir só de pensar na possibilidade, ela provavelmente enlouqueceria se tivesse que pensar uma um evento deste tamanho sozinha:
— Boa sorte pra conseguir a porcelana da família, nem para o papa a mamãe liberaria o uso dela.
— Ah ela vai liberar sim, não se preocupe — Afrodite respondeu rapidamente.
Bem, os anos definitivamente tinham mudado Kira.
Afrodite continuou falando:
—Ah, e tem o detalhe do encosto das cadeiras, um tope de tecido dourado, e entre as mesas um caminho com pequenas tochas que vai terminar na mesa que será ocupada pela família.
—Só isso? Você não quer que jogue purpurina em você no final da noite? — Helena não pode resistir a piada.
— Sua invejosa! — Afrodite respondeu atirando uma almofada da irmã que dava risada. — Eu estou estressada dá pra ajudar? Eu vou me casar em algumas semanas e passar o resto da vida com essa pessoa, é um grande passo a se dar!
— Ok, ok, me desculpe, eu não sei como você está se sentindo e talvez nunca saiba, mas sério é um pouco de exagero — retrucou segurando o riso para o olhar de desprezo que a irmã lançava em sua direção — Mudando de um assunto bom para um assunto r**m, você não sabe quem eu encontrei no mercado.
— Frederico? — Afrodite perguntou pressentindo o próximo assunto que as duas discutiriam.
Helena fez uma careta ao ouvir o nome e continuou:
—Sim! Se você sabia que ele estava aqui porque não me avisou?
— É, ele mandou mensagem perguntando se a mulher bonita com o garoto estavam aqui para o meu casamento.
— E o que você respondeu? —Helena não estava feliz ao saber que ele a notara.